REJANE G. CARVALHO: CONFIGURAÇÃO DO EMPREGO NA PARAÍBA NO CONTEXTO DIGITAL
REJANE G. CARVALHO: CONFIGURAÇÃO DO EMPREGO NA PARAÍBA NO CONTEXTO DIGITAL

As condições de absorção da força de trabalho vêm apresentando sensíveis mudanças com a ampliação das novas tecnologias da informação em todos setores produtivos, de modo a exigir trabalhadores mais qualificados e flexíveis, não só quanto às relações formais, mas especialmente na descoberta de novas ocupações que podem estar relacionadas ao mundo dos serviços e até contemplar o trabalho autônomo ou a informalidade. Neste contexto, deve-se estar atento para a configuração da economia regional e local, buscando entender como a força de trabalho está inserida e suas fragilidades.

            No Nordeste, de acordo com os dados da PNAD Contínua Trimestral do IBGE, em 2018, cerca de 41% dos trabalhadores encontravam-se ocupados no setor privado. Os estados de Pernambuco (44,67%), Rio Grande do Norte (43,90%), Ceará (43,40%) e Bahia (43,17%), destacaram-se com participações acima da média regional. Contudo, entre 2016 e 2018, foi registrada queda no pessoal ocupado no setor privado para alguns estados, possivelmente devido aos efeitos da crise econômica que tem provocado o aumento das desinserções. No caso do estado da Paraíba, as ocupações no setor privado passaram de 42% para 39,53% no período considerado. Quando se observa os vínculos empregatícios dos paraibanos, a participação das pessoas ocupadas com carteira de trabalho assinada sofreu retração de 24,13% para 22% da força de trabalho empregada no mesmo intervalo de tempo, sendo o terceiro menor percentual entre os estados nordestinos em 2018. Já os ocupados sem carteira de trabalho assinada representam 17%, sem grandes alterações nos últimos três anos, mas sendo o terceiro maior entre os demais estados.

            Na configuração recente do mercado de trabalho, também é relevante destacar a proporção de trabalhadores por conta própria, muitos dos quais não contribuem com a previdência social. Para o Nordeste essa categoria de trabalhadores registrou queda de 2,3 pontos percentuais entre 2016 e 2018, alcançando média de 28,68% da força de trabalho ocupada no último ano. Por outro lado, somente os estados da Paraíba e o Piauí apresentaram aumento do trabalho por conta própria no período. Ainda em 2018, quase 49% da força de trabalho ocupada contribuía com a previdência oficial no Nordeste, enquanto mais de 51% não realizava tal contribuição, o que se deve ao grande número de pessoas em atividades informais, por conta própria e com baixos rendimentos, expondo uma situação estrutural do mercado de trabalho. No tocante ao estado da Paraíba, foi registrado cerca de 50% de contribuintes, enquanto os não contribuintes alcançaram 49,8%, aumento de quase 1 ponto percentual para este último indicador entre 2016 e 2018. Com exceção da Bahia, os demais estados nordestinos apresentaram queda na participação das pessoas ocupadas que contribuem com a previdência, o que pode indicar mais uma consequência da crise sobre o mercado de trabalho.

            No tocante aos rendimentos recebidos no trabalho principal, os maiores valores foram observados para o estado de Pernambuco, com R$ 1.623,67 em 2018, seguido por Sergipe, Bahia e Ceará. O estado da Paraíba exibiu rendimento médio de R$ 1.514,67. Considerando os trabalhadores do setor privado que expressam cerca de 40% da força de trabalho ocupada, os maiores rendimentos encontram-se entre os que têm carteira de trabalho assinada (R$ 1.475,67), ou cerca de 1,5 salário mínimo, configurando baixo rendimento. Por outro lado, as menores remunerações do trabalho são recebidas pelos trabalhadores domésticos sem carteira assinada (R$ 456,33) e os que realizam atividades por conta própria (R$ 890,00), abaixo do salário mínimo.

            Para o desenvolvimento sustentável do estado não interessa a manutenção de ocupações que reproduzem informalidade e baixos rendimentos. No momento em que se assiste à adaptação dos trabalhadores às novas modalidades de empregabilidade em todos os setores é possível que surjam abalos sobre a economia local. Por isso, é importante entender a dinâmica do mercado de trabalho e as condições conjunturais da economia para criar possibilidades reais de inserção social pelo trabalho, o que significa contemplar a formação e qualificação profissional, a diversificação das atividades produtivas para a geração de ocupações sustentáveis, assim como a elevação do rendimento médio do trabalho, o que poderia promover melhoria da qualidade de vida. Caso a inserção pelo trabalho ocorra por ocupações informais, precárias e com baixos rendimentos, as condições de pobreza tendem a continuar como as marcas de uma economia subdesenvolvida.

 

*Professora Adjunta do Departamento de Economia/UFPB. Doutora em Sociologia do Trabalho/PPGS/UFPB. Realiza pesquisas sobre mercado de trabalho, políticas públicas e economia paraibana.

