Armando Avena

A.AVENA: SÓ A ECONOMIA SALVA
A.AVENA: SÓ A ECONOMIA SALVA

Só a economia poderá salvar o governo Bolsonaro. Só um bom desempenho na economia poderá relevar a falta de preparo do Presidente para tratar de assuntos relacionados com a educação, os costumes, as relações exteriores e a convivência com a imprensa.  Mas para isso é preciso que a velocidade na aprovação e implementação das reformas seja maior do que a capacidade do presidente  de criar crises que já estão influenciando negativamente o mercado.  A previsão para o crescimento do PIB é de 2% em 2019, mas essa previsão cai pela metade se a reforma da Previdência não for aprovada no primeiro semestre.

O problema é que para crescer 2% ao ano é preciso incremento forte em cada trimestre e o primeiro trimestre de 2019 já registra crescimento pífio, a exemplo da produção industrial que caiu 0,8% em janeiro, o pior resultado dos últimos 4 meses. A economia brasileira está pronta para crescer e o crescimento de 4% nos investimentos, chamado de Formação Bruta de Capital Fixo, no último trimestre de 2018, demonstra isso. É a decisão de investir que define a performance da economia, já dizia Keynes, o maior dos economista. Mas o investimento depende do estado das expectativas e elas estão se deteriorando, pois os agentes econômicos começam a duvidar da capacidade de Bolsonaro negociar a reforma da Previdência e passar incólume por todas as crises políticas que ele mesmo cria. Os fundamentos da economia, como cambio e inflação, estão ajustados, mas não haverá crescimento sustentado sem resolver o déficit do governo, responsável por uma dívida interna que já representa 75% do PIB.

O Ministro da Economia apresentou a proposta de Emenda Constitucional com a reforma da Previdência e deve apresentar nos próximos dias uma proposta de desvinculação das receitas. No relacionado à Previdência, o governo terá de ter enorme capacidade política para não deixar a discussão se estender por todo o ano e tampouco deixar que os deputados desidratem a proposta tornando-a inócua. Já a ideia de desvinculação das receitas tem um vício de origem, pois dos R$ 1,5 trilhão do orçamento 70% referem-se aos gastos com a previdência e ao salário do funcionalismo, ou seja, pouco adianta desvincular receitas sem antes mexer na Previdência e reduzir o tamanho da máquina pública. A proposta de desvinculação de receitas pode até ser boa, mas sem mexer na Previdência e sem cortar na própria carne vai parecer que o governo quer apenas por a mão nos recursos destinados à saúde e educação e aí, adeus apoio político.

Sendo assim, o governo deveria jogar todas as suas fichas na reforma da Previdência e o Paulo Guedes, que até agora falou muito e fez pouco, deveria mobilizar sua equipe para implementar outras medidas que não precisam de aprovação do Congresso, mas que podem estimular a economia, especialmente no âmbito da desburocratização, eliminação de custos administrativos, desonerações,  etc. O fato é que só a economia salva o governo Bolsonaro e se os índices de crescimento e redução do desemprego não começarem a apresentar resultados já no segundo semestre e se as crises no âmbito do Palácio do Planalto, na Esplanada dos Ministérios e na família do presidente continuarem, vai ser inevitável  a constatação de que o país escolheu novamente alguém despreparado para o cargo.

                                                          POLE-POSITION

Faltam pouco mais de quinze meses para as eleições para a Prefeitura de Salvador e no quadro atual a posição do vice-prefeito Bruno Reis é de pole-position absoluta. Reis tem uma boa vantagem competitiva frente a candidatos novos, que ainda teriam de formar uma base em Salvador, enquanto ele vem sendo anunciado há seis anos pelo Prefeito ACM Neto como seu possível indicado para a sucessão e anda colado com o Prefeito por toda a parte. Além disso, fez um bom trabalho como  Secretário de Promoção Social, Esporte e Combate à Pobreza e agora  assumiu a Secretaria de Infraestrutura e Obras Públicas, uma das mais importantes da Prefeitura. Estando em campanha há tanto tempo, Reis chega a 16% das intenções de votos, segundo recente pesquisa do Instituto Paraná, deixando para trás qualquer postulante que ainda queira construir uma candidatura. É verdade que candidatos que já disputaram o poder municipal, como Alice Portugal e Nelson Pelegrino, também pontuam bem, mas, em ambos os casos, a pontuação reflete muito mais o recall das eleições passadas do que efetiva competitividade. Por outro lado, para apostar num candidato desconhecido ou com pouca visibilidade, o governador Rui Costa, que vai medir forças com o Prefeito ACM Neto, já teria que estar discutindo o assunto ou então terá de optar por um nome de peso já conhecido. Por isso, embora a política mude tão rápido quanto as nuvens no céu, nesse momento Bruno Reis é pole-position.

                                            INDÚSTRIA E CONSTRUÇÃO CIVIL

O PIB da construção civil na Bahia caiu 3,7% em 2018. Foi a quinta queda consecutiva, já que o último resultado positivo foi em 2013, quando o setor registrou crescimento de 0,9%. Em termos reais, o segmento regrediu ao ano de 2007. Já o PIB da Indústria de Transformação, que vinha caindo há 3 anos seguidos, registrou recuperação em 2018, crescendo 1,5%. Os destaques foram para a produção de bebidas, com incremento de 10% e de automóveis, com crescimento de 8%. Mas a indústria baiana como um todo ainda se ressente da queda na produção extrativa mineral, especialmente petróleo, e da redução na produção da Refinaria Landulpho Alves. Os dados são da SEI – Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais.

                                                            OS PORTOS DA BAHIA

Ocorre nesta sexta-feira o seminário Portfólio de Investimentos nos Portos da Bahia, uma realização da Codeba e do Correio. O setor portuário é fundamental para o desenvolvimento da Bahia. O Porto de Salvador, por exemplo, operado pela Wilson Sons, é responsável  por mais de 35% de todo o comércio internacional baiano e está operando uma rede de transporte de cabotagem que viabiliza fretes mais baratos. Já o Porto de Aratu, base do Polo Industrial de Camaçari, é o nosso Suape, mas precisa de novos investimentos e de modernização urgente. O Seminário pode ajudar a identificar oportunidades de investimentos e auxiliar a traçar um novo plano portuário para a Bahia. 

                                             GLAUBER ROCHA

Ontem, 14 de março, o baiano Glauber Rocha, o mais importante cineasta brasileiro, reverenciado em todo mundo, estaria fazendo 80 anos. Glauber nasceu em Vitória da Conquista, mas veio para Salvador e aqui se iniciou no cinema. Seu pai, Adamastor Rocha, montou a loja “O Adamastor” no antigo Palace Hotel, na Rua Chile.  Bem que o Fera Palace Hotel, que deu o nome de O Adamastor ao seu restaurante em homenagem ao pai de Glauber,   poderia ir mais longe e fazer uma parceria junto ao poder público para viabilizar a criação de um memorial em homenagem ao grande cineasta baiano. 

ARMANDO AVENA: O MELHOR CARNAVAL DO BRASIL
ARMANDO AVENA: O MELHOR CARNAVAL DO BRASIL

No desfile dos carnavais do Brasil houve um vencedor incontestável: o carnaval de Salvador. Em todos os quesitos – animação, diversidade, segurança, inovação e gestão – o carnaval de Salvador foi destaque. As comparações são sempre ruins, mas não há como comparar os blocos que se multiplicam nas ruas do Rio e São Paulo, com o que acontece em Salvador, afinal, o que se vê por lá são milhares de pessoas amontoadas em volta de uma única atração e o que une essas pessoas não é o som que ninguém ouve, mas apenas a animação ou a vontade de estar em Salvador, onde milhares de pessoas também estão amontoadas, mas em volta de dezenas de trios e de atrações que se sucedem ao longos dos dias e dos circuitos. E neste carnaval, Salvador teve dez no quesito participação, pois o folião pipoca tomou de volta o espaço público e assim os trios sem cordas predominaram.

Nada contra os blocos que ainda perseveram no modelo antigo, mas “a praça é do povo, como o céu é do condor”. Os blocos de corda provavelmente permanecerão, mas seu caráter será outro, pois se antes – quando serviam de proteção contra a violência – eram o espaço que permitia aos turistas e a classe média brincar, hoje – com a redução da violência no circuito – estão transformando-se em agremiações, espécie de clubes que reúnem fãs deste ou daquele artista e quem tem interesses e gostos comuns. O fato é que turistas e classe média não precisam mais pagar para brincar na rua e é isso que está fazendo minguar o mercado de blocos de corda, além, é claro,  dos camarotes que fazem concorrência, pois  milhares de pessoas preferem apenas assistir o carnaval e suas atrações. E, se além dos artistas que empolgam a multidão, os blocos afros – aqueles que criam coreografias na avenida – ampliarem sua participação no cortejo, haverá mais o que se ver dos camarotes e eles vão atrair mais foliões.

