FIM DA ESCALA 6X1: QUANTO AS EMPRESAS PRECISARÃO VENDER?


Foto: divulgaçãoA aprovação, pelo Senado, da proposta que prevê o fim da escala 6x1 e a redução gradual da jornada máxima semanal de 44 para 40 horas, sem redução salarial, abre uma nova discussão para o setor empresarial: como adaptar a operação sem comprometer a rentabilidade do negócio?
Embora o debate esteja concentrado nos direitos dos trabalhadores e nos possíveis impactos sobre os custos das empresas, existe uma questão prática que merece atenção: quanto cada negócio precisará produzir ou vender para absorver eventuais despesas adicionais e preservar sua margem de lucro?
Para Deivisson Sousa, consultor financeiro e fundador da Ora Finanças, a resposta passa pelo planejamento financeiro e pela capacidade de reorganizar os processos de trabalho. Quando a remuneração mensal é mantida e a jornada diminui, o custo relativo de cada hora trabalhada aumenta. O efeito sobre o resultado da empresa, entretanto, dependerá de fatores como o setor de atuação, a estrutura de custos, a margem de lucro e a produtividade.
O desafio pode ser maior para micro e pequenas empresas, especialmente aquelas que dependem de atendimento presencial e precisam manter as portas abertas durante muitas horas por dia. Restaurantes, mercados, salões de beleza e estabelecimentos comerciais, por exemplo, podem precisar rever escalas, redistribuir tarefas ou contratar profissionais para manter o funcionamento.
“O risco não é simplesmente trabalhar cinco dias em vez de seis, mas reduzir a jornada sem criar condições para que a economia se adapte.” Essa é a avaliação de Deivisson sobre a necessidade de preparar as empresas para a transição.
Uma das alternativas é avaliar se a operação pode ganhar eficiência. A revisão de processos, a redução de desperdícios, o uso de tecnologia e a melhor distribuição das equipes podem ajudar a compensar parte dos custos adicionais. Esses ganhos, porém, não são automáticos e variam conforme a atividade e as condições de cada negócio.
A mudança também pode gerar efeitos positivos. Trabalhadores com mais tempo de descanso podem apresentar melhores condições para executar suas tarefas, enquanto empresas que oferecem condições de trabalho mais atrativas podem ter oportunidades de reduzir a rotatividade e os gastos com recrutamento e treinamento. Esses possíveis benefícios precisam ser avaliados junto aos custos e às necessidades operacionais.
Outro ponto de atenção é o preço dos produtos e serviços. Se a empresa não conseguir absorver o aumento dos custos nem compensá-lo com ganhos de eficiência, poderá considerar reajustes de preços, redução de margens ou adiamento de investimentos. O repasse ao consumidor, contudo, não é inevitável: depende da concorrência, da demanda e da capacidade financeira do negócio.
Na avaliação do consultor, o primeiro passo é fazer as contas antes de tomar decisões. Projetar cenários para a folha de pagamento, acompanhar o custo por hora trabalhada, calcular a margem de contribuição e revisar o fluxo de caixa permite identificar os pontos de maior pressão e planejar a adaptação.
A proposta aprovada pelo Senado ainda depende de promulgação e da aplicação dos prazos de transição previstos no texto. Por isso, o momento é de acompanhar a tramitação e preparar os negócios para os possíveis efeitos da mudança, sem tratar cenários como resultados já confirmados.
Para Deivisson, a discussão econômica deve considerar tanto o avanço social representado pela redução da jornada quanto as condições necessárias para que as empresas se adaptem. A sustentabilidade dessa transição dependerá da combinação entre planejamento financeiro, organização do trabalho, produtividade e inovação.