 

JOSÉ MACIEL : A AGROPECUÁRIA  NO  NOVO  GOVERNO: EMBATES E INSPEÇÃO SANITÁRIA
JOSÉ MACIEL : A AGROPECUÁRIA  NO  NOVO  GOVERNO: EMBATES E INSPEÇÃO SANITÁRIA

Enquanto o Ministério da Economia e a equipe econômica colocam o “bloco na rua” com o lançamento  da proposta de Reforma da Previdência, pouco se sabe ainda sobre as propostas iniciais que os demais ministérios estão preparando para “entrar na avenida”.
No que diz respeito ao Ministério da Agricultura, as notícias que chegam dão conta de “ruídos” entre a a Ministra  Tereza Cistina e o Ministro Paulo Guedes por conta da remoção de barreiras  antidumping   ao setor lácteo  neozelandês  por parte do do Ministro da Economia, o que teria motivado reação da Ministra e pronta determinação do Presidente da República no sentido de imediata  compensação ao setor agropecuário. Ainda neste front, os setores ruralistas parecem inconformados com   a pretendida redução de subsídios ao crédito rural  já no próximo Plano Safra, 2019/2020. A receita liberal do ministro  é conhecida, mas , na verdade , a agropecuária brasileira é muito  competitiva, e, ressalte-se, com “grau” de subsídio muito pequeno, como veremos logo adiante. Portanto, Ministro Paulo Guedes, não vá por aí e não penalize o setor mais competitivo da economia nacional, responsável pela salvação da nossa balança comercial.
Vamos aos subsídios.
A OCDE- Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico tem realizado periodicamente estudos a respeito. Dados desta entidade revelam quem, em 2013, os agricultores de  países desenvolvidos  receberam subsídios da ordem de 258 bilhões de dólares. Na média, 18%  da renda dos agricultores  das nações desenvolvidas é proveniente desses subsídios. Em alguns países, esse apoio chega a 65% da renda.  No Nova Zelândia, Austrália e Chile, esse apoio não passa de 3% da renda total. No Brasil , o apoio está ao redor de 4%.  Nos EUA e União Europeia , os números corresponderiam a 8% a  8% e 19%, respectivamente.  Portanto, os agropecuaristas nacionais são muito eficientes  no plano internacional. E com pouquíssimo apoio da política oficial.
Em termos de instrumentos de políticas, o crédito rural hoje tem, em alguns casos,  juros acima da taxa básica  da economia e da inflação. Por conseguinte, o ciclo de crédito rural altamente subsidiado  já   acabou e já faz tempo. As políticas   de preços de garantia têm sido desmobilizadas progressivamente e o seguro rural, que tem parte da alíquota dos prêmios subvencionada pelo orçamento federal, cobre algo como apenas 10% da área agricultada no Brasil, ante mais de 90% da produção segurada nos  EUA. Os números mostram , portanto, que a equipe econômica deve moderar sua pretensões de redução do apoio  à nossa agropecuária.
Do lado do  Ministério da Agricultura, sabe-se que a Ministra da Agricultura quer implantar o mecanismo do “autocontrole ” nas inspeções sanitárias nas agroindústrias, inclusive frigoríficos. Voltaremos a
este teme em breve, mas vamos deixar um alerta. No que toca  aos mercados internacionais , o recado é claro: o mercado “cobra a presença física e diária, nos frigoríficos, de um auditor sanitário ligado   ao Poder Público”. Essa frase é atribuída ao ex- Ministro Blairo Maggi. Ou seja, Ministra Tereza Cristina , deixa essa proposta para mais adiante. Qualquer vacilo, depois da “Operação Carne Fraca”, pode  contaminar a imagem  e a credibilidade de nosso sistema de inspeção sanitária, com repercussões graves nas nossas exportações de carnes. Voltaremos ao tema oportunamente.
José Masciel
Consultor Legislativo e doutor em Economia pela USP. E-mail: jose.macielsantos@hotmail.com
COLUNA NO CORREIO : A PONTE SALVADOR ITAPARICA
COLUNA NO CORREIO : A PONTE SALVADOR ITAPARICA

Diferente do que possa parecer, sempre fui a favor da construção da ponte Salvador-Itaparica, mas sempre pontuei que uma obra dessa natureza não se viabiliza  apenas com pedágio ou com recursos privados. Por isso, registrei muitas vezes nesta coluna que a construção da ponte só seria possível com um aporte financeiro do poder público. Agora surgiu um fato novo, pouco destacado pela imprensa: o governo do Estado vai bancar cerca de 25% do projeto e injetar R$ 1,2 bilhão na obra, compondo assim uma engenharia financeira factível que torna possível e até provável que algumas empresas, especialmente as chinesas que têm expertise no setor, participem do leilão de concessão da obra.

Sendo assim, não há como não apoiar o projeto, afinal, Salvador é uma península, que possui apenas duas saídas terrestres pela BR-324 e pela Linha Verde, e sob o ponto de vista econômico uma terceira via integrando o baixo sul, o recôncavo baiano e a região oeste seria importante para a base produtiva estadual e para o sistema de transportes. E, diferente dos puristas, não acho que a ponte será uma agressão à paisagem, pelo contrário, vai embelezar a maravilhosa vista da Baía de Todos-os-Santos.

