ARMANDO AVENA: OS ANJOS E DEMÔNIOS EM 2019
ARMANDO AVENA:                                                                                                                                                        OS ANJOS E DEMÔNIOS EM 2019

Apesar dos perigos que envolve os ritos da adivinhação, vou em busca de presságios para o ano de 2019. Quem primeiro aparece é o velho Nostradamus para novamente vaticinar o fim do mundo. “Quando o Sol ficar completamente eclipsado, passará em nosso céu um novo corpo celeste”, diz o vidente francês. Os crédulos logo se assustam, mas, embora seja certo que um eclipse solar acontecerá em 2019 e que um asteroide de nome 2002 NT7 cruzará os céus, é consenso entre os cientistas que ele passará tão longe que  não causará qualquer dano ao planeta azul. Então deixemos de lado os adivinhos e vamos em busca do horóscopo chinês no qual cada ano é regido por um animal. Assim, 2019 será o ano do Porco. A previsão é alvissareira, pois o ano Porco é um ano de abundancia, em que predomina um clima favorável para os negócios e a indústria em geral. A previsão cai como uma luva para o Brasil, afinal, o presidente eleito, Jair Bolsonaro, vai receber um país com inflação baixa, taxa de juros reduzida e em processo de retomada do crescimento econômico, bastando apenas realizar as reformas necessárias, como a da Previdência, para que a economia possa deslanchar. Mas aqui é preciso lembrar que o porco é chegado a excessos, é profícuo em gastos e  dado a movimentos impulsivos que podem comprometer os planos e a abundância prevista.

Todavia, estamos na Bahia e por aqui quem rege os destinos do país são os orixás e já se sabe que o poderoso Ogum é quem vai reger o ano de 2019. Ogum é  santo guerreiro que enfrenta os inimigos e não desiste do seu objetivo, mesmo diante de grandes obstáculos. E Jair Bolsonaro  vai precisar de toda a força de Ogum para  desviar-se dos rompantes autoritários da extrema direita e de projetos reacionários tipo Escola sem Partido. Vai precisar também da autoridade de Ogum para conter a arrogância e desfazer as trapalhadas dos “jairzinhos”, que por palavras e atos tem colocado o presidente em diversas “saias justas”. Mas Ogum  é patrono da agricultura e da tecnologia e talvez ajude o Brasil dar um salto neste e em outros setores.

De repente, enquanto especulo o futuro, dois pequenos seres se materializaram. Um deles  está vestido de vermelho, tem um pequeno tridente nas mãos e diz que este será um ano infernal. Avisa que Bolsonaro não terá paz no Congresso, que ficará entre a oposição ferrenha dos partidos de esquerda e a política de resultados do Centrão e que o famigerado Renan Calheiros tentará presidir o Senado, para fazer que nada mude no Brasil. Sem maioria no Congresso, diz o diabinho irritado, será impossível governar. “Nada disso! Você é dessas cassandras que só preveem o caos”, grita o outro pequeno ser materializado, que não escondia suas asas. Com voz angelical e doce afirma que esse será um ano maravilhoso, pois o país se modernizará e passará a crescer de forma sustentada. Diz que nos 6 primeiros meses Bolsonaro terá o apoio maciço da população e que o Congresso terá de aprovar suas propostas, lembrando que a única restrição grave ao crescimento é o déficit nas contas públicas que pode ser sanado com os cortes nas despesas e com as propostas que a competente equipe econômica está anunciando. E conclui: “não vamos colocar na reforma da Previdência todo o sucesso do governo, pois ela resolve apenas o futuro. O presente pode ser resolvido com a reforma tributária, com a ampliação do crédito, a desburocratização, as concessões e privatizações, a abertura comercial e o estimulo ao investimento”.

O cheiro de enxofre e o ar catastrófico do diabinho não me impressionaram, tampouco acreditei na peroração otimista do seu opositor angelical, afinal a realidade é sempre mais surpreendente do que as previsões, por isso não se deve dar muito crédito a videntes do passado, tampouco a  anjos, demônios e muito menos aos economistas.

                                                      GUEDES E OS BANCOS

O ministro da Economia, Paulo Guedes, vem falando de cortes em todos os setores, inclusive na indústria e no comércio, que seriam afetados com a redução dos recursos do Sistema S. Guedes também diz que vai estimular as competição em todos os setores e reduzir subsídios e financiamentos do governo aos empresários. Mas até aqui nenhuma palavra sobre os bancos. Nada sobre o absurdo spread bancário, que faz com que um banco pague ao poupador rentabilidade de 0,3% ao mês e empreste esse dinheiro a 5%, algo como 15 vezes mais. Nenhuma palavra sobre o fato de 5 bancos dominarem cerca de 80% do mercado de crédito num cartel sem precedentes no mundo. O gasto de publicidade desses gigantes é estratosférico, pois a competição se dá apenas na televisão com a propaganda.

                                                         A BAHIA DESCONHECIDA

Quando se fala em economia, ainda há uma Bahia desconhecida. O leitor  pode não saber, por exemplo, que Camaçari é a 5a maior economia do Nordeste, sendo superada apenas por Salvador, Fortaleza, Recife e São Luís;  Que 45% do PIB da Bahia está concentrado num raio de 100 quilômetros de Salvador; Que a economia do município de Luiz Eduardo Magalhães já é maior do que a economia de Ilhéus ou de Itabuna; Que Salvador, que parece uma cidade especializada só em serviços, é a 2a maior cidade industrial da Bahia com um PIB quase do tamanho de Camaçari; Que 7 municípios da região Oeste são responsáveis por quase 20% do PIB agrícola do Estado. Que alguns munícipios dobraram o PIB por causa dos investimentos em energia eólica e solar. Os dados são do IBGE e da SEI relativos ao ano de 2016.

                                              REFORMA DO SECRETARIADO

 O governador Rui Costa está fechado em copas e não dá qualquer indicação sobre a anunciada reforma do seu secretariado. Mas há quem garanta que o vice-governador João Leão pode trocar de pasta, que o deputado Bebeto Galvão do PSB, que não se reelegeu, vai assumir uma secretaria e que o Chefe da Casa Civil, Bruno Dauster, vai trocar a Casa Civil pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico. E que haverá mudanças nas secretarias de Turismo e Cultura. Mas é tudo “mimimi”, até agora o governador não deu um pio sobre o assunto.

                                                       VIA BAHIA

A concessionária Via Bahia, que administra a BR 324, fez o balanço de 2019: ampliou a iluminação em Salvador e Simões Filho, colocou postes e luminárias. Muito bom, mas os melhoramentos na rodovia, a nova pista, a melhoria nos acostamentos ficam para quando?

                                                     É HORA DE COMEMORAR

O último dia do ano/ Não é o último dia do tempo/ Outros dias virão (…)  Recebe com simplicidade este presente do acaso./ Mereceste viver mais um ano. Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos./ Teu pai morreu, teu avô também./ Em ti mesmo muita coisa, já se expirou, outras espreitam a morte,/ Mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,/ E de copo na mão/ Esperas amanhecer.

Com o poema Passagem do Ano, de Carlos Drummond de Andrade, desejo a todos um Ano Novo de muita alegria e paz.

ADARY OLIVEIRA: QUERENDO MOSTRAR O SOL COM UMA LANTERNA
ADARY OLIVEIRA: QUERENDO MOSTRAR O SOL COM UMA LANTERNA

Os méritos de alguns projetos são de tal importância para o desenvolvimento econômico e social da Bahia, pela tamanha clareza, brilhantismo e indiscutível valor, que falar sobre a oportunidade de sua realização é como se estivesse querendo mostrar o sol com uma lanterna.

