VERMELHO DELICADO - POR SÉRGIO FARIA


Foto: — Foto: DivulgaçãoSérgio Faria, engenheiro e escritor, presidente da ALAS - Academia de Letras e Artes do Salvador e membro da ABROL - Academia Brasileira Rotária de Letras
"Não se preocupe em entender. Viver ultrapassa todo entendimento"
Clarice Lispector
A literatura nem sempre respeita fronteiras muito rígidas. E é justamente nessa zona de indeterminação que a ficção encontra algumas de suas possibilidades mais interessantes.
O conto tradicional costuma conduzir o leitor para um desfecho, quase sempre definido. A escritora portuguesa Teresa Veiga, porém, prefere deixá-lo diante de uma porta entreaberta.
O livro Vermelho delicado, finalista do prêmio Oceano 2025, publicado no Brasil pela Tinta-da-China em edição que segue a ortografia vigente em Portugal antes do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, reúne contos que têm em comum, além da escrita elegante e da predominância de personagens femininas, a opção por desfechos abertos.
Neles, nem tudo se esclarece. Muitas vezes, o que parece evidente no início se transforma à medida que avançamos na leitura. O leitor é, por assim dizer, coautor: diante das possibilidades sugeridas pela autora, precisa preencher os vazios, estabelecer relações e construir sua própria interpretação do que se sucede.
É uma literatura que não entrega facilmente seus segredos.
O silêncio, a dúvida e a ambiguidade podem dizer mais do que uma conclusão explícita. O livro demonstra, assim, que sugerir pode ser mais poderoso do que explicar.
Partindo de fatos aparentemente banais, a autora constrói narrativas perturbadoras. O cotidiano, que inicialmente parecia reconhecível e até confortável, vai adquirindo contornos estranhos. Aos poucos, detalhes aparentemente insignificantes modificam o julgamento que fazemos das personagens. O que parecia normal começa a despertar desconfiança; o que parecia delicado pode esconder violência; o que parecia racional pode revelar alguma forma de desvario.
Teresa Veiga olha para aquilo que costumamos chamar de normalidade e pergunta, silenciosamente: será mesmo normal?
Os elementos que compõem as narrativas estão presentes, mas são apresentados de forma diluída ao longo do texto. Há violência, mas é uma violência silenciosa. Há desejo, mas raramente declarado. Há loucura, mas camuflada sobre a aparência de normalidade. Há sofrimento, mas quase nunca dramatizado.
Essa contenção é importante. A autora não parece interessada em produzir grandes efeitos, mas em criar pequenas perturbações. Não precisa levantar a voz para inquietar o leitor. Basta um detalhe, uma frase, uma situação aparentemente trivial. E é justamente quando acreditamos ter compreendido uma personagem ou uma história que surge alguma coisa capaz de deslocar nossa interpretação.
Na opinião de Chico Buarque de Holanda, o livro situa-se entre as coisas mais bonitas que ele leu nos últimos tempos. É, sem dúvida, um exemplo do que chamamos alta literatura, embora a declaração possa conter algum exagero. A beleza dos contos de Teresa Veiga não está apenas naquilo que dizem, mas também naquilo que recusam dizer.
O título, ainda que seja o mesmo do último dos sete contos que compõem o livro, serve ao conjunto da obra. Vermelho delicado carrega em si uma contradição que também atravessa as personagens e as histórias.
Vermelho é uma cor intensa. Traz consigo a ideia de paixão, luta, perigo, guerra. É uma cor que dificilmente passa despercebida. Delicado, ao contrário, sugere fragilidade, suavidade, cuidado. A aproximação dos dois termos produz um paradoxo: como pode algo ser, a um só tempo, vermelho e delicado?
É uma metáfora da vida. Há pessoas que, por trás da agressividade, escondem uma delicadeza que só o olhar atento consegue descobrir. E há pessoas que, sob a aparência delicada, guardam uma agressividade surpreendente.
Vermelho delicado é aquilo que parece tranquilo, mas contém uma ameaça; aquilo que julgamos conhecer e que, de repente, se torna estranho.
Teresa Veiga não fecha completamente seus contos. Deixa-os em suspensão e nos coloca diante do que não conseguimos explicar inteiramente.
Seus contos terminam no papel, mas continuam na imaginação do leitor.


