MINERADORA AUSTRALIANA LIGADA A TRUMP QUER EXPULSAR MORADORES DA BAHIA


Foto: rawpixel.com / Carol M HighsmithA mineradora australiana Brazilian Rare Earths (BRE), que tem a bilionária Gina Rinehart entre suas acionistas por meio da Hancock Prospecting, pretende explorar terras raras no projeto Monte Alto, no Vale do Jiquiriçá, na Bahia. A iniciativa prevê o beneficiamento dos minerais na região e a construção de uma refinaria industrial em Camaçari, com produção destinada principalmente à França e possíveis mercados nos Estados Unidos e no Japão. As informações foram apuradas pelo Intercept Brasil.
Segundo levantamento do Intercept Brasil com dados da Agência Nacional de Mineração (ANM), a Bahia concentra 31% dos processos minerários ativos relacionados a terras raras no país. A BRE responde por 230 requerimentos desse tipo no estado e afirma controlar 167,6 mil hectares na região. Os minerais são estratégicos para a fabricação de tecnologias como veículos elétricos, equipamentos militares e sistemas de inteligência artificial.
O projeto enfrenta questionamentos ambientais porque sua área minerária se sobrepõe à Área de Proteção Ambiental Caminhos Ecológicos da Boa Esperança, que abriga nascentes, cursos d’água e remanescentes de Mata Atlântica. Segundo a reportagem, cerca de 18,4% da APA está incluída na área do processo minerário de Monte Alto. Além disso, há quatro processos da subsidiária Borborema Recursos Estratégicos sobrepostos à Estação Ecológica de Wenceslau Guimarães, unidade de proteção integral onde a mineração é proibida.
Moradores de Monte Alto, comunidade majoritariamente negra e dedicada à agricultura familiar, relataram ao Intercept transtornos com a circulação de caminhões, máquinas e obras nas estradas, além de pressão para vender suas propriedades. Segundo os residentes, 17 das cerca de 120 famílias já venderam seus imóveis à Borborema. Em abril, um manifesto assinado por 104 famílias denunciou abordagens consideradas constrangedoras, falta de transparência e pressão nas negociações. A empresa afirmou que não admite condutas inadequadas e que as propostas são feitas individualmente, com base em avaliações técnicas.
Em março, a ANM concedeu à mineradora uma Guia de Utilização, que permite a extração experimental de até 2 mil toneladas de minério por ano durante três anos, antes do licenciamento definitivo. A autorização, porém, não significa que a extração já possa começar: segundo a Borborema, a atividade depende das autorizações ambientais e radiológicas aplicáveis. O licenciamento da exploração comercial está sujeito à análise do Ibama, enquanto a Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN) informou que o processo relacionado ao material radioativo está em fase inicial de avaliação regulatória.
Outro ponto de preocupação é a presença de urânio na região. Moradores ouvidos pela reportagem afirmaram que o assunto não foi discutido nas reuniões com a empresa, embora o CEO da BRE tenha mencionado níveis elevados do mineral em entrevista à imprensa estrangeira. A Borborema declarou que não haverá produção, enriquecimento ou processamento químico de urânio na mina de Monte Alto. A eventual recuperação do material como concentrado está prevista para uma futura planta industrial em Camaçari e dependerá de estudos, licenciamento e autorizações. A ANSN informou que ainda não autorizou a produção de concentrado de urânio no empreendimento.
O plano da BRE prevê transportar o concentrado de terras raras por cerca de 260 quilômetros, do Vale do Jiquiriçá até Camaçari, onde a empresa pretende instalar uma refinaria industrial. A unidade deverá produzir óxidos de terras raras e, caso obtenha as autorizações necessárias, concentrado de urânio. A iniciativa também está relacionada à disputa internacional pelo fornecimento desses minerais, diante do interesse de países como Estados Unidos e Japão em reduzir a dependência da China.


