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ARMANDO AVENA - VOCÊ VAI MESMO COMPRAR UM TERRENO NA LUA?

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ARMANDO AVENA - VOCÊ VAI MESMO COMPRAR UM TERRENO NA LUA?

Sob o ponto de vista econômico, vote em Flávio Bolsonaro no 2º turno da eleição presidencial equivalente a comprar um terreno na lua. O vendedor diz que o terreno é lindo e que, nesse lugar, sua vida será maravilhosa; só não diz como se chega lá. É o que ocorre com as propostas apresentadas por Flávio, que são impossíveis de implementar porque são inconsistentes e contraditórias.

Senão, vejamos. O candidato acena com um choque fiscal de 1,5% a 2% do PIB, o que significa que terá de reduzir despesas no montante da ordem de R$ 250 bilhões. Mas, ao mesmo tempo que promete uma redução de gastos dessa magnitude, afirma que vai dar reajuste real ao salário mínimo, mantendo a indexação, e reajustar os atrasos dos juros acima da inflação. Ao contrário do que vem pregando, diz não só que vai manter os programas sociais, mas também vai aumentar o valor do Bolsa Família e permitir que o benefício seja bloqueado mesmo quando o beneficiário arranjar emprego; afirma que vai manter e ampliar a Farmácia Popular e criar a entrega ao domicílio; que vai manter o programa Minha Casa, Minha Vida e reduzir as prestações; e vai modernizar o SUS, oferecendo um serviço padrão tipo Hospital Albert Einstein. E, pasmem, afirma que vai fazer tudo isso e ao mesmo tempo cortar os impostos. Flávio faz um elogio a Lula ao prometer manter todos os programas que ele criou, mas a conta não fecha.

Querendo vender um terreno na Lua, Flávio Bolsonaro diz que vai fazer um “tesouraço” nos gastos públicos. Ocorre que cerca de 90% dos gastos públicos são despesas obrigatórias, que cancelam mudanças na Constituição, cuja aprovação em dois turnos no Senado e na Câmara é muito difícil. Até porque, no bojo desses gastos públicos, estão as vinculações orçamentárias, inclusive aquelas que excluem que 18% da receita sejam destinados à educação e 15% à saúde. Flávio vai fazer uma mágica de modernizar o SUS e ampliar a Farmácia Popular e, ao mesmo tempo, fazer um “tesouraço” nos gastos com saúde.

Mesmo com a eleição de uma bancada expressiva de direita no Senado e na Câmara, será difícil que o Congresso Nacional vá contra o interesse de milhões de pessoas e aprove a desvinculação e/ou a redução dos recursos destinados à saúde e à educação. Uma proposta desse tipo vai gerar greves em toda a parte e uma onda de mobilizações de sindicatos, associações e movimentos sociais que podem paralisar o país.

Para vender seu peixe, o candidato afirma que vai reduzir rapidamente os juros, levando-os a um patamar de 7%. Mas como fazer isso se a taxa Selic é definida por um Banco Central independente, por meio do Copom, e seu presidente, indicado por Lula, tem mandato e não pode ser retirado da carga?

A verdade é que, para vender seu terreno na Lua, Flávio diz qualquer coisa. Diz que vai cortar impostos e, ao mesmo tempo, promete ampliar os programas sociais. Era contra o fim da escala 6x1, mas, de repente, votará a favor dela. E diz que vai suspender a implantação da reforma tributária, que levou mais de 30 anos para ser aprovada e representar um salto qualitativo na economia brasileira.

Não vale a pena seguir a análise das propostas de Flávio: elas não têm qualquer valor sob o ponto de vista econômico. Na verdade, seus assessores parecem querer seguir ao risco o plano de Javier Milei na Argentina, que gerou dois anos de forte recessão, redução da renda e da demanda, desemprego, manifestações, greves e quebra de 30 mil empresas. E hoje, após todo esse sacrifício, a inflação argentina permanece alta e a recessão, que havia refluído, voltou.

A verdade é que Flávio Bolsonaro não sabe o que fazer com a economia. Se chegar ao poder, o Brasil será submetido a uma crise econômica e a uma crise institucional, cujo desfecho pode ser o fim da democracia. É a sina do Brasil, dois passos para a frente e dez para trás.

Talvez Flávio esteja prometendo tudo isso apenas para ser eleito e depois não faça nada do que prometeu, dizem-me alguns empresários iludidos. Se assim for, o Brasil vai viver um período turbulento, com milhares de pessoas nas ruas cobrando o que ele prometeu e protestando contra o que ele está entregando. Isso implicará em enorme incerteza para as pessoas, para as empresas e para a economia. E não vai funcionar. Após a redemocratização, todos os presidentes brasileiros que foram eleitos prometeram aquilo que não puderam cumprir, não conseguiram governar ou sofreram impeachment, e o resultado foram crises econômicas e institucionais, que fizeram o país retroceder economicamente.

A verdade é que sob o ponto de vista econômico, Flávio Bolsonaro está vendendo terrenos na Lua. Você vai comprar?

OS RESULTADOS DE JAVIER MILLEI

Após dois anos de forte recessão, que impediu o emprego, a renda e a demanda, como está a economia argentina em 2026? A inflação anual está em 33%, seis vezes maior que no Brasil. A taxa de desemprego está em 8%, bem maior que a brasileira, e a informalidade disparou. A pobreza atingiu 32,3% da população urbana e a pobreza extrema atingiu 7,5% dela. A inadimplência é maior em 20 anos e quase 500 empresas pediram recuperação judicial. E o PIB voltou a cair: 0,6% no 2º trimestre de 2026. O sacrifício sacrificado num superávit primário pífio, de 1,1% do PIB, ocorreu com a queda de 30% nos investimentos públicos e o corte de repasses para as províncias. É isto o que o Brasil quer?

Publicado no jornal A Tarde em 15/10/2026

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