É verdade que o circuito Osmar precisa ser repensado e não ficar tão dependente do poder público e aí é preciso criatividade e inovação e novamente o desfile dos blocos afro pode ser uma solução. Vale lembrar que a inovação é a chave para o sucesso no carnaval, tanto no setor privado quanto no setor público. A criação do Fuzuê, um palco para as manifestações culturais da Bahia, do Furdunço e do Pipoco, por exemplo,  terminaram por gerar um espaço econômico e turístico novo, que atrai milhares de turistas num período em que as passagens e os hotéis são mais acessíveis e, ao mesmo tempo, representam um esquente para o carnaval que está chegando. No setor privado, o carnavalito na Arena Fonte Nova, o carnaval náutico visto das embarcações, o Buzafan do cantor Gerônimo e outras iniciativas comprovam que o futuro do carnaval passa pela inovação e pela originalidade.

As mudanças que ocorreram no carnaval de Salvador tem por trás todo um planejamento e uma análise do que é a festa e de como potencializar seu impacto na economia, no turismo e no emprego e os aplausos por esse trabalho devem ir para o Prefeito ACM Neto e sua equipe que estão criando novos produtos e organizando e inovando a folia. Aqui, registre-se a organização da festa, a padronização dos ambulantes, os fiscais que não deixam o circuito travar, e a expertise  da Polícia Militar da Bahia que garante segurança, mesmo com 2 milhões de pessoas na rua. Ainda assim há desafios, como o estrangulamento do transito na Av. Centenário e a buscade  alternativas para o circuito Osmar. Mas a verdade é que no desfile de carnavais do Brasil, o palco da Marquês de Sapucaí teve nota 6, a festa meio morna do Recife não passou de 7,5 e  os blocos desarrumados e sem som desfilando em toda parte no Rio e São Paulo mal alcançaram a nota 8. Já o carnaval de Salvador teve 10 em todos os quesitos e ganhou o título de melhor carnaval do Brasil.

                                                      AUSÊNCIA NA AVENIDA

A ausência do tradicional camarote do governo do Estado no Carnaval causou estranheza e  a explicação não convenceu. Falou-se em economia de recursos, mas o governo  afirmou ter gasto R$ 90 milhões com a festa, assim, suprimir o camarote seria uma economia de palito. O governo é responsável por vários serviços essenciais, como a segurança pública, e por várias atrações contratadas para o circuito e o governador Rui Costa, que praticamente não participou do evento e apenas acompanhou a saída do Olodum na sexta-feira, no Pelourinho, poderia ter colhido os aplausos pelo trabalho. O episódio não foi bem explicado, já que a economia com a não montagem do camarote foi pequena para o desgaste da ausência do governo e do governador  na principal festa do calendário de eventos da Bahia.

                                                  O QUE É ISSO, PRESIDENTE?

 Poucas vezes se viu um Presidente da República gastar seu enorme capital político com questões tão irrelevantes. Primeiro, a demissão rotineira de um ministro, que acabou virando um imbróglio familiar. Depois, um vídeo escatológico, que passaria despercebido e deveria ser objeto apenas da página policial, torna-se questão nacional e invade as manchetes de jornais do mundo inteiro, porque a maior autoridade da nação resolveu postá-lo na sua rede social. A toda hora, o presidente volta-se para questões polêmicas relacionadas com os costumes, como se quisesse assumir a liderança de uma cruzada moralista, função que não está prevista constitucionalmente nas atribuições do Presidente da República. Três meses já se passaram, a economia brasileira continua patinando, 12 milhões de brasileiros continuam desempregados, enquanto o presidente parece mais preocupado com a religião de cada brasileiro, com a roupa azul ou rosa que ele veste e com o que cada um faz com o seu próprio corpo.

                                                   SALVADOR INDUSTRIAL

 Quando se fala da economia de Salvador, todo mundo lembra imediatamente do turismo e dos serviços. Mas deveriam lembrar-se também da indústria. O município de Salvador é o 20o maior PIB industrial do país, maior do que todos os municípios do Nordeste, com exceção de Camaçari, que ocupa o 12o lugar, e de Fortaleza que aparece em 15o no ranking. O PIB do setor industrial soteropolitano é 30% maior que o de Recife e quase do tamanho de São Bernardo do Campo no ABC paulista.  Os dados são do IBGE e referem-se a 2016.

                                                  PIB DO TURISMO

O turismo está em alta e indagam-me sobre sua participação no PIB da Bahia. Apresso-me em dizer que esse número não existe, pois o PIB do turismo, que deveria incluir vários itens como transporte, alimentação, alojamento, comércio, etc não é calculado. O cálculo mais aproximado é aquele referente a Serviços de Alojamento e Alimentação que, em 2017, atingiu o montante de R$ 7 bilhões, ou cerca de 3% do PIB da Bahia. Os dados são da SEI – Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais.

COLUNA NO CORREIO : A PONTE SALVADOR ITAPARICA
COLUNA NO CORREIO : A PONTE SALVADOR ITAPARICA

Diferente do que possa parecer, sempre fui a favor da construção da ponte Salvador-Itaparica, mas sempre pontuei que uma obra dessa natureza não se viabiliza  apenas com pedágio ou com recursos privados. Por isso, registrei muitas vezes nesta coluna que a construção da ponte só seria possível com um aporte financeiro do poder público. Agora surgiu um fato novo, pouco destacado pela imprensa: o governo do Estado vai bancar cerca de 25% do projeto e injetar R$ 1,2 bilhão na obra, compondo assim uma engenharia financeira factível que torna possível e até provável que algumas empresas, especialmente as chinesas que têm expertise no setor, participem do leilão de concessão da obra.

Sendo assim, não há como não apoiar o projeto, afinal, Salvador é uma península, que possui apenas duas saídas terrestres pela BR-324 e pela Linha Verde, e sob o ponto de vista econômico uma terceira via integrando o baixo sul, o recôncavo baiano e a região oeste seria importante para a base produtiva estadual e para o sistema de transportes. E, diferente dos puristas, não acho que a ponte será uma agressão à paisagem, pelo contrário, vai embelezar a maravilhosa vista da Baía de Todos-os-Santos.

Nesse sentido, aplaudo os esforços que o governo do Estado e o incansável vice-governador João Leão, que coordena o projeto, vêm fazendo para sua construção, já estando previsto, inclusive, a audiência pública sobre o projeto marcada para março próximo e o leilão para sua concessão  no segundo semestre. Sem dúvida, o aporte de recursos por parte do governo surpreendeu, frente grave situação fiscal que atravessa, mas  o pulo do gato foi colocar no edital que essa participação financeira se dará através de duas tranches de recursos, uma de R$ 660 milhões e outra de R$ 540 milhões, mas apenas no quarto e quinto ano de construção respectivamente, o que significa  que o responsável pelos aportes não será o governo atual, mas o sucessor do governador Rui Costa.

Se as empresas aceitarem terá sido uma boa jogada, afinal, a expectativa no país é de retomada do crescimento econômico e o governo atual poderá  fazer a provisão de recursos necessária. Falta esclarecer apenas se a PPP prevê outro tipo de participação financeira do poder público, mensais ou anuais, e se haverá recursos públicos compensatórios  no caso da operação da ponte dar prejuízo, o que, provavelmente, será explicitado no edital.

Uma engenharia financeira equacionada é um dos pilares da obra, mas é fundamental também que o segundo pilar esteja de pé. Ou seja,  que a construção da ponte seja bem planejada, com cada etapa sendo objeto de cronogramas e recursos definidos, para que não haja atrasos como soe ocorrer em projetos desse porte, afinal, ninguém quer uma ponte inacabada, ou uma série de colunas sem uso espalhadas no meio da Baía de Todos-os-Santos.

O governo do Estado tem, no entanto, demonstrado experiência em  projetos dessa magnitude e a construção e operação do metrô de Salvador demonstra que é possível fazer a obra em tempo hábil e sem interrupções. O fato é que ao aportar R$ 1,2 bilhão na obra – um passo de gigante para um estado com poucos recursos – a construção da ponte ficou mais factível.

O GOVERNO COMECOU!