Nesse sentido, aplaudo os esforços que o governo do Estado e o incansável vice-governador João Leão, que coordena o projeto, vêm fazendo para sua construção, já estando previsto, inclusive, a audiência pública sobre o projeto marcada para março próximo e o leilão para sua concessão  no segundo semestre. Sem dúvida, o aporte de recursos por parte do governo surpreendeu, frente grave situação fiscal que atravessa, mas  o pulo do gato foi colocar no edital que essa participação financeira se dará através de duas tranches de recursos, uma de R$ 660 milhões e outra de R$ 540 milhões, mas apenas no quarto e quinto ano de construção respectivamente, o que significa  que o responsável pelos aportes não será o governo atual, mas o sucessor do governador Rui Costa.

Se as empresas aceitarem terá sido uma boa jogada, afinal, a expectativa no país é de retomada do crescimento econômico e o governo atual poderá  fazer a provisão de recursos necessária. Falta esclarecer apenas se a PPP prevê outro tipo de participação financeira do poder público, mensais ou anuais, e se haverá recursos públicos compensatórios  no caso da operação da ponte dar prejuízo, o que, provavelmente, será explicitado no edital.

Uma engenharia financeira equacionada é um dos pilares da obra, mas é fundamental também que o segundo pilar esteja de pé. Ou seja,  que a construção da ponte seja bem planejada, com cada etapa sendo objeto de cronogramas e recursos definidos, para que não haja atrasos como soe ocorrer em projetos desse porte, afinal, ninguém quer uma ponte inacabada, ou uma série de colunas sem uso espalhadas no meio da Baía de Todos-os-Santos.

O governo do Estado tem, no entanto, demonstrado experiência em  projetos dessa magnitude e a construção e operação do metrô de Salvador demonstra que é possível fazer a obra em tempo hábil e sem interrupções. O fato é que ao aportar R$ 1,2 bilhão na obra – um passo de gigante para um estado com poucos recursos – a construção da ponte ficou mais factível.

O GOVERNO COMECOU!

O governo Bolsonaro começou efetivamente esta semana com a entrega da proposta de reforma da Previdência e do projeto anticrime ao Congresso Nacional.  A proposta do governo Bolsonaro para a Previdência foi bem mais ampla e estruturada do que o remendo proposto por Michel Temer e traz um aspecto novo e importante: a diferenciação de alíquotas, que faz com que quem ganha mais tenha um desconto maior. Vale lembrar que em termos financeiros a reforma da Previdência não muda muita coisa no curto prazo, seus efeitos se darão no médio e longo prazo. A reforma vai gerar nos 4 anos do governo Bolsonaro uma economia de cerca de R$ 161 bilhões, um pouco mais que o déficit anual das contas públicas brasileiras. Mas o importante é o sinal que ela passa, indicando ao mercado e à população que o setor público vai cortar seus gastos, e que vale a pena investir num país que está resolvendo seu gargalo fiscal.

 OS NÚMEROS DO CARNAVAL

Indagam-me sobre os números do Carnaval. Aviso que, quando se trata de Carnaval, as estatísticas dançam.  Isso porque não existem estatísticas oficiais sobre o impacto econômico da festa. O Rio de Janeiro, por exemplo, está anunciando que a movimentação financeira do Carnaval de 2019 será de R$ 6,7 bilhões.   Em Salvador,  a expectativa é de uma movimentação da ordem de R$ 1,8 bilhão. Ambos são números aproximados, pois trabalham com médias, a exemplo do  gasto médio de um turista  estrangeiro e de outros estados e fluxo de turistas estimado, inclusive aqueles vindo do interior do estado. Mas esses números não têm muita importância, são apenas balizadores, o que importa mesmo é a taxa média de ocupação hoteleira que atinge quase 100%, os milhares de empregos criados, os serviços se multiplicando, bares e restaurantes cheios, o aeroporto a mil  e a cidade lotada de gente.

50 DIAS DE GOVERNO

Nos primeiros 50 dias do governo Bolsonaro houve equívocos e trapalhadas de todo tipo. Desde o  lançamento açodado e sem a presença do presidente de um plano de cem dias,  sem efetividade até o momento,  até a briga de foice travada entre o filho do presidente e o ex-ministro Gustavo Bebianno que transformou uma querela familiar em uma questão de Estado. Nesse período, Bolsonaro deve ter compreendido que no regime presidencialista ministro é demissível “ad nutum”, ou seja, a qualquer hora, por qualquer motivo e sem explicações. Não fazia sentido, portanto, que nas conversas com o ex-ministro, ele se empenhasse tanto em encontrar motivos para uma demissão que já estava decidida.

O capitão  também deve ter percebido que jamais deve usar o WhatsApp, seja em texto ou voz, para discutir questões estratégicas ou políticas e que há uma liturgia do cargo, por isso não pode deixar-se fotografar no palácio de governo, presidindo uma reunião ministerial, de chinelos, moletom e com uma camisa de time de futebol falsificada, pois isso passa a impressão de que ele discute os graves problemas do país como se estivesse discutindo futebol. Deve ter aprendido também que  misturar família e política não dá coisa boa, seja nas questões de Estado ou nas redes sociais. Se aprendeu, o país pode voltar-se para os seus verdadeiros problemas. Se não…

CONSELHOS PROFISSIONAIS

O governo federal, que suprimiu a obrigatoriedade dos trabalhadores pagarem mensalidades aos seus sindicatos, não cortou na própria carne e os profissionais liberais continuam obrigados a pagar mensalidades exorbitantes a  autarquias federais, ditas Conselhos de Profissionais que, sob pretexto de fiscalizar profissionais liberais, mantêm enormes estruturas burocráticas e sem função.