Desde os tempos do baiano Anísio Teixeira se sabe que nenhum projeto carrega consigo maior soma de benefícios sociais para população do que concentrar todos os esforços na educação em todos os níveis. A erradicação do analfabetismo, a obrigatoriedade de todos os pais colocarem seus filhos nas escolas para cursarem o ensino fundamental a partir dos seis anos de idade, a garantia do governo oferecer um ensino de qualidade e um ambiente de bom convívio escolar sem repetência e sem evasão, são coisas de fácil realização. Basta que se use as experiências bem-sucedidas vividas na Bahia e em outros estados brasileiros. Para mim é o projeto mais reluzente de todos.

Dentre as realizações para proverem a economia da infraestrutura logística fitando a exploração de recursos naturais, ampliação da fronteira agrícola, abertura de novo vetor de desenvolvimento do Estado e promoção da integração de seu território, nenhum projeto é mais importante do que o da Ferrovia Oeste-Leste – FIOL e o Porto Sul, este a ser construído nas proximidades de Ilhéus. No campo da exploração mineral se poderia citar inúmeras oportunidades viabilizadas por este projeto. Fico com os três mais cintilantes: minérios de ferro, bauxita e rochas ornamentais. No agronegócio, que se expande com o algodão, frutas e grãos, obtendo-se no Oeste do Estado altas taxas de produtividade, tem-se o obscurecimento quase total desta vantagem pelo elevado custo do transporte até o litoral. Ainda mais: duas fábricas de celulose de fibra curta de dimensão mundial, produto intermediário manufaturado a partir de eucalipto, de cultivo realizado com técnicas modernas de seleção de clones, poderiam ter suas exportações realizadas pelo Porto Sul, ou pelo Porto de Ilhéus, com redução de custo de movimentação e armazenagem.

No campo dos serviços, nenhum outro é mais promissor para a Bahia do que o Turismo. O que se fez em Porto Seguro, na Chapada Diamantina e em Salvador, para citar poucos exemplos, está dando certo. Não se precisa de muito para ampliar essa prodigiosa fonte de riqueza que se combina de forma perfeita com a criatividade que Deus dotou os baianos na música, nas artes cênicas, na religiosidade e em tudo que alimenta o exuberante mercado do entretenimento. A oportunidade do uso do turismo na Bahia como fonte de riqueza e realizações, tem o brilho de um sol, e não se pode querer mostra-la com a luz de uma lanterna.

Escrevi há poucos dias que o petróleo ainda não é nosso. A ida da sede da Petrobras para o Rio de Janeiro, quando todos esperavam que ela ficasse na Bahia, significou uma perda maior do que se poderia avaliar. Os seus defensores calaram-se para não parecerem que usavam argumentos tidos como bairristas. Na verdade, perdeu-se o bonde da história. Hoje, com a quebra do monopólio da Petrobras, abre-se para as companhias independentes uma excepcional oportunidade de negócios. A exploração dos campos maduros que estão sendo devolvidos pela Petrobras, a exploração do shale gas e shale oil, e investimentos em infraestrutura que o Estado promete realizar, é, sem dúvida, uma possibilidade real.

Muito se poderia escrever sobre este tema. Entretanto, para citar mais uma estrela, a mais brilhante que se instala na Bahia é o da produção de energia elétrica renovável, eólica ou solar fotovoltaica. Brilha aos olhos o aproveitamento de outra dádiva do Criador que nada economizou quando cobriu o semiárido da Bahia com fortes ventos e superabundante insolação. A luz de todas as lanternas do mundo, não seriam capazes de ofuscar essa notável e atual aplicação.

Adary Oliveira é presidente da Associação Comercial da Bahia – adary347@gmail.com

ARTIGO DE NATAL: O PROFETA DAS MULHERES POR ARMANDO AVENA
ARTIGO DE NATAL: O PROFETA DAS MULHERES POR ARMANDO AVENA

Houve um tempo em que Deus era mulher. Era o início de tudo e o divino era representado pela  Grande Deusa Mãe, identificada com a Terra Mãe, origem da fertilidade. O homem ajoelhava-se frente ao mistério da concepção e, ignorante do seu papel na fecundação, via algo divino na fêmea que enformava no ventre um ser humano em miniatura e deixava sair de suas entranhas um pequeno homem ou uma pequena mulher. Durante milênios as mulheres eram veneradas como deusas, ainda que o poder estivesse nas mãos dos homens, e por volta de 4000 A.C. o culto da Deusa Mãe ainda predominava em Creta, o berço ocidental do divino feminino. No entanto, a divindade feminina e o louvor a fertilidade irá aos poucos desaparecer e o homem, no período que se estende de 4000 A.C. até 50 A.C., vai  gradualmente impor o seu poder que se exacerbará na chamada Idade dos Metais. É então que Deus torna-se homem e transforma-se em Zeus, Júpiter ou Jeová.

A religião masculina domina a Grécia, berço da civilização, mas o paganismo não retira o prestígio e o poder das mulheres. Zeus, o Deus do Trovão, convive em harmonia com deusas poderosas e Palas Atena, Hera, Afrodite e tantas outras se envolvem nas querelas dos homens e ostentam o mesmo poder dos deuses machos. A literatura grega de então louva o herói masculino de armas na mão, mas realça o papel das mulheres. Na Ilíada, o poema épico escrito por Homero no século IX A.C., a mulher é descrita com um olhar majestoso. A guerra de Tróia tem como principal protagonista uma mulher, Helena, esposa do rei Menelau, de Esparta, que apaixona-se pelo o troiano Páris e é por ele raptada. Desafiados, os gregos singram os mares em suas naves côncavas e durante dez anos lutam contra os troianos para assim trazer de volta Helena. Mas essa guerra heroica não é travada apenas pelos homens, pois as deusas descem do Olimpo para ajudar os guerreiros e Atena junta-se a Hera para dar a vitória aos acaios que destroem Tróia e trazem Helena de volta à Grécia. Vencida a guerra, que destino terá Helena, a quem Afrodite fez cair de amores por um troiano? Será condenada como adúltera e morta na terra onde se corrompeu? Não, a violência contra a mulher não tem lugar na literatura grega e na Odisseia encontramos Helena, após a guerra, reinando sobranceira ao lado do seu marido Menelau, Rei de Esparta.

Mas pouco depois de Homero ter escrito a Ilíada, a tradição oral de um povo monoteísta começa a ser disseminada para com o tempo transformar-se na Torá, o livro hebraico, também conhecido como o Pentateuco, que é a base da religião judaica. O Pentateuco composto de 5 livros – Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio – estabelece uma outra tradição, marcada pela misoginia e pela tentativa de submeter e desmerecer a mulher, seja na literatura ou na na vida. E, assim, o Gênesis, que conta a invenção do mundo, vai subverter a ordem natural criada pelo próprio Deus e que fez da mulher a origem da vida. Nessa estranha fábula, Eva, a primeira mulher, é tirada da costela do homem: pela graça de Deus uma única vez saiu vida do ventre do homem e ela se fez mulher. Antes o homem foi criado do barro, mas não seria mais razoável que o Todo-Poderoso tivesse primeiro criado a fêmea, fonte da vida, e que dela nascessem todos os homens? Não, o Deus dos Hebreus transformará o homem em mulher uma única vez para assim engendrá-la. Mas, mesmo saindo das entranhas do homem, ela nascerá livre. E a mulher, que Deus queria submissa  e dócil, vai contrapor-se a Ele e, desobedecendo-O, oferecerá ao homem o fruto proibido do conhecimento. A liberdade e o questionamento é o destino das mulheres, ainda que elas saiam das nossas costelas.

