O BRASIL EMPRESARIAL VAI PASSAR MAIS 4 ANOS SÓ RECLAMANDO DO GOVERNO ELEITO?

Foto: Montagem sob foto de Edilson Dantas/ O GLOBOHá setores do empresariado que parecem ter decidido que passarão os próximos quatro anos em oposição ao governo Lula. Em algumas associações empresariais, a exemplo da Fiesp, em alguns sindicatos e até em grupos de Whatzapp o que se vê é uma posição de contestação prévia, quase automática, que transforma qualquer iniciativa governamental em motivo de crítica.
O que se verifica em alguns desses grupos não é uma critica a medida específica, não é a discordância de uma proposta ou dos riscos de determinada política econômica, mas a discordância do governo como um todo. É como se esses grupos já tivessem decidido que nada do que o governo fizer será aceitável e isso não faz sentido, afinal, o governo foi eleito democraticamente.
Há algo de irracional e pouco construtivo nesse comportamento. É como se parcelas do empresariado houvessem decidido que passarão os próximos quatro anos reclamando do governo Lula.
É legítimo que o empresariado tenha suas preferências políticas e econômicas. É igualmente legítimo que questione as decisões do governo, apresente críticas e defenda mudanças na condução da economia. E é legítimo que atue junto ao Congresso Nacional para propor e mudar políticas econômica.
O que não parece razoável é transformar a discordância em oposição sistemática, rejeitando previamente praticamente tudo o que o governo propõe ou pretende fazer.
Há, nesse comportamento, uma incompreensão do próprio processo democrático. O governo Lula venceu as eleições e foi escolhido pela sociedade para executar um determinado programa. Isso não significa que suas propostas sejam intocáveis, nem que estejam imunes a críticas. Significa, entretanto, que existe uma legitimidade política que precisa ser reconhecida. Não cabe a setores do empresariado comportarem-se como se pudessem substituir, pela pressão corporativa, as escolhas feitas nas urnas.
O papel das entidades empresariais deveria ser outro. Associações empresariais, federações, sindicatos patronais não podem ficar apenas criticando, pois possuem estrutura, conhecimento técnico e capacidade de articulação para estabelecer uma interlocução produtiva com o governo. Deveriam estar reunindo seus associados, identificando os problemas que afetam cada setor, formulando propostas e procurando os interlocutores da nova administração para apresentar alternativas. Claro, não vai adiantar propor a mudança total o que o governo implemente o corte de R$ 250 bilhões que a população rejeitou. É preciso racionalidade.
O Brasil precisa de um empresariado que participe da construção das políticas públicas, que proponha ajustes, sugira mudanças de prioridades e contribua para aperfeiçoar as iniciativas governamentais. Afinal, quem investe, produz, emprega e conhece as dificuldades da atividade econômica tem muito a oferecer na formulação de soluções para o país.
Mas não é isso que parece estar acontecendo com determinadas parcelas do setor empresarial. Em vez de procurar os caminhos da negociação, preferem questionar o conjunto da política governamental. E, quando a discordância deixa de ser pontual e passa a abranger praticamente toda a orientação de um governo, o espaço para a negociação desaparece. Se tudo está errado de antemão, o que resta negociar?
É não vai demorar para que os grupos empresariais de Whatzapp não queriam discutir mais na nada a não o impeachment do presidente eleito, o que parece pouco provável dado a experi6encia do Presidente Lula e sua capacidade de negociação.
Uma postura mais racional seria reconhecer os pontos de convergência, identificar aquilo que precisa ser corrigido e propor mudanças, inclusive de foco e de prioridades. É possível discordar da política fiscal, defender maior controle dos gastos públicos, questionar a política tributária ou propor mudanças nas relações de trabalho sem transformar essas divergências em uma disputa permanente com o governo.
O empresariado não precisa concordar com Lula, muito menos abdicar de suas convicções. Precisa, entretanto, compreender que a economia não pode ficar refém das disputas políticas e que o desenvolvimento do país exige diálogo entre quem governa e quem produz.
O Brasil tem problemas demais para desperdiçar mais quatro anos em confrontos improdutivos. O governo precisa ouvir o setor empresarial, mas o empresariado também precisa abandonar a ideia de que reclamar é uma estratégia de atuação econômica.
Afinal, a pergunta que fica é simples: o Brasil empresarial quer participar da construção do país ou pretende passar mais quatro anos apenas reclamando de quem foi escolhido para governá-lo? (EP-02/10/2026)



