DRUMMOND - ARMANDO AVENA

Foto: Arquivo do autorHoje, quero homenagear um poeta, um dos maiores do Brasil. Hoje, quero homenagear um cronista, um dos maiores da literatura brasileira. Quero louvar Carlos Drummond de Andrade, que nasceu em 31 de outubro.
Drummond foi o poeta da minha geração e é preciso dar-lhe parabéns por sua aversão à métrica, pela liberdade na criação e por fazer do prosaico poesia.
“No meio do caminho tinha uma pedra / tinha uma pedra no meio do caminho”.
Que coragem, poeta! Que poesia! Amanhã farás 124 anos, futuro do presente, que poetas assim não admitem pretérito.
Drummond, poeta do meu tempo, poeta de qualquer tempo:
“ Impossível compor um poema a essa altura da evolução da humanidade. / Impossível escrever um poema – uma linha que seja – de verdadeira poesia./ O último trovador morreu em 1914. / Tinha um nome de que ninguém se lembra mais”.
E ele parece estar aqui, agora:
“Os homens não melhoraram / e matam-se como percevejos./ Os percevejos heróicos renascem./ Inabitável, o mundo é cada vez mais habitado./ E se os olhos reaprendessem a chorar, seria um segundo dilúvio./ (Desconfio que escrevi um poema.)”.
Drummond me fez amante da poesia e me ensinou o amor e a fatalidade do amor:
“Carlos, sossegue, o amor/ é isso que você está vendo:/ hoje beija, amanhã não beija,/ depois de amanhã é domingo/ e segunda-feira ninguém sabe o que será”.
Diz-me sua biografia que esse poeta tímido nasceu em Itabira, Minas Gerais, e que, aos 15 anos, foi expulso do colégio por insubordinação mental, por discordar dos métodos jesuítas. Diz-me ainda, através de uma entrevista que ele concedeu ao jornalista Luiz Fernando Emediato, que ele e Pedro Nava, por pura travessura, certa vez atearam fogo em um varal de roupas de uma casa onde viviam belas jovens e, como o fogo se espalhou, correram para salvá-las do incêndio. E Belo Horizonte ficou sabendo que dois poetas haviam colocado fogo em uma casa apenas para ver as moças saindo de camisola na rua.
Mas com tanto para dizer sobre o grande poeta, você vem com essa história, indagará o leitor? Pois é, mas ele, esteja onde estiver, dará um sorriso contido, ajeitará o paletó e dirá que essa é “não a explicação (duvidosa) da vida, mas a poesia (inexplicável) da vida”.
Foi com um livro de Drummond que descobri o gosto pela crônica e que “esse ofício de rabiscar sobre as coisas do tempo exige que prestemos alguma atenção à natureza – essa natureza que não presta atenção em nós”.
E quando li a crônica, O Beija-flor que não vi, ele foi enfático: “Você é que anda com os olhos no chão, ou pensando na inflação e nos problemas do mundo, e não vê as coisas lindas que acontecem bem perto do seu nariz”.
Em Drummond está a existência, a natureza, o sentido da vida e da morte e o cotidiano familiar, político e poético. Em Drummond está o mundo: “mundo mundo vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo seria uma rima, não uma solução”.
Publicado no jornal A Tarde 30/10/2026