O governo Bolsonaro começou efetivamente esta semana com a entrega da proposta de reforma da Previdência e do projeto anticrime ao Congresso Nacional.  A proposta do governo Bolsonaro para a Previdência foi bem mais ampla e estruturada do que o remendo proposto por Michel Temer e traz um aspecto novo e importante: a diferenciação de alíquotas, que faz com que quem ganha mais tenha um desconto maior. Vale lembrar que em termos financeiros a reforma da Previdência não muda muita coisa no curto prazo, seus efeitos se darão no médio e longo prazo. A reforma vai gerar nos 4 anos do governo Bolsonaro uma economia de cerca de R$ 161 bilhões, um pouco mais que o déficit anual das contas públicas brasileiras. Mas o importante é o sinal que ela passa, indicando ao mercado e à população que o setor público vai cortar seus gastos, e que vale a pena investir num país que está resolvendo seu gargalo fiscal.

 OS NÚMEROS DO CARNAVAL

Indagam-me sobre os números do Carnaval. Aviso que, quando se trata de Carnaval, as estatísticas dançam.  Isso porque não existem estatísticas oficiais sobre o impacto econômico da festa. O Rio de Janeiro, por exemplo, está anunciando que a movimentação financeira do Carnaval de 2019 será de R$ 6,7 bilhões.   Em Salvador,  a expectativa é de uma movimentação da ordem de R$ 1,8 bilhão. Ambos são números aproximados, pois trabalham com médias, a exemplo do  gasto médio de um turista  estrangeiro e de outros estados e fluxo de turistas estimado, inclusive aqueles vindo do interior do estado. Mas esses números não têm muita importância, são apenas balizadores, o que importa mesmo é a taxa média de ocupação hoteleira que atinge quase 100%, os milhares de empregos criados, os serviços se multiplicando, bares e restaurantes cheios, o aeroporto a mil  e a cidade lotada de gente.

50 DIAS DE GOVERNO

Nos primeiros 50 dias do governo Bolsonaro houve equívocos e trapalhadas de todo tipo. Desde o  lançamento açodado e sem a presença do presidente de um plano de cem dias,  sem efetividade até o momento,  até a briga de foice travada entre o filho do presidente e o ex-ministro Gustavo Bebianno que transformou uma querela familiar em uma questão de Estado. Nesse período, Bolsonaro deve ter compreendido que no regime presidencialista ministro é demissível “ad nutum”, ou seja, a qualquer hora, por qualquer motivo e sem explicações. Não fazia sentido, portanto, que nas conversas com o ex-ministro, ele se empenhasse tanto em encontrar motivos para uma demissão que já estava decidida.

O capitão  também deve ter percebido que jamais deve usar o WhatsApp, seja em texto ou voz, para discutir questões estratégicas ou políticas e que há uma liturgia do cargo, por isso não pode deixar-se fotografar no palácio de governo, presidindo uma reunião ministerial, de chinelos, moletom e com uma camisa de time de futebol falsificada, pois isso passa a impressão de que ele discute os graves problemas do país como se estivesse discutindo futebol. Deve ter aprendido também que  misturar família e política não dá coisa boa, seja nas questões de Estado ou nas redes sociais. Se aprendeu, o país pode voltar-se para os seus verdadeiros problemas. Se não…

CONSELHOS PROFISSIONAIS

O governo federal, que suprimiu a obrigatoriedade dos trabalhadores pagarem mensalidades aos seus sindicatos, não cortou na própria carne e os profissionais liberais continuam obrigados a pagar mensalidades exorbitantes a  autarquias federais, ditas Conselhos de Profissionais que, sob pretexto de fiscalizar profissionais liberais, mantêm enormes estruturas burocráticas e sem função.

ARMANDO AVENA: HEIDEGGER E A MORTE DE BOECHAT
ARMANDO AVENA: HEIDEGGER E A MORTE DE BOECHAT

 A morte do jornalista Ricardo Boechat deixou-me chocado, não só porque perdemos um grande jornalista, mas também porque sua morte seu deu sob alguns dos signos ou dos estigmas do nosso tempo: a velocidade, a rapidez, a pressa. O progresso no mundo moderno passou a ser sinônimo de velocidade e isso se dá não apenas no sentido de tornar mais velozes nossos meios de transporte, mas também, de aumentar a velocidade e a rapidez com que fazemos as coisas de modo a ter mais tempo para fazer mais coisas. Ser bem sucedido no mundo moderno é ser rápido, veloz, estar em muitos lugares ao mesmo tempo. Paradoxalmente, a rapidez com que nos movemos no dia-a-dia tem o condão de fazer o tempo passar mais rápido, ou assim parece, e de tal maneira que quanto mais velozes somos mais rapidamente o tempo passa.

Em relação ao primeiro aspecto – a velocidade dos meios de transporte e nosso alheamento em relação a quem o dirige – lembro-me do escritor Thomas De Quincey viajando de carruagem, ainda no século XIX, e impressionado com a velocidade do veículo e de como estava ele à mercê do condutor e da precisão da máquina. Em determinado momento, ele percebe que em sentido contrário vem, na mesma pista, outra carruagem com igual velocidade e que “entre eles e a eternidade não havia mais que um minuto e meio”. Desesperado, De Quincey grita em sinal de alerta, mas percebe que se esse primeiro passo competia a ele, o segundo competiria apenas ao cocheiro e o terceiro a Deus.  Assim deve ter se sentido Boechat, no momento em que percebeu que a queda do helicóptero não demoraria mais que um minuto.

De Quincey, cuja história foi relatada por Italo Calvino, estava preocupado apenas com a velocidade da máquina, mas o homem moderno não só deu celeridade inimaginável as suas engenhocas como também estabeleceu como meta agilizar seu dia-a-dia, fazendo do seu cotidiano uma azáfama perene que gira cada vez mais rápido e exige cada vez mais deslocamentos. Isso responde, naturalmente, aos ditames da profissão, às necessidades de um mercado cada vez mais competitivo e ao imperativo de ganhar a vida, como fazia Boechat naquele dia fático, mas é preciso saber que tal velocidade resulta no mais das vezes no alheamento de si mesmo, até porque se o cotidiano é nossa ruína, fazê-lo correr nos arruinará mais rapidamente. Foi o filósofo alemão Martin Heidegger que afirmou ser o cotidiano “a ruína”, pois desviava o ser humano do seu projeto essencial alienando-o do seu objetivo principal e impedindo-o de tornar-se si-mesmo.

Heidegger, que teve como discípula e amante Hannah Arendt, é abominado em alguns círculos intelectuais por ter sido reitor da Universidade de Freiburg em 1933, ano em que Hitler foi eleito chanceler, mesmo tendo se demitido 10 meses depois por discordar do regime, mas escreveu um livro poderoso intitulado Ser e Tempo. Nele afirma que o homem é jogado no mundo sem ter sido consultado e que por isso precisa buscar a transcendência, algo além de si mesmo, mas que as preocupações cotidianas, cada vez maiores e mais aceleradas criam  uma existência inautêntica e o desviam desse objetivo, sacrificando seu eu individual, tornando-o público e assim o distanciam do objetivo essencial de sua vida que é tornar-se si-mesmo.  Uau! Perdoe-me, leitor. Essa digressão filosófica não estava prevista e saiu sem querer, talvez por conta das tragédias e mortes que devastam o Brasil nesse início do ano.  Ou talvez porque o mundo cotidiano e o aniquilamento inevitável de todas as coisas anunciam o Nada, fazendo o homem sentir-se como um ser-para-a-morte, como assim o define Martin Heidegger.

                                                   UMA NOVA ELEIÇÃO

Mal acabou a eleição de 2018 e os políticos baianos já estão alvoroçados pensando na eleição de 2020, principalmente a eleição para Prefeito de Salvador. A disputa vai ser novamente entre o governador Rui Costa e o Prefeito ACM Neto. Ambos já sabem o que deseja a população de Salvador: obras e melhorias nas condições vida. Neto vai forte para a disputa, afinal recuperou Salvador e sua autoestima, tem obras em toda a cidade e no gatilho o BRT e o Centro de Convenções. Rui também está bem avaliado em Salvador por conta do metrô e de outras obras e tem no gatilho o VLT do subúrbio e o tramo 3 do metrô que vai até Águas Claras. Politicamente, o Prefeito está em melhor posição, pois conta com o governo federal e seu partido tem a Presidência da Câmara e do Senado. Rui tem a possibilidade de manter a aliança com o PP e o PSD, partido fortes, que podem se unir ao governador ou preferir o voo solo.