Os primeiros livros do Pentateuco nos apresentam a mulheres libertárias, tão fortes que nem a literatura que tentará subjuga-las será capaz de fazê-lo. Ainda no Gênesis, somos apresentados a Sara, esposa do patriarca Abraão, que foi capaz de rir de Deus ao saber que ela, velha e murcha, e seu marido, tão velho e murcho, teriam um filho.  “Murcha como estou, poderia eu ainda gozar? E meu senhor é tão velho!”, exclama Sara a rir.  Se Eva tomou de Deus o conhecimento, sem o qual sequer estas linhas poderiam ser escritas, Sara tomou Dele o riso, talvez o único antídoto para o vale de lágrimas a que fomos condenados.

E outras mulheres libertárias vão surgir  ainda nos primeiros livros do Antigo Testamento, até que no Levítico e no Deuteronômio, o Deus masculino e Todo-Poderoso vai impor a mulher um horroroso e retrógrado código de disciplina. Nesse estranho código, a mulher que dá à luz  é considerada impura por sete dias e ficará em casa por trinta e três dias, purificando-se do sangue. Isso se for menino o fruto do seu ventre, se menina for  ficará  impura por duas semanas e em prisão domiciliar por sessenta e seis dias. “A liberdade indócil é domada pela desgraça “ assim diz Shakespeare e a desgraça das mulheres virá através da lei deuteronômica, que vai impor a lapidação, condenando a adúltera a ser apedrejada, vai estabelecer o levirato, obrigando  a viúva a casar-se com o irmão do seu marido, e vai permitir o julgamento por ordálio em que o Senhor permite o uso do Seu nome numa oblação de  ciúme para provar o adultério, na qual o marido, tomado de zelos, convoca o rabino e impõe a mulher a farsa do Juízo de Deus. Com tais leis, não é de estranhar que os hebreus, frente à dúvida que assolava os homens ao ver uma mulher grávida, exclamassem: “ “Menina?  Que não o permita o Senhor!” E foi assim que Deus e os homens tentaram subjugar a mulher.

Mas muitos anos depois nas terras da Galileia surge um profeta de nome Jesus que, desafiando a lei arcaica, torna-se um apaixonado defensor das mulheres. Por elas, desafia a multidão e impede a lapidação da adúltera, contraria a lei judaica e deixa-se tocar  pela mulher menstruada e permite que a prostituta lave seus pés. Esse profeta andava pelos campos com as mulheres e convivia com elas, que jamais o abandonaram. Em Getsêmani elas estavam ao seu lado, na crucificação elas lhe darão consolo, quando todos os homens haviam fugido, e no seu retorno  é a elas que ele se apresenta. Jesus é o profeta das mulheres. Mas, em sendo assim, porque elas aparecem desbotadas nos evangelhos, como meras coadjuvantes na saga de quem fez um apostolado em seu favor?  A resposta é simples, a história desse profeta é contada em quatro evangelhos, ditos sinópticos, que traziam latente a mesma misóginia do Antigo Testamento, e que foram escolhidos como únicos e verdadeiros por homens, no concílio de Nicéa, em 325 D.C. Mas havia outros evangelhos, que os homens rejeitaram tanchando-os de apócrifos, e eles contavam uma história diferente na qual as mulheres eram discípulas de Jesus e dividiam com os discípulos homens a atenção do profeta. Mas sendo sinóptico ou apócrifo, o evangelho de Jesus comove a humanidade há mais de 2 mil anos. É um enredo maravilhoso capaz de trazer a salvação para os homens e de encantar aqueles que pensam que apenas a literatura os salvará. E se literatura se apossou dele, e Saramago, Mailler e outros contaram a saga sob o ponto de vista masculino, já era tempo de dar a palavra a mulher e escrever um “Um Evangelho Segundo Maria”.

Armando Avena é escritor e economista. Membro da Academia de Letras da Bahia é doutor em Ciências Sociais e Professor da UFBA. É autor do romance “Maria Madalena – O Evangelho Segundo Maria”, publicado este ano pela editora Geração Editorial.

Publicado no jornal Correio em 24/12/2018

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ADARY OLIVEIRA: TAPANDO O SOL COM A PENEIRA
ADARY OLIVEIRA: TAPANDO O SOL COM A PENEIRA

Não sei a origem da expressão acima, mas deve ser de lá das terras do meu sertão, onde a luz do sol é muito forte e a peneira, fabricada com palhas de ouricuri serve, entre outras coisas, para separar os grãos finos da farinha dos de maior dimensão, ou para catação do milho e do feijão, apartando-os de suas palhas ao sopro do vento, depois de secos ao sol. A peneira ganhou o mundo com a música Farinhada, de Luiz Gonzaga, no verso “Tava na peneira eu tava peneirando, Eu tava num namoro eu tava namorando”.

A expressão é usada quando se quer esconder alguma coisa com uma medida que não resolve o problema por completo, ou mesmo quando se adia uma solução definitiva de uma questão não resolvida e não se encontra uma saída saneadora terminante. O tapar o sol com a peneira muitas vezes faz o percalço crescer, criando dificuldades de maior monta, de solução mais difícil no futuro, quando não impossível.

No dia a dia do brasileiro, muito comum quando o mês continua depois do fim do salário, os raios do sol costumam ser pujantes em várias situações, nada escondendo. Se a dívida do cartão de crédito é parcelada, com as taxas de juros estratosféricas do mercado, por exemplo, aí é que a dívida fica a descoberto. O devedor entra numa enroscada dura de sair. Se ele pega dinheiro emprestado do agiota, pior ainda, não consegue desgrudar do malfeitor nunca mais. Entrar no cheque especial do banco para sanear um débito de uma compra mal planejada, parece ter solucionado o deslize, mas termina levando-o para um fosso maior ainda.

As coisas malfeitas costumam ser descobertas. Um ladrão começa a roubar escondido. Com o tempo ele se acostuma e passa a roubar na frente de todo mundo, aí vem a polícia e o prende. O lava-jato está cheio de exemplos desse caso. Uma gravidez mal planejada, muitas vezes acometida às escondidas, não adianta ser camuflada, o tempo se encarrega de revelar para todo mundo. Uma mentira mal contada, mesmo se repetida várias vezes como se verdade fosse, termina sendo descoberta. Se o povo é a vítima, aí então, pode esperar que a conta vai chegar, a cobrança pode tardar, mais não falha.

São inúmeros os exemplos de soluções ditas paliativas nas operações industriais de manutenção, nos processos de produção de bens com emprego de matérias primas mal especificadas, aquisição de tecnologias não testadas em escala industrial, lançamento de produtos no mercado mal dimensionado, desconhecimento do potencial dos concorrentes, uso de informações incorretas, que conduzem empresários para caminhos intrincados de um labirinto de saída inexistente.

Assim como na administração privada, na administração pública costuma-se querer tapar o sol com a peneira, pensando que se está tomando uma providência inteligente, quando não está. Procede-se assim quando se tenta cobrir um déficit orçamentário antecipando-se uma receita futura, adiando a mostra do buraco para mais adiante. Num outro caso, demite-se funcionários para suavizar a folha, agravando-se o problema do desemprego. O funcionário demitido, sem recursos, passa gastar menos, reduzindo os impostos arrecadados. Se ele se encosta num parente, pior ainda, o parente passa a poupar menos agravando a situação. E por aí vai.