WILSON F. MENEZES: AINDA SOBRE A REFORMA DA PREVIDÊNCIA SOCIAL
WILSON F. MENEZES: AINDA SOBRE A REFORMA DA PREVIDÊNCIA SOCIAL

Em artigo anterior fizemos uma apresentação dos dois tipos de previdência: repartição e capitalização. O sistema de repartição é alimentado por um fundo de cotizações, utilizado para pagar as aposentadorias e pensões no mesmo momento do tempo. Significa dizer que a geração contribuinte da previdência hoje cobre as aposentadorias e demais benefícios dos que contribuíram no passado; por isso esse sistema é considerado como intergeracional. O sistema de capitalização, por seu turno, é alimentado por um fundo pago pelos trabalhadores nas ocupações vivenciadas ao longo de suas respectivas vidas profissionais, ou seja, eles praticamente se autofinanciam, de maneira que se pode dizer que cada geração paga sua própria aposentadoria. Durante o tempo de contribuição, os recursos desse sistema formam um fundo financeiro disponível para investimentos nas mais variadas áreas econômicas, daí a alegria dos mercados. Diferenciar os dois sistemas de previdência social é, portanto, muito importante para que se possa fazer uma boa avaliação da reforma ora em curso.

O sistema previdenciário brasileiro, além das aposentadorias, incorpora outros tantos programas: aposentadoria por invalidez, pensão para dependentes e aposentadoria rural são os principais. Esses programas deixam de contribuir precocemente, contribuem muito pouco ou nada contribuem, de maneira que formam verdadeiras fontes de desequilíbrio atuarial e proporcionam mudanças significativas no processo distributivo da renda. Não obstante, o principal motivo que exige uma reforma da previdência brasileira é sem dúvida o envelhecimento populacional. Não somos mais um país de jovens e viver mais constitui um grande problema para os regimes previdenciários, daí a necessidade de aumentar a idade para se ter direito a uma aposentadoria, exatamente porque eleva o tempo de contribuição da população ocupada, tal como vem acontecendo em outros países. Outros instrumentos ainda podem ser utilizados, tais como diminuir o ajuste anual para correção do processo inflacionário, modificar a maneira de cálculo para efeito de estimar o valor do benefício, elevar o valor das contribuições dos trabalhadores ou mesmo aumentar a alíquota referente à contribuição das empresas.

No Brasil temos dois grandes regimes previdenciários, o Regime Geral de Previdência Social (RGPS) que incorpora os trabalhadores do setor privado urbano e rural, e o Regime Próprio de Previdência Social (RPPS) que incorpora os funcionários públicos estatutários vinculados ao Regime Jurídico Único (RJU). Esses regimes apresentam características bastante diferenciadas, sobretudo aquelas relativas ao processo distributivo da renda, quando se sabe que os valores dos benefícios médios são muito diferenciados entre os dois regimes, além das grandes diferenças no interior mesmo do RPPS quando observada sua composição. Os benefícios médios dos trabalhadores vinculados ao Ministério Público da União, ao judiciário, ao legislativo, à área militar e ao poder executivo apresentam diferenças enormes, além de serem pagos em conformidade com os rendimentos dos respectivos ativos, quando o RGPS estabelece um teto para o valor do benefício. Some-se a isso o elevado grau de informalidade do mercado de trabalho brasileiro. Sabe-se que praticamente metade dos trabalhadores urbanos não contribuem para a previdência e apenas 10% dos trabalhadores rurais o fazem. Uma ideia da reforma proposta é transformar esses dois regimes em apenas um, motivo pelo qual necessariamente coloca importantes pontos de resistência social e política.

Com respeito ao novo sistema que se pretende implantar no país, tem-se focado muito na economia de um trilhão de reais a ser alcançada em 10 anos, fala-se também na idade mínima de aposentadoria, 65 anos para os homens e 62 anos para as mulheres. Assim homens e mulheres com pelo menos 30 anos de contribuição estarão aptos a receber benefícios das aposentadorias em idades distintas. Entre o maior e o menor benefício, algumas regras têm sido discutidas. Nesse instante, um sistema de pontuação, formado pela soma da idade mais o tempo de contribuição, pode ser utilizado. Vale ressaltar que qualquer que seja a idade mínima para homens e mulheres, sempre haverá uma injustiça implícita que teremos de conviver e aceitar, observem que as mulheres vivem, em média, mais que os homens, no entanto estarão mais cedo aptas a aposentadoria, logo durante mais tempo serão agraciadas com os benefícios previdenciários. Mas, infelizmente, ainda não foi inventado um sistema 100% justo, mesmo porque não existe um único conceito de justiça social, o que torna essa discussão bastante controversa e, porque não dizer, irrelevante.