O vice-governador João Leão mira a Prefeitura e pode se cacifar se a ponte Salvador-Itaparica vingar. Já o senador Otto Alencar está como canário em baixo de pano preto, mas na hora H vai cantar e seu canto tem peso. Neto tem muitos nomes e colocou dois em destaque no secretariado. Rui ainda não tem nomes a apresentar, mas tem muito nome bom interessado em se unir ao governador. Como não tem nomes postos, as especulações correm soltas e surgiu até um “professor pardal” sugerindo que o próprio Rui deixasse o governo dois anos antes para disputar as eleições, o que parece absurdo. No mais, tanto Rui quanto Neto terão de ir gradualmente preparando os nomes que poderão entrar na disputa, mas, como no Brasil não há tédio, muita água ainda vai rolar debaixo dessa ponte.

                                                    DUAS AMÉRICAS

A primeira escada rolante de Salvador foi na Loja Duas Américas, na Rua Chile, instalada em 1958, e não na Loja Sloper como afirmei erroneamente na minha última coluna. Agradeço a correção da  leitora atenta que ainda agregou: “Era uma loja de departamentos, que na época era chamada “magazine” e que tinha uma Casa de Chá. Era um local “chique” e bem frequentado”. Outro leitor faz a mesma correção e lembra que a segunda escada rolante foi instalada no edifício Bráulio Pedroso. Fica o registro.

                                                 UMA PÉRGOLA NA BARRA

O calçadão da Barra, especialmente a área que vai do Farol ao Cristo é um dos nossos points e nada tão agradável como caminhar vendo aquela vista maravilhosa. Mas no sol do verão o calor torna o passeio quase impossível. Então vai uma sugestão a Prefeitura: por que não instalar em parte da via uma pérgola como a que se vê na belíssima “Promenade des Anglais” em Nice ou na Foz do Douro na cidade do Porto, em Portugal? Um caramanchão cheio de plantas pode dar um toque especial a Barra.

                                                     SOBRE ECONOMIA

Indagam-me por que tenho falado tão pouco sobre economia. A resposta é simples: o governo ainda não começou e até aqui o que se tem são apenas expectativas.  Esta semana, ao que parece, conheceremos a reforma da Previdência e, quem sabe,  na segunda-feira o governo comece a governar.

ARMANDO AVENA:  1979: O ANO I DA LIBERDADE
ARMANDO AVENA:  1979: O ANO I DA LIBERDADE

 Era 1979. O céu do Brasil ainda estava manchado de verde oliva, mas um raio de sol teimava em surgir no horizonte. Após anos de trevas, o verão chegava com luz: o Ato Institucional nº 5, a ferramenta maior da ditadura, havia sido extinto no final de 1978 e os brasileiros começavam a sonhar com a democracia. Era um sonho débil, afinal um general escolhido por outros generais ainda ocupava a presidência, governadores e prefeitos eram nomeados, mas, apesar disso, o ano de 1979 estava prenhe de liberdade. O povo brasileiro exigia que ela nascesse e o parto começou com a aprovação da lei da Anistia e a volta ao país de  centenas de opositores ao regime militar. Brizola voltou injetando novos ares na política, Betinho, o irmão do Henfil, chegou empunhando a lança do combate a pobreza, Waldir Pires aportou na Bahia antes mesmo da anistia e Gabeira, um dos sequestradores do embaixador americano Charles Elbrick, desceu a escada do exílio anunciando a liberdade sexual e a revolução nos costumes e causando furor ao desfilar com uma sunga minúscula de crochê lilás pelas praias do Leblon.

A liberdade sexual e um certo ar andrógino também pareciam ter voltado do exílio junto com Gabeira mas eles tinham aportado muito antes com Caetano Veloso rebolando e cantando “O que é que a baiana tem” e com Gal, uma linda índia branca de calcinha, aparecendo quase nua na capa do disco Índia. Já então Caetano parecia ter como sina ser o alterego do Brasil, mas nos idos de 79 o posto ainda estava ocupado por Glauber Rocha, que estreou o polêmico programa Abertura na antiga TV Tupi para decretar, com sua verve incontrolável e maravilhosamente inconsequente, que “o cinema é a consciência nacional”. E como que avalizando o cineasta, Caetano lançava naquele ano “Cinema Transcendental” – “O melhor o tempo esconde/ Longe muito longe/ Mas bem dentro aqui” – e voltava ao palco dos festivais, cantando “Dona Culpa ficou Solteira” , de Jorge Ben, para novamente ser vaiado pelo público.

Quem ganhou o festival foi um jovem compositor de nome Dominguinhos com a música “Quem me levará sou eu”,  premiada com a quantia de 1 milhão de cruzeiros  Era quase nada, num país cuja inflação chegava a 80%  ao ano e a crise econômica parecia treinada para vencer generais e economistas. Mas quem se importava com a economia se a liberdade estava escapando pelas frestas da porteira da ditadura. A peça Rasga Coração, de Oduvaldo Vianna Filho, censurada durante anos pelo regime militar, tinha sido finalmente encenada e logo depois seria a vez de Calabar; a música já não era avalizada pelos censores e Gil cantava o Super-Homem – “um dia vivi a esperança de quer ser homem bastaria” –  e Chico Buarque em  “Pedaço de mim” fazia uma ode aos desaparecidos – “a saudade é o revés de um parto/ a saudade é arrumar o quarto/ do filho que já morreu. Finalmente a censura fora  exorcizada, os jornalistas repudiaram a mordaça e a “imprensa alternativa” deu voz ao Brasil. Enquanto isso,  os sindicatos se fortaleciam e no ABC surgia o Partido dos Trabalhadores, que seria criado em fevereiro do ano seguinte, sem que se pudesse prever que com ele viria a esperança e a frustação.

Na Bahia ocorre um marco dos novos tempos.  A UNE – União Nacional do Estudantes, impedida de funcionar durante os anos negros da ditadura, faz em Salvador seu Congresso de refundação o primeiro fora da clandestinidade e com o apoio do governador Antônio Carlos Magalhães que, embora eleito de forma indireta, não atendeu  às recomendações do chefe do poderoso SNI, o Serviço Nacional de Informações, e cedeu o Centro de Convenções de Salvador para os estudantes. Havia algo diferente no céu daquele ano e não eram naves extraterrestes.  E de repente, no Pelourinho, em uma noite de lua, ouviu-se um som tão diferente que parecia vindo de outro planeta, era um batuque cadenciado, uma mistura de samba e reggae que iria encantar o mundo. Neguinho do Samba fazia surgir o samba-reggae da Bahia e o Bando do Olodum e eles se espalham pelo mundo fazendo o próprio rei da música vir depois ao Pelourinho para reverenciá-los. E havia muito mais. No Brasil e na Bahia, os sinais estavam em toda à parte e eles mostravam o caminho da liberdade, a liberdade no pensar, na política, no sexo, na vida. 1979 foi o ano I da liberdade, mas muitos anos se passaram e muita luta foi preciso antes que ela fosse plena e ainda hoje ela não o é para muitos brasileiros. Por isso, 40 anos depois, é tempo de lembrar o quanto foi difícil conquista-la, apertar a mão do poeta e dizer:  “A praça! A praça é do povo/Como o céu é do condor/É o antro onde a liberdade/Cria águias em seu calor.”

                                                           AINDA 1979

E muito mais aconteceu na Bahia em 1979, ano em que foi criado esta folha, que hoje é o mais importante jornal do Norte e Nordeste do país e no qual Luiz Caldas cantou pela primeira vez nas ruas de Salvador, já grávido do Axé, o movimento que faria do carnaval da Bahia a mais importante festa do Brasil.

AS REFORMAS DE RUI E NETO

As reformas de secretariado do governador Rui Costa e do Prefeito ACM Neto não trouxeram novidades: time que está ganhando não se mexe muito. Na Prefeitura, dois nomes importantes assumem pastas estratégicas: Bruno Reis e Léo Prates. Ambos podem se cacifar para o futuro. Nas hostes do governo do Estado as principais pastas não sofreram modificações. A ida do vice-governador para a Secretaria de Desenvolvimento Econômica foi mais que acertada: João Leão está mais para a ação do que para o planejamento e é um tocador de obras cheio de entusiasmo. Já a nomeação do empresário Fausto Franco para o turismo pode ser uma injeção de sangue novo no setor. Franco tem desenvoltura, transita bem em São Paulo, nosso maior mercado, e pode surpreender.