Num momento de crise, quando as coisas ficam difíceis para todo o mundo, deve-se procurar uma solução que melhore a vida de todos. Não é o salve-se quem puder que vai tirar a sociedade da dificuldade. Os custos da classe produtora, formada por patrões e empregados, devem ser reduzidos. Os impostos não devem ser majorados e a produção de bens e serviços deve acomodar-se em situação de equilíbrio.

Na democracia, não é suficiente declarar-se democrata, é preciso praticar a democracia, ou seja, aceitar o desejo e a vontade da maioria. Não se deve nunca esconder o mal feito e sim definir novos rumos, com trabalho, dedicação e cedendo os espaços que estão sendo mal-usados, principalmente quando privilegiam uma minoria que insiste em ser dominante. Não se pode tapar o sol com a peneira.

Adary Oliveira é presidente da Associação Comercial da Bahia – adary347@gmail.com

ARMANDO AVENA: O NATAL DA VIRADA
ARMANDO AVENA: O NATAL DA VIRADA

O Natal de 2018 será o melhor natal dos últimos 5 anos. O país voltou a crescer, ainda que moderadamente, a taxa Selic é a menor da história recente, a inadimplência está em queda e o desemprego está diminuindo, ainda que vagarosamente. Além disso, as expectativas para 2019 são as melhores desde 2012. Tudo isso estimula o consumo, embora boa parte dos recursos do 13º terceiro já tenha destino certo: o pagamento de dívidas. A baixa rentabilidade da poupança e dos fundos de renda fixa também estimula o consumidor não endividado a ir às compras.  O comércio espera um crescimento nas vendas de 4% em relação ao ano passado, mas  o incremento poder chegar 5% ou mais. Aqui cabe uma recomendação ao leitor, tanto para aquele que vai usar o 13º terceiro salário para pagar as dívidas, quanto ao que pretende ir às compras.

O pagamento das dívidas –  com exceção das contas de consumo que não dão margem a descontos –  deve se dar através de um processo de negociação, ou seja,   o devedor deve negociar antes de pagar suas dívidas e exigir do credor o alongamento de prazos e juros mais compatíveis com o momento.  Já o consumidor que vai às compras é fundamental  dar preferência pela compra à vista,  pesquisar preços e pechinchar muito. Quem não pode comprar à vista,  deve pesquisar os juros, pois variam muito entre os estabelecimentos, e exigir taxas menores, lembrando que algumas lojas continuam praticando juros escorchantes, as vezes superiores a 3% ao mês no carnê, quando a  inflação é menor do que 4,5% ao ano e taxa de juros anual é de 6,5%.

Aqui vale dizer que, quando compra a prazo, a população mais pobre calcula apenas o impacto da prestação no salário,  quando deveria calcular o tamanho do juro no preço final do produto, afinal, pode estar comprando um bem pelo preço de dois. Comprar no cartão de crédito é bom, desde que o valor total seja pago integralmente no vencimento, mas é prejudicial ao consumidor se for utilizado o crédito rotativo. E vale lembrar que não existe essa coisa de parcelar em 3, 6 ou 10 vezes sem juros,  pois os juros já estão embutidos no preço, assim a compra à vista deve ser feita com um desconto de no mínimo 5%.  Um dica final: comprar em Shoppings é muito bom pela segurança, mas o comércio de rua e dos pequenos shoppings pode ser uma alternativa, mais barata e agradável. No mais, tudo indica que este Natal pode ser o Natal da virada,  bom para o comércio e melhor para as pessoas, e quem sabe  um presságio  a anunciar que o ano 2019 trará mais emprego e mais prosperidade para o Brasil.

                                             AS PERSPECTIVAS DO COMÉRCIO

O presidente da Fecomércio-Ba, Carlos Andrade, está otimista com o desempenho do comércio neste Natal e espera um crescimento das vendas entre 3% e 4% em relação ao ano passado. Carlos Andrade diz que, no âmbito do comércio e dos serviços, 2018 foi um ano de estabilidade, pois a recessão acabou  e houve ligeiro aquecimento no mercado de vendas e emprego. Em relação à 2019, o presidente da Fecomércio-Ba está otimista, não espera uma grande recuperação da economia, mas acredita num crescimento do PIB entre 2% e 2,5%.

“O importante é a recuperação dos níveis de emprego e o aumento da confiança e da credibilidade que faz com que o consumidor volte a acreditar no futuro”, afirma.  Em relação ao anúncio de cortes no Sistema S, proposto pelo futuro Ministro da Economia, Paulo Guedes,  Andrade lembra que  tanto o Sesc quanto o Senac prestam serviços importantes aos comerciários  na área de formação de mão-de-obra e na viabilização de educação, saúde , lazer e esporte e que os recursos do sistema não vêm do governo, mas dos próprios empresários. Segundo ele, antes de qualquer mudança o governo deveria conversar com o setor.

                                                  XEQUE MATE NO SUPREMO?

Alguns ministros do Supremo Tribunal Federal estão fazendo um esforço enorme para desmoralizar a instituição. A decisão do Ministro Marco Aurélio Mello de conceder  liminar cassando  a execução da pena após a condenação em segunda instância foi absurda, não pelo mérito da questão, que pode e deve ser analisada, mas por ter sido tomada monocraticamente, contra uma decisão já julgada em plenário, e por ter sido tomada no mesmo dia em que começava o recesso jurídico. Afinal, o que desejava o ministro Marco Aurélio? Interpretar sozinho a constituição e, assim, desmoralizar o Supremo? Ou desmoralizar o presidente do STF, que já havia marcado para abril a sessão plenária que votaria o mérito da questão? Felizmente, o Presidente do STF, Dias Toffoli,  tomou a decisão correta e quem saiu  desmoralizado foi o Ministro Marco Aurélio Mello.

                                                 O TECON, A CABOTAGEM E O ISO45

A navegação de cabotagem, movimentação de carga entre os portos de um mesmo país, está crescendo como nunca e pode se constituir na grande alternativa para livrar o Brasil da dependência do sistema rodoviário. No Terminal de Contêineres do Porto de Salvador (Tecon), por exemplo, as operações de cabotagem se ampliam a cada ano e, segundo o Diretor Executivo do Tecon, Demir Lourenço, cresceram 10% em 2018. A movimentação no terminal de contêineres também registrou leve crescimento em 2018, o que, segundo ele, pode ser considerado um  bom  desempenho, levando em conta o impacto da greve rodoviária que durou 3 semanas.

A Tecon Salvador comemora também a obtenção este ano do certificado ISO45 001, que trata da segurança do trabalho e saúde nas operações, sendo a primeira empresa brasileira no setor portuário a obter a certificação. A Tecon Salvador vê boas perspectivas para 2019,  tanto que acaba de investir em novos equipamentos, com a compra de 3 novos portêineres importados da  China. Além disso, pretende dar início as obras de ampliação do cais principal do Porto de Salvador em 2019 e espera apenas a obtenção das licenças que faltam para dar início ao investimento cujo montante é estimado em R$ 380 milhões.

