CÉSAR SOUZA – O DESPERDÍCIO DO MICRO GERENCIAMENTO

Quem nunca conviveu com um fundador de empresa, um empreendedor ou um executivo de alto nível que se caracteriza por um estilo de liderança que exerce controle excessivo e atenção aos mínimos detalhes sobre o trabalho dos seus liderados?
E quem nunca conviveu com executivos profissionais que, em nome da delegação, vivem a dez mil metros de altura tomando decisões baseados em informações superficiais, e que ficam repetindo o mantra “eu não me envolvo em detalhes” até serem ejetados por resultados muito ruins?
Os dois extremos, o do excessivo controle de detalhes e o da “delargação” são sempre maléficos. A virtude está sempre no equilíbrio da dosagem adequada para o momento. Sabemos que um bom medicamento pode curar, mas também pode levar o paciente a óbito.
Apesar da melhor das intenções – a de garantir a qualidade e o cumprimento de prazos pactuados, a prática excessiva do micro gerenciamento, quando passa do ponto, pode ser prejudicial para todos.
Para a equipe, resulta quase sempre na infantilização dos seus membros. um convite inconsciente para que passem a delegar para cima. Para o próprio líder, ocasiona um desperdício de tempo e energia desproporcional ao que deveria ser utilizado para questões mais estratégicas ou, pelo menos. táticas da empresa.
Alguns atributos do micro gerenciamento são bem conhecidos: dificuldade em delegar; falta de confiança na equipe; percepção de baixo grau de maturidade dos liderados e do despreparo das equipes para as missões. Se essas características se somam ao típico perfil do líder perfeccionista -- medo de falhar; inexperiência previa em delegação bem sucedida; e a consequente dificuldade de desapegar do operacional, nos defrontamos com um ciclo vicioso que se auto alimenta.
Para se libertar do micro gerenciamento, o líder precisa dar pelo menos três passos se deseja evoluir para um patamar mais inspirador, focar mais nas oportunidades e passar a produzir resultados mais relevantes, em vez de ser um mero apontador de problemas:
Passo #1: Desenvolver sua Autoconsciência e o seu Autoconhecimento. Admitir que o microgerenciamento é um problema e entender seus impactos negativos. Refletir sobre suas ações diárias. Identificar melhor quais tarefas deve delegar e quais se recusa a fazê-lo. Criar um ambiente seguro onde as pessoas ao seu redor possam fornecer feedback honesto sobre seu estilo de gestão. Aprimorar seu estilo pessoal e definir prioridades mais estratégicas. Gerenciar por resultados, não por tarefas, Dar mais liberdade para a equipe encontrar as melhores formas de alcançá-los. Enfim, aceitar a imperfeição, entender que nem tudo será feito exatamente à sua maneira, e que isso não é um problema.
Passo #2: Desenvolver uma Equipe Competente Contratar as pessoas certas, Investindo tempo e recursos no recrutamento de profissionais competentes, proativos e alinhados com a cultura da empresa. Delegar com clareza, definindo os objetivos, resultados esperados e recursos disponíveis, mas dando autonomia sobre o "como" fazer. Estabelecer expectativas claras, definir metas e métricas de desempenho claras para que a equipe saiba o que é esperado e possa ser responsabilizada por seus resultados. Empoderar a equipe: Incentivar a tomada de decisões em todos os níveis, mesmo que isso signifique pequenos erros. Avaliar os membros da sua equipe com base na meritocracia e não ser muito complacente com quem não sabe aproveitar as oportunidades de delegação.
Passo #3: Estabelecer processos robustos e confiáveis, reduzindo o personalismo e a dependência a um indivíduo. Processos adequados garantem que as tarefas sejam executadas de forma consistente, mantendo um padrão de qualidade. Isso reduz a necessidade de verificação constante.
O fundador, empreendedor ou executivo que deseja ser inspirador não pode e não deve ter receio de ser percebido como irrelevante. Ou seja, que a empresa conseguiu sobreviver e se desenvolver sem estar mais no comando.
Pelo contrário, deveria sentir orgulho de que passará agora a atuar em novo papel e está colocando a empresa em novo patamar.
Utilizando uma metáfora: empresa é campeã da Série B, cabe ao líder agora fazê-la brilhar na Série A. Esse o seu papel. Se insistir em fazer microgerenciamento na Série B, ela jamais brilhará na elite dos campeões.
O verdadeiro líder inspirador sabe que o seu maior legado é uma equipe que possa sucedê-lo e tocar o barco lá na frente, perpetuando a sua obra. E isso não acontece da noite para o dia!