                                                  AS RUAS DE SALVADOR

 A primeira vez que vi uma escada rolante foi na Rua Chile nas lojas Sloper. A Rua Chile era a passarela de Salvador e a classe média  adorava ir lá. Hoje a classe média baiana não anda mais nas ruas da cidade, trocou o prazer de fazer compras ao ar livre pelo prazer duvidoso de ficar caminhando pelas inexpressivas veredas dos shoppings. Isso é resultado das mudanças urbanas e do aumento da violência, mas é preciso resgatar esse bom hábito.  Todas as grandes cidades turísticas do mundo tem ruas que reúnem lojas, restaurantes e hotéis, geralmente no entorno do centro histórico, e que atraem os turistas e os moradores da cidade. Salvador tem duas ruas que poderiam ser assim: a Rua Chile e a Av. Oceânica, na Barra. A Barra,  que após a reforma tornou-se um point da cidade, e a Rua Chile que está sendo recuperada. Ambas, precisam agora que o poder público estabeleça um plano de ocupação com estímulos e incentivos a construção de hotéis, restaurantes, lojas, inclusive de grife, e equipamentos que possam atrair os turistas e a população.

ARMANDO AVENA:  E A LAMA COBRIU O BRASIL      
ARMANDO AVENA:  E A LAMA COBRIU O BRASIL      

Quando a lama chegou à foz do Rio Paraopeba, quase duas centenas de pessoas já estavam mortas e ainda havia desaparecidos, mas ela continuou seu caminho e parecia impossível detê-la. Todos temiam que a lama chegasse ao Rio São Francisco, o rio da integração nacional, mas, sem aviso, contrariando os laudos que afirmavam estar tudo bem, ela tomou um atalho em direção ao Planalto Central, invadiu a BR – 040 e se pôs a caminho de Brasília. A Vale, empresa responsável pelo desastre, garantiu que a lama não chegaria a capital do país, anunciou que colocaria barreiras impedindo-a de prosseguir e que todas as outras barragens que continuavam se rompendo seriam desativadas. E de quebra, e para acalmar os ânimos, deu 100 mil reais a cada família que tivesse um morto ou desaparecido, como se a dor pela perda de pai, mãe, filho ou sobrinho pudesse ser consolada com  alguns trocados.

A empresa mobilizou a imprensa, seus diretores solidarizaram-se com as vítimas, deram declarações pomposas e garantiram que aquilo jamais voltaria a ocorrer.  Ninguém acreditou, todos já sabiam que a tragédia quando se repete transforma-se em farsa. Mas os diretores da empresa, ciente da impunidade e de que em breve suas ações na Bolsa voltariam a subir, e com elas seus salários monumentais, acreditaram que a situação estava resolvida. Foi então que perceberam que a lama já havia chegado a Brasília e, avançando pelo pelo Eixão, agora se espalhava pela Esplanada dos Ministérios. Quando chegou a Praça dos Três Poderes, a lama invadiu o Palácio da Justiça e não adiantou os magistrados garantirem que obrigariam a empresa a pagar as multas da outra tragédia – e nenhuma delas tinha sido paga – ou prometerem que as famílias seriam indenizadas após três anos de espera, pois a essa altura cada gabinete da corte estava repleto daquela gosma que misturava descaso e incompetência com os dejetos das mineração.

A lama já havia encoberto “A Justiça”, a escultura de Alfredo Ceschiatti que, impávida e cega, dominava o prédio do Supremo Tribunal Federal, quando atingiu o Congresso Nacional e entrou pela chapelaria, como se parlamentar fosse, invadindo cada gabinete, especialmente aqueles cujos ocupantes eram financiados pelas mineradoras, para finalmente espraiar-se pelo plenário da Câmara e do Senado, onde as regras que exigiam investimentos em segurança e proteção às pessoas e ao meio ambiente não eram aprovadas e onde se vetavam as leis que responsabilizavam as grandes mineradoras. A câmara alta e a câmara baixa já estavam cobertas de lama quando a onda chegou ao Palácio do Planalto. E não adiantou o governo prometer um novo marco da mineração, aplicar multas milionárias na empresa dolosa  e garantir que endureceria nas licenças ambientais, pois logo a mancha marrom tomou as colunas do Palácio do Planalto, subiu a rampa e encheu o parlatório como se quisesse discursar para o país.

A lama parecia íntima  do Palácio, afinal ali já havia um barro  antigo, escuro e sólido, cozido nas caçarolas da corrupção, formando um aluvião estranho, uma mistura de presidentes e presidentas,  empresas estatais, empreitaras corruptas, doleiros e dirigentes de partidos. O governo recém empossado protestou avisando que mal havia chegado ao prédio e que a argila corrupta vinha de outros tempos, mas já haviam pegadas de um barro estranho na periferia familiar do novo poder e talvez a lama já tivesse passado por ali. O povo assistiu a tudo de longe e viu quando a Esplanada dos Ministérios cobriu-se de barro e a Praça dos Três Poderes submergiu baixo a onda de dejetos. Foi quando, do alto da torre de televisão de onde se avista Brasília, uma criança gritou desconsolada: A lama cobriu o Brasil.

                                                         ODÔ IYÁ

“Vestida de branco e perfumada de alfazema, Clara carrega o buquê de flores que oferecerá a Iemanjá. O Paraguaçu está enfeitado de saveiros, repleto de presentes e oferendas. É dia de festa para os negros que vão homenagear a Rainha das Águas. Mas nem sempre foi assim. Houve um tempo em que em vez de presentes os vapores traziam negros, arrancados de sua terra à força para tornarem-se escravos nos canaviais do Recôncavo. Mas os negreiros não traziam apenas os negros a quem a liberdade fora roubada, seu Deuses também atravessaram o Atlântico e não podiam ser acorrentados. Fizeram então da curva do Rio Paraguaçu uma de suas moradas e, em seu louvor, os fies cantavam e dançavam ao som de atabaques. Um dia, cansadas de ouvir o lamento dos escravos, Iemanjá e Oxum trouxeram de longe uma baleia imensa que subindo o rio encalhou no meio dele, e elas a transformaram em pedra para assim fechar as portas do rio as embarcações que conduziam a morte e a escravidão. E os negreiros não mais vieram, pois aqueles que ousassem transpor a Pedra da Baleia afundariam”.  Com um trecho do meu livro Recôncavo, louvo a Iemanjá, dona do mar da Bahia  e rainha da águas. Odô Iyá.

                                 IMÓVEIS NO CENTRO HISTÓRICO

Recebo a informação de que a hotelaria está interessada em comprar imóveis no Centro Histórico de Salvador. E que tanto a Prefeitura quanto o governo do Estado teriam imóveis e poderiam negociá-los. Não sei se a informação é correta, mas a ação é corretíssima. O Centro Histórico de Salvador precisa ser habitável, ter uma população que vive no local e hotéis que trazem gente do mundo inteiro para conhecer as belezas da Bahia. Há uma conversa enviesada afirmando que a ocupação do local tenderia a expulsar a população pobre. Conversa fiada. É o contrário, se bem conduzida essa ocupação pode gerar oportunidades de sobrevivência à população de baixa renda, gerando emprego, renda e comércio. Praia do Forte, o mais belo balneário da Bahia, bem mais interessante do que Trancoso, conseguiu fazer com que uma infinidade de hotéis, pousadas, restaurantes e casas de veranistas convivam em harmonia com os chamados “nativos” e hoje são dezenas as lojas, os serviços e o emprego oferecidos pela população local.

                                                 TURISMO E CULTURA

O governador Rui Costa deve anunciar está semana o nome do novo secretário de Turismo do Estado. A escolha reveste-se de enorme importância neste momento em que Salvador se destaca no ranking do turismo, nacional e internacional. O secretario de Turismo precisa ser uma liderança nova, técnica, com trânsito em outros estados, com capacidade de articulação com o trade turístico e com a Prefeitura de Salvador, para que assim os esforços de cada esfera do poder público sejam potencializadas. A área cultural precisa também voltar a ser destaque nacionalmente. A Bahia carece de uma nova política cultural, pois a atual pulveriza os recursos e está excessivamente focada nos gestores e na burocracia, quando o objetivo maior deveria ser o estímulo aos artistas e produtores culturais. Turismo e Cultura são a cara da Bahia e o governo quando se apercebe disso se aproxima mais do povo desta terra.

ARMANDO AVENA: JAIR, VOCÊ É O PRESIDENTE!
ARMANDO AVENA: JAIR, VOCÊ É O PRESIDENTE!