                                                                  FELIZ NATAL

Um aldeão russo, muito religioso, tinha como maior desejo que Jesus viesse visitá-lo. E na véspera do Natal orou pedindo para que o Senhor viesse à sua casa. Arrumou tudo e ficou esperando. Então, viu um pobre vendedor carregando uma enorme mala no frio congelante. Compadecido, levou-o para a casa e deu-lhe roupas e comida para que pudesse seguir viagem. Mais tarde avistou uma mulher na estrada tremendo de frio e coberta de neve. Foi buscá-la e lhe deu abrigo e comida. A mulher se foi, a noite começava a cair… E nada de Jesus! Já era tarde quando viu na estrada uma criança faminta e quase congelada pelo frio.  Saiu, pegou a criança, deu-lhe de comer e resolveu adotá-la. Cansado, dormiu enquanto esperava pelo Senhor. Foi então  que tudo se iluminou e Jesus surgiu. Encantado, o camponês disse:

– Ah! Senhor! Esperei por Ti, o dia todo, e não apareceste…E Jesus respondeu-lhe:

– “Mas já por três vezes, hoje, estive em sua casa!”

A história é do escritor russo Leon Tostoi e com ela desejo a todos um Feliz Natal, com muita paz e alegria.

PAULO AMILTON: A VINGANÇA DOS EXCLUÍDOS E A CULTURA DO COITADO
PAULO AMILTON: A VINGANÇA DOS EXCLUÍDOS E A CULTURA DO COITADO

A questão original que os economistas institucionalistas fazem é: Por que algumas sociedades são mais pobres que outras? Na visão de Douglas North, prêmio Nobel de economia de 1993, a falta de poupança, de inovação, de economias de escala, de educação, de acumulação de capital, está justamente nas diferenças das instituições que cada sociedade escolhe e que não permitem o surgimento ou desenvolvimento daquelas condições para que o crescimento esteja presente e a pobreza seja erradicada.

Se instituições são importantes, então como defini-las? Para North, instituições “são as regras do jogo na sociedade, ou mais formalmente, são os instrumentos construídos pela sociedade humana para moldar suas interações. Como consequência, elas organizam a estrutura de incentivos nas trocas humanas, no sentido político, social e econômico”. Como elas são elaboradas? Vários fatores influenciam na elaboração das instituições de uma sociedade. Uma delas é a cultura.

A cultura é a variável que mais afeta os valores morais, as preferências e as crenças dos indivíduos e da sociedade. Ao afetar estes, afetam a elaboração das regras de convivência numa sociedade, ou seja, as instituições. Já a cultura é influenciada pelos grupos étnicos e raças que compõem uma sociedade como também os processos históricos que estes vivenciaram no seio destas.

A sociedade brasileira vivenciou um longo período de escravidão e, por conta da colonização portuguesa, recebemos forte influência religiosa. Estas vivências reforçaram a forma que encaramos o trabalho. No primeiro caso, o trabalho é obtido pela opressão. No segundo, como um castigo pela curiosidade de Eva, que nos fez ser expulsos do Paraíso. Somando as duas vivências, resultou que na sociedade brasileira o trabalho não é valorizado. Isto influenciou até a literatura. Veja a obra do maior escritor da língua portuguesa, Machado de Assis. Na obra deste gênio das letras os personagens principais não trabalham. Todos vivem de renda. O trabalho só é exercido pelas classes inferiores. Na reforma da previdência proposta pelo governo Temer, vários críticos detrataram a reforma ao dizer que ela faria o trabalhador continuar trabalhando por longos períodos de tempos.

Aquela visão sobre o trabalho influenciou a elaboração da CLT de Getúlio Vargas, além da forma como os empresários são vistos, descendentes diretos dos escravocratas. O limite desta visão é tratar os trabalhadores como hipossuficientes e os empresários como vilões. Como hipossuficientes, são nossos coitados.

Com a ascensão do PT ao poder, ganhou força a ideia que nossos trabalhadores precisavam ser tratados de forma benevolente para que sejam compensados pelos maus tratos que seus ancestrais sofreram. Esta visão estava, e ainda esta, certa. É preciso que o Brasil tenha políticas públicas compensatórias para corrigir injustiças sociais seculares. As desigualdades são imensas, pois a sociedade brasileira é uma verdadeira usina de produzi-las. A classe trabalhadora deve ser valorizada. Os mais produtivos devem ser premiados. Deve-se ter políticas públicas que façam com que, a partir de um trabalho honesto e dedicado, a classe trabalhadora possa ascender socialmente.

No entanto, exageros não devem ser perpetrados. Tratar bandidos como coitados é um exagero. Achar que os assaltantes são descendentes dos escravos e que precisam ser compensados por isso é um exagero. Levar isto ao extremo, numa verdadeira vingança dos excluídos, é penalizar aqueles que nunca foram ricos, mas que trabalharam em busca de seus sonhos e obtiveram seus bens através de um trabalho honesto. Achar que toda pessoa assaltada é descendente dos escravocratas é um exagero.

Fazer com que a vítima de um assalto, por que reagiu, seja vista como um criminoso, como aconteceu com a policial que atirou num meliante quando este estava praticando seu ofício em mães que estavam deixando seus filhos no colégio, é um exagero. A justiça usar o princípio da insignificância ao determinar que nos casos de roubos de celulares com preços menores que R$1.000 não se deve aplicar pena, como o STF determinou, é um exagero. Nesses casos houve violência psíquica e merece ser visto como o que de fato é, um assalto. Usar as audiências de custódia para libertar todo tipo de meliante é um exagero. O que se deve é valorizar a classe trabalhadora e modificar a visão que o trabalho é uma penalização. Deve-se entender que assalto não é categoria de trabalho e deve ser penalizado. A cultura do coitado deve ser abolida de nossa sociedade.

 

 

 

 

 

 

 

ARMANDO AVENA: A ECONOMIA DO VERÃO
ARMANDO AVENA: A ECONOMIA DO VERÃO

Além do início do ciclo de festas populares em Salvador, o mês de dezembro marca o início de um ciclo econômico especial para a cidade: a economia do verão baiano. A economia do verão é uma cadeia produtiva que envolve vários setores de atividades e que tem por base o entretenimento e o turismo, sob a supervisão do maravilhoso sol da Bahia. Essa cadeia produtiva é movida pelos cerca de 2 milhões de turistas que aportam em Salvador, pela demanda gerada por festas de grande porte como Natal, Réveillon e  Carnaval, pelos eventos de todo tipo que se sucedem na cidade no período e, principalmente, pelos próprios soteropolitanos que, animados pelo verão, ampliam sua demanda  por festas, restaurantes, academias, bebidas, roupas, brinquedos e todo tipo de produto.

A economia do verão dinamiza, portanto, o comércio, a indústria, especialmente a de bebidas e produtos alimentares, e toda uma imensa gama de serviços, que só existem porque existe a festa, porque existe o sol, porque existe o verão. Sob o ponto de vista da hotelaria, é fácil avaliar o impacto da economia do verão, já que nesse período a taxa de ocupação média dos hotéis atinge quase 70%, com picos de 100% em algumas áreas e no período das grandes festas. Sob o ponto de vista do turismo  internacional, levando em conta que cerca de 80 a 100 mil turistas estrangeiros desembarcam na cidade, basta estabelecer uma permanência média e um gasto médio por turista razoável, para se chegar a uma movimentação financeira da ordem de R$ 200 milhões. Naturalmente, são números aproximados, mas se cálculo semelhante for feito para a totalidade dos turistas que chegam à cidade para curtir o verão, o montante crescerá de forma exponencial.

