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A VITÓRIA DE LULA E AS LIÇÕES DA DEMOCRACIA PARA A ESQUERDA E PARA A DIREITA

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A VITÓRIA DE LULA E AS LIÇÕES DA DEMOCRACIA PARA A ESQUERDA E PARA A DIREITA
Foto: Crédito: Ricardo Stuckert/PR

O presidente Lula foi reeleito em uma eleição histórica e mostra que democracia brasileira se consolidou, após a redemocratização, como uma democracia vigorosa, que é exemplo para o mundo. Tão vigorosa é, imperativo dizer, que elege pela quarta vez um representante do povo, trabalhador, oriundo das fábricas, nascido numa região extremamente pobre, e que se mostrou à altura do seu país.

Mas a democracia não se limita a escolher governantes, ela também oferece lições, corrige rumos, desmonta ilusões e obriga partidos e lideranças a rever suas estratégias. E a eleição de 25 de outubro de 2026 trouxe muitas lições para a direita e para a esquerda.

Para a direita, a maior lição é que não se pode apostar na mentira. A eleição mostrou que o povo exige compromisso com a verdade. O candidato que a direita apresentou achou que podia enganar o povo: prometer tudo, acenar com soluções fáceis e alimentar expectativas sem demonstrar como elas poderiam ser concretizadas. Quando a promessa é feita sem compromisso com sua execução, o que se pratica é uma espécie de estelionato eleitoral: conquista-se o voto com uma expectativa que não se pretende ou não se consegue cumprir.

Por outro lado, se deseja efetivamente governar o país, a direita precisa deixar de ser refém de uma família cujo único objetivo é a preservação de seu próprio poder. Um projeto nacional não pode ser confundido com um projeto familiar, nem os interesses de uma liderança podem se sobrepor aos interesses do país.

Tampouco é razoável apresentar ao eleitor um candidato sem experiência administrativa suficiente, sem demonstrar preparo para enfrentar a complexidade do Estado e cercado de controvérsias, inclusive uma proximidade com grupos de milicianos, o que exige esclarecimentos.

A direita precisa compreender que não se constrói uma alternativa de poder apenas com palavras de ordem contra alguém. Um projeto político não pode se resumir a um permanente “Fora Lula”, assim como não pode depender exclusivamente da rejeição a qualquer outra liderança.

O antipetismo, por si só, não constitui programa de governo. É necessário apresentar propostas concretas para o crescimento econômico, o emprego, a educação, a saúde, a segurança pública e a redução das desigualdades. É preciso explicar como essas propostas serão financiadas, quais serão suas consequências e de que maneira poderão melhorar a vida dos brasileiros.

A mesma responsabilidade deve orientar a atuação no Congresso Nacional. O Parlamento não pode ser reduzido a um balcão de negócios, a um instrumento de chantagem política ou a uma arena de conflitos permanentes. Oposição não significa sabotagem, assim como governabilidade não significa submissão. A democracia pressupõe divergência, negociação e fiscalização, mas exige que tudo isso seja feito em benefício do país.

A esquerda, por sua vez, também recebeu um recado que não pode ignorar.

Durante muito tempo, parte da esquerda pareceu acreditar que sua história, suas realizações e a força de suas lideranças seriam suficientes para assegurar a continuidade de seu apoio popular. Essa confiança excessiva produziu uma espécie de acomodação política . E a democracia deu uma lição. A perda do primeiro turno da eleição chacoalhou a esquerda e evidenciou que a sustentação de um projeto político depende da capacidade de dialogar continuamente com a sociedade.

A lição para a esquerda é que é preciso reconhecer as mudanças no país, compreender as novas aspirações da população e ouvir os setores que não se sentem representados por seu discurso. O eleitor não é propriedade de partido algum. Pode reconhecer os avanços sociais de um governo e, ao mesmo tempo, desejar mudanças na condução da economia, na qualidade dos serviços públicos ou na relação entre o Estado e a sociedade.

A esquerda precisa, portanto, ampliar seu campo de ação. Isso significa conversar mais com o empresariado, compreender melhor as dificuldades de quem produz, investe e emprega e construir uma relação menos marcada por desconfianças recíprocas. Não se trata de abandonar a defesa dos trabalhadores ou de renunciar à redução das desigualdades. Trata-se de compreender que o desenvolvimento econômico e a justiça social não precisam ser objetivos antagônicos.

Não há distribuição sustentável de renda sem crescimento, assim como não há desenvolvimento duradouro quando a riqueza produzida permanece concentrada e grandes parcelas da população ficam à margem de suas oportunidades. A esquerda precisa articular essas duas dimensões, reconhecendo que o investimento privado, a inovação, a produtividade e o empreendedorismo também são elementos essenciais de um projeto nacional.

Por fim, há uma lição para a direita e para a esquerda, no assunto redes sociais. Não se pode mais fazer política ignorando as redes sociais. As redes transformaram a maneira como as pessoas se informam, formam opiniões e participam do debate público. Elas permitem que novas lideranças apareçam, que demandas antes invisíveis ganhem expressão e que discursos circulem fora dos canais tradicionais de comunicação.

A esquerda achou que podia ignorar redes sociais e a direita pensou que bastava dominar essas redes para dominar a política. Nem uma coisa nem outra. A esquerda quase perdeu as eleições porque, num primeiro momento, ignorou as redes sociais. E a direita perdeu as eleições porque pensou que poderia ganhá-las só com as redes.

As redes não substituem a consistência de um programa, a credibilidade de uma liderança ou a capacidade de governar. E quando as redes se transformam em máquinas de desinformação, a política perde qualidade e a própria democracia fica ameaçada.

Por fim, essa é a principal lição da democracia para todos: ninguém vence para sempre, ninguém perde para sempre e nenhum projeto político sobrevive indefinidamente sem capacidade de se renovar. O poder pertence, em última instância, ao povo. E é o povo, por meio do voto, que continua tendo a palavra decisiva. (EP – 26/010/2026)

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