Jair Bolsonaro precisa se dar conta que é o Presidente da República, a maior autoridade do país.  Presidentes precisam adotar a postura de chefe de Estado, não podem estar chamando os ministros a todo momento para falar por ele, não devem faltar a entrevistas agendadas e tampouco deixar que o programa de 100 dias do seu governo seja lançado açodadamente sem a sua presença. Em Davos, Bolsonaro não parecia o presidente da 6ª maior economia do mundo e sua  participação como principal nome do Fórum Econômico  poderia ter sido muito melhor. Um presidente de um país da América Latina que tem, pela primeira vez, a oportunidade de abrir o Fórum Econômico de Davos teria de falar como um estadista, ainda que não o seja. E o problema não foi ter falado apenas 6 minutos, afinal a ex-presidente Dilma Rousseff falaria os 45 minutos que tinha à sua disposição e ninguém entenderia nada.

O problema é que o discurso foi raso, óbvio, como se o presidente estivesse gravando um vídeo para as redes sociais. Há quem diga que esta é uma estratégia política cujo objetivo é caracterizá-lo como um homem diferente dos políticos tradicionais, que falam muito e pouco realizam. É possível, mas tudo indica que Bolsonaro é apenas um homem simples,  simplório até,  embevecido e surpreendido por ter chegado ao ápice do poder, mas sem saber muito bem o que vai fazer com ele. Por isso, não se cansa de colocar o sucesso do seu governo nas mãos de dois ou três ministros, como fez novamente em Davos, dando a impressão que está liderando  um governo colegiado, um ideia impensável no sistema presidencialista no qual ministros são demitidos ao bel prazer do chefe do Poder Executivo.

É verdade que  o desempenho em Davos não vai afetar o enorme capital político do Presidente, mas passou  a impressão de que ele é um homem sem qualificação para o poder e está sempre passando a seus ministros a tarefa de dizer o que pretende fazer do país?  O leitor não precisa se preocupar, na história política brasileira foram muitos os presidentes sem qualificação para o poder e a ex-presidente  Dilma Rousseff é o mais trágico exemplo disso. Mas, ainda assim, Bolsonaro precisa portar-se como um presidente e cumprir a liturgia do cargo, pois sem isso será impossível vencer os desafios diários. E eles já são muitos. O mais grave, por enquanto, são as peripécias do primeiro filho, Flávio Bolsonaro, com seus depósitos fraccionados e suas explicações implausíveis que, inevitavelmente,  passam a impressão de  que aquilo que era frequente nos governos anteriores – escândalos e corrupção muito próximos ao Palácio Planalto – está voltando. Filhos…Filhos? Melhor não tê-los, diria Vinícius de Moraes.

É verdade que os problemas do zero-um ainda estão circunscritos a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, mas o potencial explosivo dessa história é enorme e poderá  se transformar no combustível que vai incendiar o Congresso Nacional, comprometendo  as reformas fundamentais para o país.  Jair Bolsonaro precisa também ter consciência de que seu governo não é coeso, que não pode chamar Moro ou Guedes para resolver os conflitos internos pois eles fazem parte do conflito, e que existe quatro núcleos de poder no seu governo:  um de conotação ultra liberal, outro de extrema direita, seus filhos e amigos conservadores e um grupo militar, que parece ser aquele a quem o presidente ouve e segue. A função de Bolsonaro tem de ser obrigatoriamente  a de moderar e organizar esses grupos e por isso ele necessita da autoridade e da liturgia do cargo.  Jair Bolsonaro precisa tomar consciência de que já não é mais Jair Bolsonaro, é o presidente do Brasil.

                                         BOLSONARO E SEU GURU

Passados quase três meses da eleição presidencial e 20 dias da posse do novo presidente a política nas redes sociais segue o mesmo rumo, com as noivas de Bolsonaro se digladiando com as viúvas de Lula numa batalha mortal.  Nada de novo se vê nesse campo minado no qual a visão crítica e a preocupação com o país parecem ter sido detonadas. Mas esta semana chamou atenção um vídeo do astrólogo e filósofo Olavo de Carvalho, guru da família Bolsonaro, que indicou o Ministro da Educação e das Relações Exteriores. No vídeo, Carvalho se utiliza de  expressões chulas e xingamentos para criticar os deputados do PSL, partido do presidente, pelo simples fato de que eles foram visitar a China, pátria do comunismo, uma bobagem que não levou em conta que o  país asiático é 2º maior PIB do mundo e maior parceiro comercial do Brasil. Dias depois, o famigerado filósofo foi se encontrar com o ex estrategista de Donald Trump e, ambos, desceram o pau no Ministro da Economia, Paulo Guedes, criticando suas políticas liberais. Com um guru como esse, o presidente não precisa de inimigos.

                                           BOLSONARO E OS RICOS

“Viu os pobretões que estavam na minha mesa ontem”. A frase foi uma brincadeira do Presidente Jair Bolsonaro com seus assessores ao se referir aos seus acompanhantes no jantar de abertura do Fórum Econômico em Davos. Ele se referia a rainha Rania, da Jordânia, ao presidente da Suíça, a rainha Mathilde, da Bélgica, e aos presidentes da Apple e da Microsoft.  Mal sabia o presidente que o personagem  mais rico naquela mesa era ele próprio, o responsável por administrar um PIB de 2 trilhões de dólares.

                                                           SUDENE

 O baiano Mário de Paula Gordilho, que foi nomeado por Michel Temer para a Sudene –Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste, deve permanecer no cargo no governo Bolsonaro.  O cargo é mais importante do que parece, pois a Sudene tem R$ 24,3 bilhões previstos para serem aplicados em 2019 nos empreendimentos localizados na área de atuação da autarquia, por meio dos Fundos Constitucional e de Desenvolvimento do Nordeste (FNE e FDNE). Gordilho já foi presidente da Conder e da Ademi-Ba

                                                   O EMPREGO E O TURISMO

Dos 28,6 mil novos empregos com carteira assinada gerado na Bahia em 2018, o melhor resultado em 3 anos, 71% foram gerados no setor de serviços e o segmento que engloba as atividades turísticas foi o que mais criou postos de trabalho. Os serviços de alimentação e alojamento, que englobam as atividades turísticas, criou 5,8 novos mil empregos e liderou a geração de empregos no Estado, seguido dos serviços médicos e veterinários com 5,5 mil e do comércio e administração de imóveis com 5,4 mil novos empregos gerados. Salvador foi o município baiano que mais criou empregos com carteira assinada em 2018, com 6 mil novos postos, seguido de Simões Filho, Dias D’Avila, Feira de Santana e Vitória da Conquista. As informações do Caged.

                                                               NIZAN

Ao tempo em que dou as boas-vindas a Nizan Guanaes, que se junta ao super time de colunistas do Correio, felicito-o pelo artigo “Salvador 2029: cidade global” e assino embaixo, como se diz na Bahia

ARMANDO AVENA: A LAVAGEM DO BONFIM
ARMANDO AVENA: A LAVAGEM DO BONFIM

 

A cidade da Bahia vestiu-se de branco e, ontem, como soe acontecer todos os anos na segunda ou terceira quinta-feira de janeiro, deu graças ao Senhor do Bonfim e a Oxalá. A lavagem do Bonfim é uma festa singular, única no mundo, pois em canto algum deuses tão diferentes são cultuados em uma mesma cerimônia. Em que lugar do mundo a tradição católica abraça a tradição pagã e juntas homenageiam suas divindades?  Em que lugar do mundo uma festa do candomblé ocorre no adro de um igreja católica? É tão bela e tão ecumênica a Lavagem do Bonfim que deveria ser mostrada ao mundo como a festa do congraçamento religioso que se realiza em Salvador, a Roma negra do mundo cristão. E não cabe aqui discutir se a festa  tem origem africana ou europeia.  A mitologia negra marca sua origem na África como uma homenagem à Oxalá, a divindade iorubá associada a criação do mundo e da espécie humana. Há também quem veja nela uma origem europeia, pois as lavagens já existiam em Portugal antes mesmo da escravidão. Mas a origem não tem nenhuma importância, o que importa é  a tradição e o apelo popular de um festa que se enraizou no imaginário do povo baiano e que se fez presente em todos o momentos da história da Bahia.