E, vale lembrar, além dos turistas estrangeiros e nacionais, há aquele que vem do interior da Bahia, que representa cerca de 60% do total de turistas e que vem à Salvador várias vezes no verão, chegando com o espírito preparado para gastar aqui o que amealhou durante o ano. E não vamos esquecer o morador da cidade que é o elo principal da cadeia produtiva do verão, responsável pelo aumento expressivo da demanda em vários segmentos econômicos que se iluminam com o sol da Bahia.

Por fim,  é preciso destacar o papel do poder público na dinamização dessa economia, pois ao iluminar a cidade para as festas natalinas, ao viabilizar a infraestrutura necessária para grandes eventos, como o Réveillon e o Natal, a Prefeitura torna a cidade mais bonita e aprazível para os seus moradores, atrai turistas  e ainda viabiliza a geração de emprego e renda para uma população que sem a festa, sem a movimentação nas praias e nas ruas, não teria emprego, não teria a quem vender suas bufarinhas, nem como dinamizar o mercado informal. Em Salvador, quando chega a estação do sol,  há mais trabalho, o comércio se amplia, os serviços são oferecidos em toda à parte e é assim que se cria a economia do verão baiano.

                                        ARENA: UM HUB DE ENTRETENIMENTO

A Arena Fonte Nova fecha o ano de 2018 consolidando-se como um grande hub de entretenimento na Bahia, e com muitos projetos para 2019. No ano passado, a Arena registrou um crescimento de 10% no números de pessoas que foram ao estádio, sendo 60% desse total em jogos de futebol e o restante em eventos, com destaque para o show de Roger Walters, o Festival de Verão e outros. O número de jogos foi recorde, pelo bom desempenho do Bahia (ponto para Guilherme Bellintani),  mas o público dos eventos também cresceu cerca de 10%. Hoje a Arena está próxima de sua capacidade operacional com a realização de 1 evento a cada 2,8 dias. Mas, o que torna esse equipamento importante para Salvador é o seu caráter de hub de entretenimento, no sentido de que os eventos aí ocorridos reverberam em vários segmentos da economia baiana e metropolitana.

Estima-se, por exemplo, que os eventos realizados na Arena geraram cerca de 100 mil empregos entre temporários e indiretos, atraíram milhares de turistas e movimentaram a chamada economia do entretenimento. Um exemplo do impacto positivo na economia soteropolitana foi o show de Roger Walters, que atraiu cerca de 10 mil turistas e injetou algo como R$ 20 milhões na economia. E as perspectivas para 2019 são maiores, afinal, além de 1 ou 2 shows internacionais previstos, haverá 4 jogos da Copa América em Salvador, um deles da seleção brasileira, além de vários eventos empresariais como o da Abase, que este ano viabilizou negócios entre as empresas que atingiram a cifra de R$ 300 milhões. E para completar a Arena está se integrando a economia do verão, ampliando a grade nesse período e criando o chamado “carnavalito”,  um carnaval dentro do estádio.  A Arena quer fortalecer o papel de hub de entretenimento e já fez parcerias com o metrô e o aeroporto de Salvador para tornar-se mais competitiva e ajudar na atração de turistas para Salvador.

                                                  A REFORMA DE RUI

A reforma administrativa que o governador Rui Costa enviou para Assembleia Legislativa foi aprovada com um custo político alto, especialmente junto ao funcionalismo público. Há quem diga que o governador agiu corretamente, afinal o rombo da previdência é de mais de R$ 4 bilhões e  elevação da contribuição previdenciária dos servidores de 12% para 14% reduz o rombo. Mas há quem afirme que o montante arrecadado com esse aumento nem arranha o déficit e que o governo deveria ter esperado, pois este é um problema de todos os estados brasileiros e terá obrigatoriamente de ser objeto de medidas saneadoras por parte do governo federal. Na reforma administrativa, há quem diga que foi um erro sofrer um enorme desgaste político para não  extinguir nenhuma das grandes empresas e economizar apenas R$ 390 milhões por ano, algo como 0,8% do orçamento.  Talvez o corte em alguns programas e em outras tantas despesas de custeio resultasse em economia semelhante.

Há quem diga também que foi um erro fazer toda essa movimentação de pessoal, com a extinção e criação de órgãos, para eliminar 1.834 cargos comissionados e, ao mesmo tempo, criar outros 1.615 cargos, obtendo uma redução de apenas 219 postos. Mas há quem afirme que é cortando um pingo aqui e outro acolá que se equilibra as contas. Há ainda o mal leitor de Maquiavel que sempre diz que é melhor adotar medidas duras de uma só vez e no início do governo, pois aos poucos o povo esquece. É possível,  mas com a redução de R$ 200 milhões nas receitas do Planserv e a provável redução na qualidade do serviço, cada vez que o servidor precisar de assistência médica vai se lembrar da reforma do governo.

                                                            EM TEMPO

Quando assumiu o segundo mandato a ex-presidente Dilma Rousseff tinha grande popularidade e a confiança dos brasileiros. Três meses depois, em abril de 2015, após adotar um fortíssimo ajuste fiscal, pesquisa CNI/Ibope indicava que 73% da população já não confiava na Presidente.

PAULO AMILTON MAIA : A DESIGUALDADE E A EDUCAÇÃO SUPERIOR GRATUITA
PAULO AMILTON MAIA : A DESIGUALDADE E A EDUCAÇÃO SUPERIOR GRATUITA

Vários estudos sobre desigualdade sugerem que o lugar onde se nasce e se vive influenciam fortemente a renda futura das pessoas. A desigualdade também sofre forte influência do background familiar. Filhos de pais ricos tendem a manter esse status em idade adulta. Já filhos de pais pobres tendem a repetir o padrão de renda dos pais. A desigualdade também tem relação direta com os anos de estudos e da qualidade destes. Resumindo, a desigualdade de renda é fruto da desigualdade de oportunidades.  Filhos de pais ricos, com mais anos de estudo, com educação oferecida em escolas e universidades de melhor qualidade tendem a usufruir de uma renda maior quando na idade adulta por que essas oportunidades fazem ele ter uma produtividade maior. Isto implica que o mercado o valorize mais e, por conta disto, está disposto a pagar mais para ter os serviços destes indivíduos.

Evidentemente que a desigualdade é inerente aos indivíduos. Nenhuma política pública irá erradicar as desigualdades simplesmente por que os indivíduos são naturalmente diferentes entre si. Uns são mais dinâmicos que outros e, por conta disto, auferem rendas diferentes no futuro. Tratar de forma igual os desiguais é um caminho seguro a mediocridade. O “Homus Economicus” é movido a incentivos e, dado que ele é racional, informado e centrado em si próprio, se tratado de forma igual, não reverterá à sociedade todo o seu potencial criativo.

No entanto, o Estado deve oferecer condições iniciais iguais para que a diferenças sejam minimizadas. Neste sentido, educação e saúde básicas são as principais oportunidades que um indivíduo pode receber do Estado. Quanto maior for a qualidade e uniformidade dessas, mais os indivíduos têm probabilidade de auferir rendas parecidas no futuro.

No tocante ao oferecimento pelo Estado dos serviços de educação, no contrato social emanado da constituinte de 1988, ficou acordado que o oferecimento do ensino público brasileiro seria dividido entre os entes federativos na seguinte ordem de prioridade. O oferecimento do ensino fundamental ficaria a cargo dos municípios, do ensino médio pelos governos estaduais e o ensino superior pelo governo federal.