Não se pode esquecer, no entanto, que o sistema de capitalização é muito mais vulnerável às oscilações conjunturais da economia e ninguém fica totalmente imune a elas. O ciclo econômico costuma ser implacável para todos, diferenciadamente é claro. A transição de um a outro sistema necessariamente introduz um risco adicional, na medida em que durante um espaço de tempo os dois sistemas têm que necessariamente conviver, daí a necessidade de regras de transição bem definidas e socialmente suportáveis para minimizar esse risco. Os entrantes no mercado de trabalho serão conduzidos pelo novo sistema, logo não terão nenhum problema de adaptação. Os que já se encontram no mercado de trabalho estarão vinculados aos dois sistemas, de maneira que enfrentarão uma transição com mais dúvidas quanto ao futuro. Enquanto que os que já saíram do mercado de trabalho esperam uma garantia de que seus benefícios respeitem as regras de quando foram aposentados.

O período de transição requer recursos financeiros de outras fontes que não a contribuição previdenciária. A grande questão é saber como essa festa será paga. Impostos ou dívida pública? Geração presente ou geração futura? Que o tempo de morte de um sistema e nascimento do novo não se traduza em miséria material, sobretudo para os já aposentados. O tempo de transição proposto é de 10 anos para os homens e 12 anos para as mulheres. É suficiente? É muito difícil obter uma resposta a essa questão, isso porque não sabemos quais serão as condições econômicas conjunturais no futuro. Esperemos as melhores: crescimento econômico, aumento da produtividade do trabalho, avanço tecnológico (sobretudo na indústria), maior competitividade internacional, aumento de riqueza e muita benevolência. Bolas de cristal não costumam funcionar nessas horas.

AGRONEGÓCIO BRASILEIRO EM ALERTA COM OS ACORDOS E CONFLITOS COMERCIAIS
AGRONEGÓCIO BRASILEIRO EM ALERTA COM OS ACORDOS E CONFLITOS COMERCIAIS

No atual cenário internacional, com a globalização sendo fortemente questionada e barreiras ao livre comércio sendo levantadas por diversos países, as incertezas no comércio mundial estão se tornando cada vez maiores, desafiando os líderes de empresas a adaptarem suas estratégias. Segundo a Organização Mundial do Comércio (OMC), o período entre maio e outubro de 2018 registrou recorde no número de medidas protecionistas adotadas pelas maiores economias do mundo (G20) desde 2012, atingindo um comércio equivalente a US$ 481 bilhões. Além disso, de acordo com a 21ª Pesquisa Anual Global com CEOs da PwC, entre 2017 e 2018, enquanto o excesso regulatório permaneceu como a principal preocupação dos CEOs, a preocupação com incertezas geopolíticas subiu da quinta para a terceira posição.

Para o agronegócio brasileiro, estes movimentos protecionistas igualmente são preocupantes. Diversos produtos brasileiros são bastante competitivos no mercado internacional, levando determinados países a impor barreiras ou sobretaxar às exportações das commodities agrícolas brasileiras. A guerra comercial entre os Estados Unidos (EUA) e China, principal conflito comercial desencadeado em 2018, causou muitos impactos. A China é o principal destino das exportações agrícolas brasileiras, respondendo por cerca de 30% das exportações em 2017, segundo dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC). Os EUA, além de ser o terceiro principal destino, é um importante competidor do agronegócio brasileiro nas cadeias de soja, algodão e proteína animal.

No caso da soja, com a tributação da oleaginosa americana em 25%, os asiáticos, maiores consumidores e importadores mundiais, recorreram ao Brasil para comprar a commodity, valorizando o preço e aumentando as exportações. Segundo dados do MDIC, no acumulado de julho a outubro o faturamento com a exportação do produto aumentou 62%, em relação a 2017. O cenário positivo também estimulou o aumento da área plantada de soja e as incertezas do mercado anteciparam a comercialização da safra 2018/19. De acordo com a Companhia Nacional de abastecimento (Conab), a área plantada da safra atual pode chegar a 36,1 milhões de hectares, aumento de 2,8% em relação ao ciclo anterior. Segundo a consultoria Datagro, até a primeira semana de dezembro, mais de 30% da safra já havia sido comercializada, valor superior aos 26% registrados no mesmo período de 2017. O melhor resultado das exportações e a expansão do cultivo fomentaram o otimismo do setor em relação à próxima safra.

Reflexos comerciais também foram sentidos no algodão. No comparativo entre as safras 2017/18 e 2018/19, com o aumento de área plantada podendo chegar a 21,4%, a produção de algodão em pluma pode atingir 2,3 milhões de toneladas, crescimento de 16,5%, de acordo com dados da Conab. O incremento na produção prevista para o Brasil já reflete na expectativa de exportação da pluma para 2019. A Associação Nacional dos Exportadores de Algodão (Anea) estima ao menos 1,7 milhão de toneladas de pluma para 2019. Isso é reflexo dos bons resultados na comercialização da safra 2017/18 e das boas perspectivas futuras de mercado para o produto brasileiro pois, além da perspectiva de déficit na produção mundial, também pode haver a possibilidade do mesmo se beneficiar do conflito comercial entre o principal exportador da pluma de algodão, EUA, e o maior consumidor, China.

