COPOM MANTÉM SELIC EM 13,75% E ADOTA CAUTELA DIANTE DOS RISCOS INFLACIONÁRIOS


Foto: Fotos: Paula MaestraliA decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, de manter a taxa Selic em 13,75% ao ano na reunião desta quarta-feira (4), interrompe o ciclo de flexibilização monetária iniciado em março, com cinco cortes consecutivos de 0,25 ponto percentual. A inflexão ocorre na primeira reunião do colegiado após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em um contexto de deterioração das expectativas de inflação, alta do dólar, recuo do Ibovespa para a faixa dos 165 mil pontos e expectativas sobre a condução da política fiscal no quarto mandato.
“A manutenção corresponde ao esperado por grande parte do mercado financeiro e sinaliza uma postura mais cautelosa do BC, reduzindo, no curto prazo, a perspectiva de retomada dos cortes da taxa básica de juros. Mas a decisão pode gerar diversos impactos na economia, e o encarecimento do financiamento imobiliário em três dos maiores bancos privados do país, antes mesmo da reunião do Copom, antecipa um pouco do cenário que pode se materializar”, analisa o economista-chefe da Pequod Investimentos, Diogo Almeida.
“Embora o cenário externo não seja a maior preocupação do Banco Central no momento, esse panorama interno se soma à persistência de alta volatilidade na geopolítica global, gerada principalmente pela continuidade da guerra no Oriente Médio, que tende a seguir pressionando o petróleo, a logística internacional e os preços no mercado interno brasileiro”, explica o analista.
Desde o encerramento da eleição presidencial, o real perdeu aproximadamente 10% do valor frente ao dólar, enquanto as projeções de inflação, consolidadas no boletim Focus, subiram para todos os horizontes, de 2026 a 2029. De acordo com o economista-chefe da Pequod, esse novo panorama reflete diversos fatores, entre eles as medidas fiscais expansionistas do governo antes do 2º turno, com potencial de estimular o consumo, reduzindo a eficácia dos mecanismos do BC para controle da alta de preços.
Para os próximos meses, a possibilidade de retomada dos cortes dependerá, sobretudo, da condução da política fiscal. Na avaliação de Almeida, a trajetória da dívida pública e a percepção de sua sustentabilidade continuarão influenciando os prêmios de risco dos ativos domésticos, especialmente o câmbio. Medidas firmes e críveis de equilíbrio das contas públicas poderiam abrir espaço para juros menores ao longo de 2027.
Cenário para investimentos
Com a Selic em patamar restritivo e as expectativas de inflação elevadas, os pós-fixados seguem atrativos para investimentos de curto prazo e reservas de liquidez. “Os prefixados de longo prazo exigem cautela diante do risco inflacionário, enquanto os títulos indexados à inflação ajudam a preservar o poder de compra”, orienta Diogo Almeida. Na renda variável, juros elevados pressionam o custo de capital e exigem maior seletividade, com preferência por empresas pouco alavancadas e de geração consistente de caixa. A diversificação internacional também ganha importância como proteção contra riscos domésticos, sempre considerando o perfil e o horizonte de cada investidor.
Comentário de Josias Bento, especialista em mercado de capitais e sócio da GT Capital
A decisão veio correta, na minha visão. O mercado internacional está cada vez mais incerto com a escalada de conflitos, especialmente pela alta do petróleo e risco geopolítico no Oriente Médio. E aqui, mesmo com o cenário doméstico em desaceleração da economia, temos o mercado de trabalho ainda muito resiliente e a inflação para 2027 e 2028 muito acima da meta, chegando nos 3,5% pelo Focus somente no 3T28.
O comunicado veio duro, porém muito coerente com o que estamos passando no momento. O que mais me chamou a atenção foi a piora das expectativas de inflação. O Banco Central está observando uma economia que desacelera, mas, ao mesmo tempo, as projeções de inflação continuam se afastando da meta. Esse é o grande dilema da política monetária brasileira.
A frase em que o Comitê diz que seguirá acompanhando a evolução do cenário, para manter a restrição adequada de forma a assegurar a convergência da inflação à meta me chamou atenção. Na minha leitura vejo a SELIC manter esse patamar de 13,75% até o final do ano.
O Banco Central deixou claro que vai manter uma política restritiva enquanto não enxergar convergência consistente da inflação para a meta. E, nesse cenário, o fiscal será determinante. Se não houver uma sinalização de responsabilidade fiscal, podemos conviver com juros elevados nesse patamar por mais tempo.
Acredito que a decisão de manutenção já era fortemente esperada, então penso que a reação dos mercados amanhã estará muito mais relacionada à interpretação do comunicado e à percepção de risco fiscal. O investidor continua exigindo prêmio para carregar ativos brasileiros. Enquanto não tivermos maior previsibilidade fiscal, a Bolsa pode continuar pressionada e os juros longos permanecer elevados.
Fotos: Paula Maestrali