É notório que o ensino oferecido pelos municípios e estados deixa muito a desejar em termos de qualidade e que, por conta disto, a classe média não coloca seus filhos nessas escolas. Os filhos da classe média e rica frequentam as escolas privadas. Já os filhos de pais menos favorecidos em termos de renda colocam seus entes em escolas públicas. Resultado, os filhos dos ricos tem mais oportunidades do que os filhos dos pobres. As condições originais são desiguais e, por conta disto, o resultado é a magnificação das desigualdades entre os indivíduos no futuro. O motor de desigualdades no Brasil é o oferecimento de condições originais desiguais.

Os países mais ricos que o Brasil têm essas condições originais ofertadas de forma muito mais igualitárias. Existem escolas privadas, mas a população é fortemente incentivada a colocar seus filhos em escolas públicas. O filho do pobre estuda ao lado do filho do rico. No futuro este filho do rico pode oferecer chances ao filho do pobre por que conhece ele. Teve contato próximo com ele. Esta proximidade pode ser um veículo de mobilidade social.

Em “Formação Econômica do Brasil. (1961, 8ª edição)”, Caio Prado Junior coloca a seguinte questão. “Por que os pobres são pobres no Brasil?” Resposta do autor, “são pobres por que seu entorno é pobre. Seus amigos são pobres, estes só podem disponibilizar aos amigos oportunidades de trabalho de baixa remuneração. Ou seja, cria-se um ciclo vicioso da pobreza”. O inverso é verdadeiro. Para os ricos se cria um circulo virtuoso da riqueza. Como quebrar o circulo vicioso da pobreza? Através do oferecimento de educação de qualidade e de forma igual.

Onde entra a questão da educação superior colocada no título? No Brasil ela é gratuita e seu acesso é feito por uma prova que todos concorrem. Aqueles que obtém educação básica melhor, tem maior probabilidade de entrar nas universidades públicas. Resultado, a educação superior magnifica a desigualdade de renda, reforça o ciclo vicioso da pobreza. Isto é uma incrível contradição. A esquerda que tenta combater a desigualdade, ao defender a gratuidade das universidades públicas está justamente fazendo o contrário, ou seja, alimentando a usina de desigualdades que é a sociedade brasileira.

Paulo Amilton Maia Leite Filho

ARMANDO AVENA: GUEDES E O EMPRESÁRIO INEFICIENTE
ARMANDO AVENA:                                                                                                                                                           GUEDES E O EMPRESÁRIO INEFICIENTE

Se o leitor entrar em uma loja em Pequim ou Nova York não precisará falar inglês ou mandarim para comprar o que quiser, desde que tenha dinheiro no bolso ou um cartão de crédito internacional. No Brasil, é diferente.  Aqui o cliente terá de preencher um cadastro, dizer o número do CPF, deixar seu e-mail e por aí vai. A estrutura montada para dar conta dessa burocracia custa dinheiro e assim  o empresário cobra mais caro pelo produto e fica menos competitivo ou então faz algum tipo de acordo com o governo, com a indústria ou com os fornecedores. No Brasil, seja qual for o setor de atividade, mais cedo ou mais tarde  se forma uma associação, um sindicato, uma cooperativa empresarial cujo objetivo é sempre intermediar benefícios junto ao poder público e as vezes coisa pior, como equalizar preços num cartel, criar uma casta de dirigentes ou dar propinas a políticos para garantir benefícios públicos.

Em Nova York, seja o cliente baiano ou norte-americano, ninguém vai lhe pedir o CPF ou qualquer documento,  afinal o imposto é cobrado na hora da compra, eliminando a sonegação.  E esse tipo de burocracia anticapitalista não é um apanágio do Estado, no Brasil ela está impregnada em toda a parte, inclusive no setor privado. A burocracia está nos prédios comerciais (onde para entrar é preciso cadastro e fotografia); nos bancos (que exigem tokens  e impõem limites ao saque do dinheiro alheio), nas farmácias, nas lojas (com seus carnês e cartões financeiros) e tudo isso custa caro e reduz a eficiência das empresas e do sistema. O fato é que a alta carga tributária no Brasil, tão conjurada pelos empresários, é compensada por vários tipos de subsídios e isenções, por Refis anuais que tornam vantajosa a sonegação, por regras e repartições públicas que impedem a competição no mercado e que permitem acordos empresariais que, estabelecendo cartéis ou oligopólios, impedem o mercado de agir.

Na verdade, o Brasil não é um país capitalista, é um país patrimonialista no sentido de que tudo gira em torno do Estado e, muitas vezes,  estabelece-se um conluio entre políticos, empresários e a máquina pública. Mas a maioria dos empresários não está envolvida nisso e assim alguns ganham e todos perdem. É esse sistema que  Paulo Guedes, o ministro da Economia do Presidente eleito Jair Bolsonaro, pretende mudar. Se conseguir esse feito, Bolsonaro entrará para a história como o presidente que fez do Brasil um país capitalista.

                                           O PODER DOS SÍNDICOS

A nova lei que permitiu agilizar na Justiça a cobrança das taxas de condomínios atrasadas deu enorme poder aos síndicos. E poder no Brasil tende a redundar em exploração de muitos e benefícios para poucos. Dentre os e-mails que recebo sobre esse assunto, há duas queixas: fundo de reserva excessivo e excesso de obras. A manutenção de elevados fundos de reservas no atual quadro econômico, em que a rentabilidade das aplicações financeiras é baixíssima, é irracional. Só beneficia o banco que recebe as aplicações. Já o excesso de obras, ou a realização de obras supérfluas, também pode gerar benefícios para alguns e prejuízo para muitos. Os síndicos afirmam que tudo se resolve nas Assembleias, mas são poucos os que participam delas e ninguém é obrigado a fazê-lo. Frente a esse quadro, aumenta a responsabilidade do Conselho Fiscal e os condôminos tem de exigir da administração a publicação num portal de Transparência de todas as suas transações e o nome dos fornecedores. Cabe a sugestão para que algum vereador  ou deputado transforme a transparência em lei.

                                                    BOLSONARO E AS BANCADAS

Nenhum governo se mantém sem ter maioria no Congresso Nacional. Essa maioria pode ser feita de várias maneiras e o Presidente Jair Bolsonaro já disse que vai fugir do  “toma lá dá cá”,  tradicional no chamado presidencialismo de coalizão. Até aí tudo bem, o problema é saber se será possível governar sem coalizão ou com uma coalizão pontual. Isso porque, as negociações com as bancadas temáticas podem até viabilizar essa coalizão, mas em temas específicos, nos temas gerais, como previdência, segurança, etc, elas se dividem. O que provavelmente vai acontecer a partir de fevereiro será a tentativa de Bolsonaro de viabilizar uma maioria multipartidária, sem o “toma lá dá cá” anterior. Aí as lideranças partidárias que forem capazes de viabilizar maioria através de negociação por meios lícitos vão se fortalecer. Mas haverá aquelas lideranças que vão tentar impor ao Presidente o sistema anterior. Em suma: em 2019, na política brasileira tudo pode acontecer, menos tédio.

                                      BAHIA: O PIB DO AGRONEGÓCIO

 Finalmente o PIB do Agronegócio baiano foi calculado pela Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia – SEI.  Antes  se calculava apenas o PIB da agropecuária que representa apenas de 7% do total, o que não dá a exata medida da importância do setor. Em 2017, o PIB do Agronegócio foi de R$ 60.7 bilhões, representando 23,5% do PIB total da Bahia.  E entre 2012 e 2017,  o PIB do Agronegócio baiano ampliou-se em cerca de 50%.