ADARY OLIVEIRA: PUXANDO FUNCIONA, EMPURRANDO NEM SEMPRE
ADARY OLIVEIRA: PUXANDO FUNCIONA, EMPURRANDO NEM SEMPRE

A integração das cadeias produtivas além de aumentar a atividade econômica faz crescer o valor agregado dos produtos majorando substancialmente o número de empregos gerados, o volume de tributos arrecadados e a riqueza como um todo. É algo sempre perseguido e desejável quando se pretende promover o desenvolvimento através da industrialização ou mesmo da prestação de serviços de engenharia ou outro qualquer.

A indústria têxtil é um exemplo de cadeia produtiva das mais longas indo desde a produção dos insumos básicos e matérias primas, passando pelos bens intermediários, fabricação de fios e tecidos e do amplo e diversificado segmento de confecções e moda, todos eles com sistemas próprios de transporte e armazenagem em cada uma das fases intermediárias.

O Polo Industrial de Camaçari foi o único lugar do Brasil que partindo da fabricação dos insumos básicos sintetizava os principais bens intermediários da indústria têxtil. Na Nitrocarbono se fazia a caprolactama usada na produção do náilon (ou poliamida), material que se assemelha à seda. Na Pronor era manufaturado o dimetitereftalato (DMT) usado no fabrico do poliéster, concorrente do algodão. Na Acrinor, que continua funcionando, fabrica-se a acrilonitrila, produto intermediário para o fio acrílico, substituto da lã de carneiro. De quebra, na área agrícola, a Bahia se tornou o segundo maior produtor nacional de algodão. Entretanto, isso não foi suficiente para que os fabricantes de fios, tecidos e confecções, de valor adicionado dezenas de vezes superior ao náilon, ao poliéster, à acrilonitrila e ao algodão se sentissem atraídos para o Polo. Tal fato consagra a assertiva de que mais importante do que a disponibilidade da matéria prima é a acessibilidade aos mercados. O negócio da moda e de confecções é completamente diferente do da síntese industrial de insumos básicos e matérias primas.

No caso do granito e das rochas ornamentais, são encontradas na Bahia uma ampla diversidade desses minerais. O granito azul, o mais valorizado de todos, só é encontrado aqui no seu estado natural. Beneficiado em forma de placas, nas fachadas dos edifícios da região Sudeste e dos confins mais ricos do mundo. O comércio de peças decorativas de granito é comandado pelos tearistas da Itália e da China, donos de mais de 70% de seu uso no mercado mundial da construção civil. Ficamos com as exportações dos blocos de baixo valor adicionado.

Temos vários outros exemplos. A Bahia por muito tempo foi o maior produtor de cacau do mundo, mas nunca chegou a fabricar chocolates que pudessem ser comparados com os produzidos da Suíça. O Brasil é o maior exportador mundial de café em grãos e a Alemanha é o maior país exportador de café torrado, cinco vezes mais caro, sem ter em seu território um só pé de café plantado. Também não é fácil enfrentar a concorrência. Os melhores chocolates do mundo são fabricados com cacaus de sabores diferentes vindos de várias partes do planeta. Os torrefadores de café da Alemanha importam café de vários países e fazem blending de sabores os mais atraentes. Até os atacadistas e varejistas de peças de revestimentos usam granitos das mais diversas origens para cada tipo de aplicação.

Além da acessibilidade aos mercados, facilitador das vendas, é importante o uso de uma estratégia que procure oferecer aos consumidores os produtos que eles estão acostumados a comprar preferencialmente, sendo sempre mais fácil vender um bem de consumo conhecido do que um novo artigo, por ser carente de campanha de convencimento e de um bom e estruturado marketing. De qualquer maneira prevalece a regra gravitacional de que é mais fácil puxar do que empurrar. Neste caso o puxavanco é executado pelas forças de mercado, conhecidas mundialmente como obedientes à lei da oferta e da procura. Apenas dispor dos recursos materiais não faz a cadeia produtiva se integrar por si só, há de existir a força das vendas puxando na outra ponta.

Adary Oliveira é presidente da Associação Comercial da Bahia – adary347@gmail.com

WANDERLEYA FARIAS- A INDÚSTRIA REGIONAL EM TEMPOS DE CRISE
WANDERLEYA FARIAS- A INDÚSTRIA REGIONAL EM TEMPOS DE CRISE

A indústria ocupa um lugar de grande importância na dinâmica econômica. Os setores industriais mais complexos realizam investimentos constantes em pesquisa e desenvolvimento e têm um papel determinante nos fluxos intersetoriais de tecnologia. As inovações tecnológicas são transmitidas aos demais setores que as incorporam em novos produtos ou processos.

Em 2017, o PIB industrial do país chegou alcançar cerca de R$ 1,15 trilhão. Conforme a CNI – Confederação Nacional das Indústrias, em 2018, as exportações de industrializados alcançaram o valor de US$(FOB) 107,39 bilhões e representaram 48,8% das exportações brasileiras. Na fase atual, são mais de 472 mil estabelecimentos industriais em funcionamento em todo território nacional que empregam cerca de 9,3 milhões de pessoas.

