BRASIL SAI DA ZONA DE CONFORTO NA IMPORTAÇÃO DE TRIGO ARGENTINO


Foto: — Foto: DivulgaçãoJOSÉ MACIEL DOS SANTOS FILHO (1)
Há um vasto universo de assuntos demandando análise e reflexão visando avaliar suas possibilidades para contribuição para o desenvolvimento sustentável do nosso país. Entre estes, destacam-se a remoção de entraves ambientais e de outras naturezas para deslanchar projetos estratégicos, alguns inclusive com potencial para ajudar a financiar programas sociais de forma sustentável, a exemplo da exploração de petróleo na margem equatorial, como foi feito na Noruega e agora, mais recentemente, na Guiana. Abordaremos esse tema em uma próxima oportunidade.
Hoje, o foco se volta mais uma vez para o nosso trigo, cujo cenário se desenhando logo a frente está em linha com nossas análises e previsões, de modo a tornar a autossuficiência de sua produção uma recomendação urgente e relevante para a nossa segurança alimentar.
Como é sabido, sempre importamos em grande proporção o trigo argentino, algo como 80% de nossas compras externas. Diante de novos fatos, não nos parece prudente contar com esta fonte nessa proporção num horizonte de médio e longo prazos, de modo que teremos de buscar novos supridores, sem perder de vista, contudo, que a autossuficiência é a alternativa mais razoável.
Vamos aos fatos recentes.
Historicamente, o Brasil importava até 2020 cerca de metade das nossas necessidades de consumo interno. Para um consumo interno estimado entre 12 e 13 milhões de toneladas anuais, o país comprava algo entre 6 e 6,5 milhões de toneladas anuais deste cereal. Isso mudou nos últimos 6 anos e parece que a mudança é estrutural. Em 2021, produzimos 7,7 milhões de toneladas e, em 2022, registramos uma safra recorde situada no intervalo entre 9,5 milhões e 10,6 milhões de toneladas, o que equivale a algo como 76% a 84% de nosso consumo anual. De lá para cá, a produção às vezes oscila para baixo, por conta de fatores climáticos ou de preços mais atraentes para outras lavouras, que terminam por ocupar temporariamente parte da área destinada ao cultivo do trigo. Todavia, a tendência é de crescimento da produção nos próximos anos, ensejando a expectativa de atingirmos a autossuficiência num prazo de 5 a 10 anos.
Na presente safra de 2026, o cenário é de uma produção baixa, ao redor de 5,7 milhões de toneladas ou pouco mais, o que obrigará o país a importar mais que o habitual, cerca 7 a 8 milhões de toneladas. Provavelmente não importaremos da Argentina nas mesmas quantidades e proporções historicamente observadas. Sempre fomos o queridinho na fila de clientes dos produtores e exportadores argentinos. Agora, temos concorrência: China, Indonésia, Vietnã, Filipinas, Egito, Marrocos e outros países estão comprando quantidades às vezes maiores que as nossas no mercado argentino e as principais razões para isso residem na insegurança do suprimento da Rússia e da Ucrânia, por conta dos bloqueios e perigos do uso da tradicional rota do mar Negro, e dos altos preços de frete e seguros decorrentes do conflito entre estas duas nações. Os preços do produto argentino também são compensadores, pois o governo dos Hermanos baixou impostos antes vigentes no seu trigo. A nossa logística também não é apropriada para receber grandes volumes deste cereal num curto horizonte temporal.
Diante do exposto, a busca da autossuficiência na produção de trigo, torna-se, mais uma vez, um objetivo pra lá de estratégico.
(1) Consultor Legislativo e doutor em Economia pela USP. E-mail: jose.macielsantos@hotmail.com