                                    OS GARGALOS DO PIB

A economia baiana deve crescer 1,2% em 2018, percentual inferior a expectativa de crescimento da economia nacional. Esse resultado poderia ser maior, mas alguns setores estão puxando para trás a economia baiana. Um deles é a construção civil, que caiu 4,5% entre janeiro e setembro deste ano. Outros dois setores com problemas são a indústria extrativa mineral e a indústria de transformação. Ambos estão com produção em queda fundamentalmente por causa da Petrobras, já que a queda de produção de petróleo foi de 10% entre janeiro e setembro e a produção da Refinaria Landulpho Alves continua caindo.

                                           SALVADOR E O HOTEL FASANO

Nem só de más notícias vive o turismo baiano. O trade aplaude a inauguração do Hotel Fasano no Centro Histórico de Salvador. A área, que já tem no Fera Palace Hotel um símbolo de boa hotelaria, tende a se consolidar como área turística de excelência a medida que avança o processo de revitalização do Centro Histórico.  É fundamental, no entanto, que a região, inclusive o Pelourinho, passe a ter um sistema de segurança pública que dê ao turista segurança para que ele possa transitar no local. Se isso acontecer, a movimentação no local pode aumentar e atrair novos empreendimentos.

                                            A FESTA JÁ COMEÇOU

Salvador é uma cidade em que festa e trabalho estão intimamente ligadas. Aqui a festa gera trabalho através da geração de empregos diretos e temporários, o aumento da ocupação hoteleira, a ampliação do comércio informal e por aí vai. No último dia 4 de dezembro começou o ciclo de festas populares e neste fim de semana tem o Festival de Verão que é uma espécie de abertura do ciclo de festas privadas. É bom para o turismo, é bom para o emprego, é bom para a economia baiana.

WILSON F. MENEZES: A DESTRUIÇÃO DO PENSAR E A DESOLAÇÃO DO CURSO ECONOMIA DA UFBA
WILSON F. MENEZES: A DESTRUIÇÃO DO PENSAR E A DESOLAÇÃO DO CURSO ECONOMIA DA UFBA

A quem serve o “livre” pensar? Como ser livre se temos que obedecer a um currículo previamente estabelecido? Um curso universitário não pode deixar de definir as identidades das disciplinas oferecidas, bem como o sentido de composição e sequência das mesmas, tendo em vista uma finalidade. O ensino universitário deve ter como objetivo a capacitação de pessoas para melhor atuar profissionalmente e induzir o país à novos horizontes em termos de desenvolvimento econômico e elevação do bem-estar de seu povo. No âmbito da ciência, isso requer uma intermediação das teorias, sempre de maneira contestável. No campo da economia são as teorias econômicas. Inovações nessa área requerem enorme esforço, mas também grande conhecimento do já existente, até mesmo para distinguir o que é e o que não é novo, caso contrário corre-se o risco de inventar a roda. Uma rápida comparação entre os currículos de três universidades chinesas, escolhidas propositalmente, com o do curso de economia da UFBa certamente auxiliará a mostrar a anomalia desse último.
A Peking University oferece um currículo muito quantitativo. Para segui-lo, exige-se um nível muito alto em habilidades matemáticas. Esse curso oferece as disciplinas de Macroeconomia Avançada, Microeconomia Avançada e Econometria Aplicada, de maneira que o programa prepara os alunos para uma solida carreira de economista, a ser exercida em empresas, setor público, instituições financeiras, bancos centrais, organizações nacionais e internacionais, além da pesquisa acadêmica.
A China University of Petroleum oferece um curso de Economia Industrial onde se aplica o conhecimento da teoria econômica e da econometria para abordar questões práticas. Mediante a diminuição do patamar de abstração da teoria econômica para abordar uma variedade de problemas do mundo real, busca-se o instrumental dos métodos quantitativos, juntamente com o auxílio de estudos de caso e analogias históricas, para analisar os mais variados problemas econômicos. O curso leva o “mercado às empresas”, ou seja, analisa as empresas e suas formas de atuação nas diferentes estruturas de mercado. Isso é realizado com base na Microeconomia e suas aplicações práticas.
A Shandong University, uma das maiores escolas de economia da China, abrange cinco departamentos: 1) Economia, 2) Finanças, 3) Finanças Públicas, 4) Economia Internacional e Comércio Exterior, 5) Gestão de Riscos e de Seguros. Esse centro de pesquisa oferece uma variedade de programas com forte integração entre o ensino e o exercício profissional. Encontram-se aí sete programas de doutorado, 12 cursos de mestrado e 6 cursos de graduação. O ensino busca, antes de tudo, treinar talentos para a Matemática Financeira e Engenharia Financeira.
Vejamos o contraste com a Faculdade de Economia da UFBa, onde são oferecidas três disciplinas de Economia Marxista, um curso de História do Pensamento Econômico (com ênfase em Marx), uma Evolução do Capitalismo (por que Hobsbawn e não Alfred Chandler?). Um curso de Introdução à Economia, onde se faz mais um proselitismo marxista, ao invés de iniciar o aluno nas abordagens micro e macro. Ademais, uma “mão invisível” (noturna) colocou História do Pensamento Econômico como pré-requisito de Microeconomia. A Economia do Setor Público somente pode ser vista após cursar Teoria Macroeconômica III, quando no mundo inteiro a abordagem é microeconômica com o estudo dos bens públicos e dos paradoxos da escolha pública. Isso tudo é muito “revolucionário”, somos os únicos a cometer tal cavalgadura, ou seja, fazemos aquilo que a China (Socialista) recusa. Como se não bastasse, inventou-se a “pomposa” disciplina (não existente nos currículos da graduação e pós) para concurso público: “Economia Política, Estruturas Produtivas, Comerciais e Financeiras do Capitalismo Recente”. Vozes discordantes dizem: a utilidade dessa gerigonça é “aparelhar”.
Não adianta oferecer cursos que incorporem o estudo das incertezas; as estruturas de mercado utilizando do instrumental da teoria dos jogos; estudar a burocracia com base na teoria da escolha pública ou mesmo apresentar a abordagem da Escola Austríaca. Quem sai da cartilha é “Neoclássico”, dentre outros impropérios. Isso porque “tudo isso é bobagem e não serve para nada”. Microeconomia nem pensar, Econometria é o assassinato da razão. Estudo das Séries Temporais e Econometria Espacial é coisa de imperialista de olho em nossas riquezas.
A China da Revolução Cultural condenou os pássaros à morte, alegando que os mesmos comiam o arroz, provocando a diminuição de sua produção. Nas colheitas subsequentes, no entanto, o quantitativo desse cereal desabou. Descobriram então que os pássaros, além do arroz, comiam também os insetos e larvas, os quais floresceram em consequência da impiedosa caça. Acho que a Matemática, a Econometria e, sobretudo, a Microeconomia são os pássaros da Faculdade de Economia da UFBa. Descreva-me suas liturgias e adivinharei o verdadeiro sentido de sua heresia heterodoxa, certamente rumo ao atraso intelectual ainda que travestido de “progressismo”.

* Professor Titular da Faculdade de Economia da UFBa, Doutor em Economia pela Universidade de Paris I (Panthéon-Sorbonne), Pós-doutor pela Universidade de Paris XIII (Villetaneuse).