A crise que atingiu a economia do país nos últimos anos causou impactos sobre o desempenho do setor industrial. Entre 2014/2016, a indústria apresentou declínio no uso de capacidade instalada. No entanto, a partir de 2017, diversos segmentos industriais voltaram a crescer. Segundo sondagem realizada pela CNI, três, em cada quatro grandes empresas industriais, (76%) investiram no Brasil no mencionado ano. Vários cenários são possíveis para 2019. No entanto, cabe lembrar que um dos aspectos intrínsecos à economia é seu movimento cíclico, a expectativa dos mercados é de que ocorra uma retomada da confiança quanto à expansão da produção e que novas inversões comecem a deslanchar em algumas regiões do país.

O PIB industrial do Nordeste, em 2016, segundo os dados das Contas Regionais do IBGE, chegou ao valor de R$ 154,5 bilhões. Em torno de 68,5% da produção industrial da região, no referido ano, estava espacialmente concentrada em apenas três estados. A Bahia teve uma participação percentual de (35,00%), Pernambuco(18,36%) e Ceará(15,13%). Com economias mais dinâmicas e com uma estrutura consolidada de pólos industriais em segmentos complexos da indústria de transformação e de serviços de utilidade pública industrial, esses estados mantém uma posição de liderança na indústria regional desde a década de 1970, quando foram realizados grande investimentos mediante os incentivos fiscais e financeiros da SUDENE.

Os estados do Piauí(3,04%) e Alagoas(3,59%) foram os que apresentaram as menores participações na geração de produtos industriais. O PIB industrial da Paraíba alcançou a sexta melhor colocação ( R$ 52,8 bilhões), essa produção representou 5,32% do PIB industrial regional em 2016.

Destaque-se que a Política Nacional de Desenvolvimento Regional (PNDR) e o Plano de Aceleração de Crescimento(PAC), adotados na segunda metade dos anos 2000, trouxeram bons ventos para a base industrial regional. O incentivo a ampliação do investimento público em infraestrutura energética (petróleo, gás e energia elétrica), infraestrutura social e urbana (habitação e saneamento), e infraestrutura logística (rodovias, ferrovias, portos e aeroportos) promoveu a realização de diversos projetos industriais nas áreas de construção civil, serviços de utilidade pública industrial e da indústria de transformação em unidades federativas da região.

A Bahia tinha um PIB industrial de R$ 54,08 bilhões em 2016, resultante da atividade de 16.856 estabelecimentos industriais que geravam em torno de 350.660 postos de trabalho. Os setores com mais peso na indústria baiana eram: construção civil(27,3%), derivados de petróleo e biocombustíveis(16,4%) e serviços de utilidade pública industrial(12,1%).

Os estados do Maranhão e Rio Grande do Norte ocupavam, respectivamente, as quarta e quinta colocação no ranking industrial da região Nordeste em 2016. Chama atenção que, mais uma vez, o setor da indústria que liderava a produção industrial nessas unidades federativas era o setor da construção civil,. No estado maranhense, esse peso era de (38%) e no Rio Grande do Norte(32,9%).

Na Paraíba, houve um expressivo fluxo de investimentos no ramo cimenteiro a partir de 2010. Grandes unidades de produção dos grupos empresariais LafargeHolcim, Brennand, Votorantin e Elizabeth Cimentos foram instaladas nos municípios da Microrregião do Litoral Sul. Outros ramos industriais como produção de painéis solares, estruturas metálicas pré-moldadas, vidros planos, materiais plásticos, produtos têxteis e calçados, segundo dados do Ministério da Indústria e Comércio, também foram receptores de inversões no referido economia estadual.

Segundo as contas Regionais do IBGE, em 2016, o setor que ocupava a liderança na produção industrial da Paraíba era o da construção civil(35,5%). O setor de Serviços Industriais de Utilidade Pública era o segundo lugar em Valor Bruto da Produção (21,2%) seguido de couro e calçados( 12%). Com uma tradição histórica na produção de curtumes e com arranjos produtivos calçadistas em algumas áreas do estado, a Paraíba é o 3º maior exportador de calçados do Brasil.
A Paraíba foi, dentre os estados nordestinos, o que conseguiu exibir uma das menores taxas de queda no ritmo de desempenho da indústria entre os anos de 2007/2016, Parte desse resultado está relacionado aos novos empreendimentos industriais de pequeno, médio e grande porte que foram instalados no estado ao longo do período histórico citado. A crise ainda é um fenômeno que inibe uma expansão mais robusta da indústria ao nível estadual, regional e no âmbito do país, mas, ainda assim, vê-se que, alguns empreendimentos aproveitam as janelas de oportunidade para deslanchar novos projetos nas fases de desaceleração econômica.

 

Wanderleya Farias

Professora Adjunta do Departamento de Economia da UFPB
Pesquisadora do NPPDS – Núcleo de Políticas Públicas e Desenvolvimento Sustentável da UFPB

ARMANDO AVENA: HEIDEGGER E A MORTE DE BOECHAT
ARMANDO AVENA: HEIDEGGER E A MORTE DE BOECHAT

 A morte do jornalista Ricardo Boechat deixou-me chocado, não só porque perdemos um grande jornalista, mas também porque sua morte seu deu sob alguns dos signos ou dos estigmas do nosso tempo: a velocidade, a rapidez, a pressa. O progresso no mundo moderno passou a ser sinônimo de velocidade e isso se dá não apenas no sentido de tornar mais velozes nossos meios de transporte, mas também, de aumentar a velocidade e a rapidez com que fazemos as coisas de modo a ter mais tempo para fazer mais coisas. Ser bem sucedido no mundo moderno é ser rápido, veloz, estar em muitos lugares ao mesmo tempo. Paradoxalmente, a rapidez com que nos movemos no dia-a-dia tem o condão de fazer o tempo passar mais rápido, ou assim parece, e de tal maneira que quanto mais velozes somos mais rapidamente o tempo passa.