A política sempre esteve na lavagem do Bonfim e foram muitos os governadores que lutaram para permitir a prática da dupla pertença  pelo povo baiano. Entre eles, como não destacar o  prefeito de Salvador  Antônio Carlos Magalhães que, a partir de 1969, lutou junto a Igreja Católica pela liberação da festa e do adro da Igreja e, por isso, vestido a rigor, de paletó e gravata, foi batizado pelas baianas que derramaram a água de cheiro de suas quartinhas sobre sua cabeça. A teologia sempre esteve presente na lavagem do Bonfim e como não destacar o cardeal D. Eugênio Salles que liberou o adro da Igreja ao candomblé para que ali, em verdadeira epifania, fossem louvados Oxalá e o Senhor do Bonfim.  A História também esteve presente na Lavagem do Bonfim e em 1944, em meio a segunda guerra mundial, Jorge Amado, ao fazer a louvação  da festa, lembrou a   beleza da procissão, dizendo que ali se misturavam  os “cantos religiosos em estropiado latim aos cânticos negros das macumbas” e que naquela festa não havia lugar para o pecado, pois o demônio há muito que estava em meio aos exércitos nazistas.

O nosso vate maior viu nos ombros das lindas baianas o V da vitória  “um grande V de flores, que o povo depositou aos pés do santo”, e rezando –  tanto os fieis da igreja católica quanto os prosélitos dos candomblés da cidade –  pediam ao Senhor do Bonfim e a Oxalá a vitória dos exércitos aliados. Em toda a sua história recente, a cidade da Bahia viveu sob as graças do Senhor do Bonfim e de Oxalá e essa festa única precisa ser mostrada ao mundo, como algo tão singular e especial quanto a Festa de São Firmino em Pamplona, a Oktoberfest em Munique ou o Holy Festival na Índia.  O turismo está renascendo em Salvador graças ao trabalho profissional do poder público que recuperou nossa cidade e já é destaque nos rankings do turismo mundial e esse renascer será mais amplo quando for divulgado ao redor do mundo a beleza  de festas como a de Iemanjá e da Lavagem do Bonfim.

A cidade da Bahia está ressurgindo como destino turístico, mas esse renascimento não pode estar baseado apenas no mar maravilhoso ou no sol que nunca nos abandona, ele precisa estar fundado na nossa identidade que é o que nos diferencia.  A Bahia é uma nação e sua identidade está dada pela comida, pela história, pela música, pela religião, pelo patrimônio, pelo jeito de ser e de falar e pelas festas que são as manifestações populares do que somos. E se o carnaval é o clímax da nossa alegria, a festa do Bonfim é o apogeu da nossa baianidade. Ninguém será inteiramente baiano se não tiver sua iniciação na colina sagrada, vendo as baianas lavar as escadarias da igreja e molhando-se na água cheiro. Ninguém conhecerá a fundo a Bahia se não viver suas festas, se não der o presente a Iemanjá no dia 2 de fevereiro e se não subir a colina sagrada para ver a lavagem que é capaz de unir  o sagrado e o profano e de fazer do Senhor do Bonfim e de Oxalá deuses gêmeos que protegem todos aqueles que buscam a paz.

                                                O RENASCIMENTO DO CENTRO

O renascimento turístico de Salvador acontece concomitantemente ao florescimento do centro histórico da cidade e não poderia ser de outra maneira, afinal é ali o palco maior do magnifico patrimônio arquitetônico e de sua singular cultura afro-brasileira. E o centro histórico precisa se vestir de gala para apresentar a baianos e turistas suas festas, seus museus e seu patrimônio histórico e imaterial.  Felizmente, o centro histórico tem agora uma rede hoteleira de qualidade, pronta para receber quem nos visita. Na região reinam imponentes o recém inaugurado Hotel Fasano e o Fera Palace Hotel, chamado de joia da Arte Déco pelo The New York Times, mas há também o Wish Hotel da Bahia, tombado pelo patrimônio histórico, e uma joia  arquitetônica do modernismo. E tem ainda o Pestana Convento do Carmo, funcionando um edifício do século XVI, a Casa Amarelindo, uma mansão colonial do século XIX, e o Hotel Butique Villa Bahia, só para citar alguns. É bom ver a Prefeitura de Salvador e o Governo do Estado investindo no centro histórico, lembrando que são bem vindas ações no âmbito da segurança pública,(que tal um grupamento especial para a região?), na divulgação e facilidade de acesso aos museus e outros prédios, no estimulo à programação cultural e artística e por aí vai. E vale lembrar: investir no centro histórico é estimular o turismo na cidade inteira.

                                                         MERCADO IMOBILIÁRIO EM ALTA

São muitos os sinais de reaquecimento do mercado imobiliário em Salvador. Os sinais passam pelo estoque de imóveis novos à venda na cidade, que é o mais baixo dos últimos 5 anos, pela leve recuperação nas vendas de imóveis no ano passado e pelo otimismo com as propostas do novo governo. Além disso, já há novos lançamentos na praça. A Odebrecht, por exemplo, lançou o Monvert no Horto Florestal e vendeu as 140 unidades seis meses antes de começar as obras, demonstrando que há clientes dispostos a investir. O mercado ainda está em compasso de espera, mas deve deslanchar em 2019.

                                                        CONSELHOS PROFISSIONAIS

O governo federal, que retirou a obrigatoriedade da contribuição sindical, precisa fazer o mesmo com relação aos conselhos que representam profissionais liberais. Esses conselhos são autarquias vinculadas ao governo e obrigam a qualquer portador de diploma que exerça a profissão  a se associar e pagar contribuições anuais absurdas, sob pena de passar a compor o cadastro de inadimplentes do governo. O pretexto é que essas autarquias federais fiscalizariam o exercício da profissão, mas, com uma ou duas exceções que não precisariam da obrigatoriedade, transformaram-se em cartórios burocráticos.

 

 

ARTIGO: 40 ANOS DO CORREIO: O NOVO ENIGMA BAIANO
ARTIGO: 40 ANOS DO CORREIO:                                                                                                                                                                                                                                        O NOVO ENIGMA BAIANO

 

Até a metade do século passado, a economia baiana estava presa a um enigma: o enigma baiano. A Bahia de então era um estado rico, gerador de excedentes, e com forte especialização no comércio exterior, especialmente na produção de cacau. Mas era também um estado pobre e sem dinamismo já que o excedente produzido por essa economia não era reinvestido aqui e vazava para outros estados transformando-se em  consumo supérfluo e improdutivo.

O enigma baiano foi decifrado nos anos 50 com a implantação da Petrobras e a construção da RLAM, depois com a instalação do Centro Industrial de Aratu e, finalmente, em 1978, com a entrada em operação do Polo Petroquímico de  Camaçari. A industrialização parecia ser a saída e a partir daí novas indústrias se instalaram na Bahia como o complexo da Ford, o polo de celulose, indústrias de pneus, informática, calçados, bebidas e outras e, mais recentemente, o complexo acrílico da Basf e as empresas de energia eólica.  A economia se fez mais complexa  e a região Oeste transformou-se num dos maiores polos agroindustriais do país enquanto a fruticultura irrigada, as florestas plantadas, o café, a avicultura e outros segmentos tornavam-se ilhas de modernidade. Ao mesmo tempo, o turismo se expandiu e junto com ele a indústria do lazer e do entretenimento e o estado ampliou sua especialização no setor serviços, hoje responsável por cerca de 70% do PIB baiano.

A Bahia se modernizou, mas continua aprisionada a um novo enigma. O enigma de hoje é semelhante,  pois a economia baiana permanece  vinculada às commodities e suas oscilações nos mercado internacional.   Seja no agronegócio, com a soja e a fruticultura irrigada, na cadeia do petróleo e da petroquímica, na celulose, nos minérios o que se verifica é o aprofundamento da nossa dependência na produção de commodities agrícolas e industriais.  E com um agravante: a Petrobras, que representava 30% do Valor de Transformação Industrial em 2015,  representou apenas 15% em 2017 e está em fase de desinvestimento. A indústria petroquímica ainda permanece atuante, mas sua âncora, a Braskem tornou-se uma empresa multinacional e a Bahia já não tem tanta importância no seu portfólio de investimentos. E para completar, essa economia tem enorme deficiência de infraestrutura, o que amplia o chamado custo-Bahia e reduz sua competitividade.

Como decifrar esse novo enigma baiano que nos indaga sobre um estado que  ainda é um dos mais pobres e desiguais do país, cuja industrialização foi excessivamente concentrada em poucos setores e que possui grandes gargalos na sua infraestrutura? Antes de mais nada é preciso recriar o sistema de planejamento que é fundamental pois fornece subsídios às lideranças empresariais e políticas para que elas possam lutar por projetos factíveis e decifrar o novo enigma, a saber:  a) como a Bahia pode aprofundar e diversificar seu perfil industrial e agroindustrial, para inserir-se no novo ciclo de investimentos industriais e pós industriais?  b) como destravar investimentos estruturantes e fundamentais como a Ferrovia Oeste-Leste, a construção do Porto Sul e a modernização do Porto de Aratu, só para citar os mais emblemáticos? c) como priorizar recursos, orçamentários ou extra orçamentários para estimular o desenvolvimento e a inovação  tecnológica  e o investimento maciço em educação, fatores que determinam a competitividade no mundo moderno?

