LUCIDEZ - SÉRGIO FARIA


Foto: ´Foto: DivulgaçãoSérgio Faria, engenheiro e escritor, presidente da ALAS - Academia de Letras e Artes do Salvador e membro da ABROL - Academia Brasileira Rotária de Letras
"Mãe não é alguém em quem nos apoiamos, mas alguém que nos torna capazes de dispensar apoio"
Dorothy Canfield Fisher.
Peço licença aos queridos leitores para me afastar um pouco da rotina dos meus artigos e invocar algo mais pessoal.
Desejo prestar uma singela homenagem a minha mãe, que concluiu sua trajetória neste mundo nos últimos dias. Estou certo, porém, que, ao relembrar um pouco do muito que com ela aprendi, estarei tocando o coração de muitos que também viveram experiências semelhantes e guardam carinho, afeto e gratidão por aquela que lhes deu a vida e que permanece presente, ainda que já não possam lhe beijar a fronte.
Chamava-se Lúcia, e desconfio que daí deriva a palavra "lucidez", característica que preservou por longos oitenta anos e que, a partir de então, foi perdendo progressivamente, na luta inglória contra a doença de Alzheimer, com a qual conviveu até os noventa e quatro anos.
Sempre foi uma mulher ativa. Mesmo circunscrita ao universo do lar, soube se destacar pela coerência, pelo equilíbrio e pela sensatez.
Guardo sua imagem como alguém que passou a vida construindo: elo, ponte, ligação entre pessoas. Fazia isso pelo diálogo, pela mansidão da voz, pela presença constante, sempre atuante, sempre querida.
Na família, tornou-se uma espécie de unanimidade. Colecionou amizades, e o traço mais característico de sua personalidade sempre foi a capacidade de conciliar interesses e agregar pessoas em torno de objetivos comuns.
Com o casamento, ampliou ainda mais seu círculo de relações, pois, para além do sobrenome, incorporou toda a família de meu pai.
Forte, poucas vezes a vi chorando. Essa força, entretanto, não a tornava menos sensível. Era sempre capaz de perceber as dificuldades alheias e, espontaneamente, com seu jeito discreto, oferecer ajuda a quem precisasse.
Em uma das inúmeras lições que nos deixou, enfrentou, com muita dignidade, um internamento voluntário para acompanhar cada instante dos quarenta dias de sofrimento que precederam a morte de meu pai. Ali estava ela: amiga, companheira, solidária, firme, olhando por ele e por nós, encorajando-nos com seu exemplo e sua determinação.
Viúva, reorganizou a vida e, mesmo sozinha, jamais se deixou abater. Conservou o seu otimismo e a capacidade de simplificar as coisas e enfrentar os problemas.
Na dinâmica da vida, o tempo, que não poupa ninguém, começa a inverter os papéis. As mãos que um dia nos conduziram passam a precisar de apoio. A voz que nos tranquilizava torna-se mais frágil, até silenciar por completo. Os passos, antes apressados, tornam-se lentos, até desaparecerem.
Descobrimos, então, que o amor também precisa aprender outra gramática: a da paciência, da presença e do cuidado devolvido.
E nesse instante, compreendemos quantas coisas recebemos sem perceber.
Embora anunciada, a morte é sempre uma surpresa.
Quando chega - e ela sempre chega -, resta-nos a memória. E a memória é uma presença transformada. As mães permanecem em certas palavras que repetimos, na maneira como acolhemos alguém, nos gestos que reproduzimos, nas escolhas que fazemos e até nos conselhos que um dia julgamos excessivos, mas que o tempo tratou de esclarecer.
Minha mãe continuará vivendo em mim sem precisar estar fisicamente presente.
Quero lembrá-la como símbolo de lucidez.
Lucidez: clareza de pensamento, discernimento, sensatez. A capacidade de ver e compreender a vida sem perder a ternura.
Mãe, um beijo.
Imagem de omar sahel por Pixabay


