OS SONÂMBULOS - ARMANDO AVENA


Foto: reproducão/instagramQual o espírito do nosso tempo? Quais suas ideias dominantes, seus valores e suas contradições? Os alemães inventaram uma palavra para definir o espírito de um tempo: Zeitgeist. Supunham que, em determinado momento da história, uma sociedade pudesse respirar os mesmos ares, compartilhar com certeza e enxergar o mundo sob uma mesma perspectiva
Não sei se existe o espírito de um tempo. Creio que é uma ilusão, como, aliás, diz o Fausto de Goethe: “O que chamais espírito dos tempos é, no fundo, o espírito dos próprios senhores, no qual os tempos se refletem.”
O espírito de uma época não é necessariamente uma verdade objetiva que se possa identificar com facilidade. Pode ser um espelho de quem tenta defini-lo ou pode simplesmente não existir esse espírito, e a sociedade será sempre dividida em pólos que, por vezes, encontra um ponto comum e, em outras vezes, não, quando, então, a luta se explicita.
Na verdade, nesses tempos sombrios, o que me vem à mente quando penso no Zeitgeist é o romance Os Sonâmbulos, de Hermann Broch, publicado no início do século XX.
Os Sonâmbulos é uma trilogia que procura explicar como a sociedade europeia perdeu suas referências morais e espirituais entre o final do século XIX e o início do século XX, criando as condições para uma profunda crise de valores.
Ele descreveu um tempo em que os valores estavam se desintegrando e as pessoas já não sabiam exatamente em que acreditar nem em nome de que princípios viviam.
Hermann Broch descreve, nos três romances, a desintegração da sociedade, mas é no último, Huguenau ou O Realismo, que nos apresenta o personagem que resulta dessa crise de valores: Wilhelm Huguenau. Desertor do Exército durante a Primeira Guerra Mundial, ele age segundo seus próprios interesses, trapaceia e manipula os outros sem que se sintam limitados por princípios morais. O que importa é sua vantagem pessoal.
Ele representa uma sociedade na qual o indivíduo pode prosperar com justiça porque deixou de supervisão ética para com os demais. Ele é o símbolo da desintegração dos valores que marcaram o espírito do seu tempo, no qual a vida coletiva perdeu sua força e foi substituída por interesses particulares, conveniências e cinismo. Broch identifica claramente uma crise de valores que permitiria a ascensão de Hitler, que chegaria ao poder em 1933.
Estamos novamente num tempo assim; caminhamos como sonâmbulos, sem qualquer referência moral capaz de dar sentido às nossas ações. E aceitamos até dar o poder a quem vai pôr no chão todos os valores que permitem a sobrevivência da sociedade. Quando uma sociedade aceita colocar no poder um criminoso e lhe dá a atribuição de combater o crime; quando passa a considerar natural que um homem sabidamente ligado ao crime e ao autoritarismo chegue ao topo do poder, é sinal de que essa sociedade está em processo de desintegração.
Publicado no jornal A Tarde em 16/10/2-26

