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CULTURA E ARTE

AMANHÃ (7), SCHOLASTIQUE MUKASONGA E MARÍA ELENA MORÁN SÃO AS ATRAÇÕES INTERNACIONAIS DA FLICA 2026

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AMANHÃ (7), SCHOLASTIQUE MUKASONGA E MARÍA ELENA MORÁN SÃO AS ATRAÇÕES INTERNACIONAIS DA FLICA 2026

A literatura pode ultrapassar fronteiras geográficas, aproximar diferentes culturas e abrir caminhos para o encontro entre histórias e experiências de várias partes do mundo. Neste sábado (7), esse intercâmbio ganha voz no encontro entre duas escritoras de trajetórias internacionais: a ruandesa Scholastique Mukasonga, radicada na França, e a venezuelana María Elena Morán, que vive no Brasil. As autoras participam da mesa “Diásporas literárias – passagens e permanências”, na Tenda Paraguaçu, com mediação da pesquisadora Edma de Góis.

Embora partam de contextos distintos, ambas as escritoras utilizam a literatura como território de preservação da memória, reconstrução de identidades e resistência ao apagamento. Suas produções dialogam de forma direta com urgências globais do Sul Global e do Ocidente, como o avanço do conservadorismo e da extrema-direita, o endurecimento de políticas anti-imigração, o racismo e a xenofobia. A partir de relatos pessoais e ficcionais, a mesa discute de que maneira a experiência do exílio transforma a relação com a terra natal e reconfigura o sentimento de pertencimento.

A venezuelana María Elena Morán, vencedora do Prêmio Café Gijón de 2022 e autora do recém-lançado Voltar a Quando (Biblioteca Azul, 2025), aborda em sua obra o impacto da crise político-social da Venezuela sobre a intimidade familiar. No livro, a trajetória de uma mãe que migra para o Brasil deixando a filha em seu país expõe as dores da separação e as contradições do deslocamento.

“Ser imigrante é ter que construir uma vida do zero num país, numa língua e numa cultura alheias, e, na medida que você vai se apropriando delas — ou elas de você — você vai se alheando das que te são próprias. Acho que o estrangeirismo tem a ver com essa condição de estar entre lugares, línguas e experiências, sem pertencer inteiramente a nenhum deles”, afirma Morán.

“Me interessa pensar como a violência política não se limita ao espaço público, mas atravessa a intimidade, transforma os vínculos e interfere na maneira como as pessoas se reconhecem e imaginam o futuro. Na ficção, consigo aproximar experiências individuais e processos coletivos, evidenciando contradições, desigualdades e formas de violência, inclusive a xenofobia”, completa a autora.

Genocídio de Ruanda - Já a aclamada escritora ruandesa Scholastique Mukasonga traz ao debate a perspectiva da diáspora africana e o resgate da memória diante do trauma. De origem tutsi, Mukasonga relata que sofreu perseguições étnicas desde a infância e vive na França desde 1992. Após perder 37 familiares no genocídio de Ruanda em 1994, transformou a dor em literatura de reconhecimento mundial. Autora de obras como Baratas, A Mulher de Pés Descalços e Nossa Senhora do Nilo (vencedor do Prêmio Renaudot), Mukasonga é apontada constantemente como uma das fortes candidatas ao Prêmio Nobel de Literatura.

Com curadoria de Marielson Carvalho, a Tenda Paraguaçu busca tensionar os limites entre a experiência individual e os grandes acontecimentos históricos, destacando o papel da ficção na compreensão da complexidade humana em tempos de crise.

“Essas duas autoras vêm de lugares e perspectivas diaspóricas diferentes. Mukasonga é importante para trazer a abordagem da África a partir da diáspora, falando de racismo, xenofobia e migração como uma autora negra na Europa. Já com María Elena Morán, puxamos para as questões atuais da América Latina e do Sul Global, discutindo como a violência política e as relações internacionais afetam as famílias”, destaca o curador.

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