A Bahia precisa responder a essas perguntas.  Precisa repensar seu modelo econômico, dar-lhe novo rumo tentando ampliar a transformação de bens no nosso território, verticalizando a produção, aumentando o conteúdo tecnológico da economia, diversificando a base produtiva, estimulando as startups, fazendo turismo de forma profissional e colocando a infraestrutura certa no local certo e na hora certa. A academia e nossas universidades precisam sair da posição cômoda de doutores da teoria pura e integrar-se ao mercado, articulando-se com a indústria e o agronegócio e gerando conhecimento que se transforme em tecnologia e inovação e possa gerar lucro.  E o poder público necessita agir para, além do trabalho no âmbito da dotação de infraestrutura, estimular a inversão em novas tecnologias e na indústria 4.0 e nos segmentos do agronegócio e criar vantagens competitivas em setores como o turismo e os serviços, atuando como intermediador e catalizador dos novos investimentos.

Publicado no jornal Correio em 15/01/2019

 

 

Armando Avena é escritor, jornalista e economista.

Membro da Academia de Letras da Bahia é doutor em Ciências Sociais e Professor da UFBA.

Foi Secretário de Planejamento do Estado e Presidente da Fundação CPE.

 

ARMANDO AVENA: A ASCENCÃO DO HOMEM SIMPLES
ARMANDO AVENA: A ASCENCÃO DO HOMEM SIMPLES

O presidente Jair Bolsonaro é um homem simples e isso tanto pode ser sua glória como sua tragédia. Bolsonaro é um homem simples porque sua visão de mundo não convive bem com a complexidade. Para ele o mundo ideal seria aquele em que menino é menino e menina é menina e a família e a pátria os esteios da sociedade; a corrupção se combate com cadeia e o crime com arma na mão; Deus é a origem de tudo e o socialismo o demônio que tudo quer destruir. Simples assim. E não há demérito nisso, afinal uma parte da população brasileira pensa assim e foi através dessa identificação que ele se elegeu. Muitos intelectuais e parte da esquerda ainda não aceitaram esse fato – talvez porque se sintam menosprezados tendo como presidente um homem simples – e continuam acreditando que Bolsonaro é um legitimo representante da extrema direita e que chegou ao poder através de uma conspiração neoliberal com apoio norte-americano. Pura bobagem.

Que Bolsonaro representa o pensamento de direita é óbvio, mas sua eleição foi  a eleição de um homem simples, com valores conservadores bem arraigados e que soube se utilizar das redes sociais – o instrumento que deu voz a todos, inclusive os mais simples – e, por conta da situação do país, atraiu a maior parcela do eleitorado brasileiro que não é de esquerda ou direita, mas que já não aguentava mais a corrupção e a violência. É a primeira vez em muitos anos que um homem simples chega ao poder no Brasil. Fernando Collor de Mello foi um filhote da mais atrasada elite brasileira e exalava arrogância e vaidade. Fernando Henrique Cardoso foi um representante da classe média alta e intelectualizada, um filhote da academia, polido e intelectualizado, mas que exalava refinamento e vaidade. Luiz Inácio Lula da Silva foi por momentos o homem simples oriundo do operariado brasileiro e talvez fosse outro seu destino se chegasse a Presidência da República com a simplicidade com que se apresentou ao povo brasileiro em 1989.

Mas quando chegou ao poder em 2002 já era um homem complexo, secundado por José Dirceu e acostumado à convivência com a elite, tanto assim que comemorou a vitória com uma garrafa do vinho Romanée Conti e não teve pruridos em valer-se do mensalão para assim fazer ajoelhar a alta burguesia e os políticos brasileiros.  No poder, Lula tornou-se tão vaidoso quanto seus antecessores, parecia entender de tudo e gostava quando era chamado de “deus” pelos áulicos aos seu redor. Deixou o poder afirmando, com um brado tonitruante de vaidade, que não era mais ele, que havia se transformado numa ideia.

Jair Bolsonaro pode terminar seu mandato com a mesma arrogância e vaidade dos seus antecessores, afinal o poder dá ao seu detentor a inebriante sensação de que ele sabe de tudo e pode tudo, mas, por enquanto, está agindo como um homem simples e sua primeira semana no poder mostrou isso de forma cristalina. Foi uma semana em que o presidente voltou atrás na questão da idade mínima na reforma da Previdência, desdisse o que havia dito sobre a fusão da Embraer com a Boeing e  sobre possibilidade da instalação de uma base militar norte-americana no Brasil e ainda permitiu que seus auxiliares afirmassem em público que ele havia se equivocado. Bolsonaro ainda se comporta como um homem simples, aceita ser contestado em público, volta atrás no que disse e admite não saber nada sobre vários assuntos, especialmente economia e por isso deu a Paulo Guedes carta branca nos projetos e propostas. Um presidente sem vaidade, com ideias simples e capaz de delegar o poder quase totalmente  parece ser a receita para um bom governo, mas o exercício da presidência é o avesso da simplicidade.

No presidencialismo, não existe delegação plena, pois o Ministro da Economia, da Justiça, da Casa Civil, etc é o próprio Bolsonaro, já que ele é responsável por quem nomeia. Além disso, apesar do desejo de que as soluções sejam rápidas e simples, em economia e no governo em geral cabe a máxima: “para todo problema complexo existe uma solução simples… e ela está errada. Problema complexo exige solução complexa. “ Não se sabe por quanto tempo, Bolsonaro vai manter a aura de homem simples, mas  já se sabe que o Presidente da República não pode anunciar medidas que não vão se concretizar,  nem estar se retratando e voltando atrás a todo momento, afinal cada palavra sua causa enorme instabilidade no mercado, nas pessoas e no país.

                                                 A BAHIA E AS COMMODITIES

A Bahia fez um esforço enorme de industrialização buscando tornar-se um player de transformação industrial, mas não acompanhou as mudanças tecnológicas e voltou a ser mero produtor de commodities agrícolas e industriais. Entre os seis principais produtos da pauta de exportação da Bahia em 2018, seis são commodities. A soja substituiu o cacau e lidera as exportações baianas representando cerca de 20% do total exportado. Vem seguir papel e celulose, produtos químicos e petroquímicos, produtos metalúrgicos e petróleo, todos considerados  commodities industriais e sujeitos a oscilações de preços nos mercados internacionais. Em 6º lugar aparece as exportações de automóveis, único produto que pode ser considerado indústria de transformação. As informações são da SEI – Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais.

                                               O FIM DA VALEC. E A FIOL?

O governo federal anunciou que vai proceder a liquidação da Valec e a demissão de todos os empregados da empresa no primeiro trimestre deste ano. A Valec é a empresa pública especializada em construção de ferrovias, totalmente dependente do governo, e esteve envolvida em vários escândalos com desvios de recursos para obras, ineficiência e  ex-diretores envolvidos em falcatruas. O problema é que, ainda assim, foi a Valec que construiu a FIOL –Ferrovia Oeste-Leste, projeto fundamental para a Bahia, e que tem cerca de 70% das obras do primeiro trecho concluídas. A notícia torna urgente as gestões de lideranças políticas e empresariais e do governo do Estado junto ao governo federal para agilizar o leilão de privatização da Fiol, que estava previsto para o ano passado. Isso precisa ser feito rapidamente, pois com a liquidação da Valec a ferrovia que está parada, vai deixar de ter manutenção.

                                         DESEMPENHO DOS PORTOS

Os chamados portos públicos da Bahia – Aratu, Ilhéus e Salvador – reduziram sua movimentação de cargas em 6% em 2018, em relação a 2017. A greve dos caminhoneiros foi um dos responsáveis pelo mau desempenho. O Porto de Aratu sofreu uma redução de cerca de 8%, enquanto o porto de Salvador registrou uma leve queda e o porto de Ilhéus reduziu a movimentação em 17%. O Porto de Aratu está perdendo espaço no total movimentado, que caiu de 60% para 58%, enquanto o porto de Salvador elevou sua participação e já representa 40% do total. O Porto de Salvador também investe forte em cabotagem, a rodovia do mar, cujas operações crescem de forma exponencial. Os números são da Codeba – Companhia de Docas do Estado da Bahia