ARMANDO AVENA - SALVADOR PERDEU 258 MIL MORADORES OU O IBGE ERROU?

Foto: Arquivo do autorO Censo de 2022, trouxe uma informação surpreendente: segundo o IBGE, Salvador havia perdido 258 mil habitantes em relação ao Censo de 2010, deixando de ser a 3ª maior cidade brasileira. Uma redução de quase 10% na população de uma cidade em doze anos está associada a grandes movimentos migratórios, crises econômicas ou transformações demográficas profundas. Mas nada disso ocorreu em Salvador para justificar uma perda dessa magnitude. Ao que parece, o IBGE errou ou precisa explicar melhor os números da capital baiana.
Na verdade, há uma série de incongruências nas estatísticas populacionais de Salvador. Em agosto de 2021, por exemplo, o IBGE estimou que Salvador tinha 2,9 milhões de habitantes. Apesar disso, um ano depois, o Censo de 2022 apontou apenas 2,4 milhões, uma diferença de quase 500 mil pessoas. É verdade que a estimativa não era uma contagem, não incorporava as mudanças demográficas da década, nem os efeitos da pandemia e poderia ser diferente. Mas uma discrepância dessa dimensão exigia explicações.
A segunda incongruência aparece no eleitorado. Entre 2010 e 2022, enquanto Salvador perdeu quase 10% de seus habitantes, o número de eleitores cresceu aproximadamente 8,3%, o que representa um aumento de mais de 150 mil eleitores. É verdade que o eleitorado não corresponde à população residente, pois existem diferenças entre os universos estatísticos e eleitores que mudam de cidade sem transferir o título. Mas fica a pergunta: como explicar que uma cidade que perdeu um décimo de sua população tenha aumentado seu eleitorado em 150 mil pessoas?
Outra questão é que, entre os dois censos, o número de domicílios ocupados cresceu 11,6%, embora a população tenha se reduzido. A redução da média de moradores por residência, de 3,1 para 2,5 pessoas, pode explicar parte desse fenômeno, mas reduzir a população em 258 mil habitantes e registrar tal aumento no número de domicílios ocupados é estranho. Salvador seria um caso único, pois reduz uma grande massa de sua população e, ao mesmo tempo, aumenta o eleitorado e os domicílios ocupados.
A perda populacional poderia, no entanto, ser explicada pela migração para os municípios da Região Metropolitana. E, com efeito, Camaçari passou de 243 mil habitantes em 2010 para 300 mil em 2022, enquanto Lauro de Freitas cresceu de 163 mil para 203 mil. Mas a Região Metropolitana como um todo também perdeu população, passando de 3,57 milhões para 3,42 milhões de habitantes. Ou seja, não houve uma transferência populacional suficiente para explicar a queda da capital.
Por outro lado, a redução da fecundidade, o envelhecimento da população e algum nível de migração podem ser explicações, mas não servem para justificar a perda de 258 mil moradores. Além disso, uma pesquisa publicada pela Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia em 2023, utilizando registros civis de nascimento e óbito para estimar a população infantil, embora não incorpore o saldo migratório municipal, encontrou resultados superiores aos números do Censo de 2022 em diferentes faixas etárias de Salvador.
Aliás, o próprio IBGE reconhece os problemas de cobertura no Censo de 2022. A Pesquisa de Pós-Enumeração identificou uma taxa de omissão de pessoas de 12% no país e um erro líquido de 8,3% nos resultados. E aí cabe perguntar: qual foi a taxa de omissão de pessoas em Salvador?
Outro dado merece explicação. A estimativa do IBGE para Salvador este ano de 2026 é de aproximadamente 2,56 milhões de habitantes, cerca de 142 mil acima do resultado censitário de 2022. É verdade que essa diferença decorre de ajustes metodológicos nas estimativas posteriores, e não representa um crescimento efetivamente observado. Mas por que a população ajustada cresceu tanto? O que explica um ajuste de tal magnitude?
Os números indicam a possibilidade de uma sub-contagem expressiva na população de Salvador e o IBGE precisa vir a público explicar ou, simplesmente, dizer: erramos. Não vamos esquecer que a realização do Censo foi marcada por uma drástica redução orçamentária em 2021, o que pode ter comprometido a preparação, execução e a qualidade da coleta no ano seguinte.
Se realmente houve uma sub-contagem, Salvador está sendo prejudicada, pois isso resulta na perda de recursos federais, além do impacto no planejamento dos serviços básicos. Aliás, a Prefeitura de Salvador deveria estar esperneando e exigindo explicações.
O fato é que o IBGE precisa demonstrar categoricamente que não houve subcontagem ou reconhecer que Salvador continua a ser a 3ª ou 4ª maior cidade do Brasil.
E A ECONOMIA DA CIDADE?
Em termos econômicos, os números do mercado de trabalho e do PIB, embora não sejam determinantes para estabelecer a evolução demográfica, não indicam redução da população da cidade. Em 2010, Salvador tinha 797 mil vínculos formais de emprego e, em 2022, atingiu 788 mil, praticamente o mesmo estoque de empregos formais, apesar da suposta saída de 258 mil habitantes. Mais recentemente, esse número continuou crescendo, alcançando 822 mil vínculos em 2023, 846 mil em 2024 e 885 mil em 2025. E o PIB, que em 2010, era R$ 37 bilhões, em 2022, alcançou R$ 69 bilhões e, em 2023, chegou a R$ 77 bilhões, em valores nominais. Nada mudou na economia, apesar da suposta perda de 10% da população.