Em relação ao primeiro aspecto – a velocidade dos meios de transporte e nosso alheamento em relação a quem o dirige – lembro-me do escritor Thomas De Quincey viajando de carruagem, ainda no século XIX, e impressionado com a velocidade do veículo e de como estava ele à mercê do condutor e da precisão da máquina. Em determinado momento, ele percebe que em sentido contrário vem, na mesma pista, outra carruagem com igual velocidade e que “entre eles e a eternidade não havia mais que um minuto e meio”. Desesperado, De Quincey grita em sinal de alerta, mas percebe que se esse primeiro passo competia a ele, o segundo competiria apenas ao cocheiro e o terceiro a Deus.  Assim deve ter se sentido Boechat, no momento em que percebeu que a queda do helicóptero não demoraria mais que um minuto.

De Quincey, cuja história foi relatada por Italo Calvino, estava preocupado apenas com a velocidade da máquina, mas o homem moderno não só deu celeridade inimaginável as suas engenhocas como também estabeleceu como meta agilizar seu dia-a-dia, fazendo do seu cotidiano uma azáfama perene que gira cada vez mais rápido e exige cada vez mais deslocamentos. Isso responde, naturalmente, aos ditames da profissão, às necessidades de um mercado cada vez mais competitivo e ao imperativo de ganhar a vida, como fazia Boechat naquele dia fático, mas é preciso saber que tal velocidade resulta no mais das vezes no alheamento de si mesmo, até porque se o cotidiano é nossa ruína, fazê-lo correr nos arruinará mais rapidamente. Foi o filósofo alemão Martin Heidegger que afirmou ser o cotidiano “a ruína”, pois desviava o ser humano do seu projeto essencial alienando-o do seu objetivo principal e impedindo-o de tornar-se si-mesmo.

Heidegger, que teve como discípula e amante Hannah Arendt, é abominado em alguns círculos intelectuais por ter sido reitor da Universidade de Freiburg em 1933, ano em que Hitler foi eleito chanceler, mesmo tendo se demitido 10 meses depois por discordar do regime, mas escreveu um livro poderoso intitulado Ser e Tempo. Nele afirma que o homem é jogado no mundo sem ter sido consultado e que por isso precisa buscar a transcendência, algo além de si mesmo, mas que as preocupações cotidianas, cada vez maiores e mais aceleradas criam  uma existência inautêntica e o desviam desse objetivo, sacrificando seu eu individual, tornando-o público e assim o distanciam do objetivo essencial de sua vida que é tornar-se si-mesmo.  Uau! Perdoe-me, leitor. Essa digressão filosófica não estava prevista e saiu sem querer, talvez por conta das tragédias e mortes que devastam o Brasil nesse início do ano.  Ou talvez porque o mundo cotidiano e o aniquilamento inevitável de todas as coisas anunciam o Nada, fazendo o homem sentir-se como um ser-para-a-morte, como assim o define Martin Heidegger.

                                                   UMA NOVA ELEIÇÃO

Mal acabou a eleição de 2018 e os políticos baianos já estão alvoroçados pensando na eleição de 2020, principalmente a eleição para Prefeito de Salvador. A disputa vai ser novamente entre o governador Rui Costa e o Prefeito ACM Neto. Ambos já sabem o que deseja a população de Salvador: obras e melhorias nas condições vida. Neto vai forte para a disputa, afinal recuperou Salvador e sua autoestima, tem obras em toda a cidade e no gatilho o BRT e o Centro de Convenções. Rui também está bem avaliado em Salvador por conta do metrô e de outras obras e tem no gatilho o VLT do subúrbio e o tramo 3 do metrô que vai até Águas Claras. Politicamente, o Prefeito está em melhor posição, pois conta com o governo federal e seu partido tem a Presidência da Câmara e do Senado. Rui tem a possibilidade de manter a aliança com o PP e o PSD, partido fortes, que podem se unir ao governador ou preferir o voo solo.

O vice-governador João Leão mira a Prefeitura e pode se cacifar se a ponte Salvador-Itaparica vingar. Já o senador Otto Alencar está como canário em baixo de pano preto, mas na hora H vai cantar e seu canto tem peso. Neto tem muitos nomes e colocou dois em destaque no secretariado. Rui ainda não tem nomes a apresentar, mas tem muito nome bom interessado em se unir ao governador. Como não tem nomes postos, as especulações correm soltas e surgiu até um “professor pardal” sugerindo que o próprio Rui deixasse o governo dois anos antes para disputar as eleições, o que parece absurdo. No mais, tanto Rui quanto Neto terão de ir gradualmente preparando os nomes que poderão entrar na disputa, mas, como no Brasil não há tédio, muita água ainda vai rolar debaixo dessa ponte.

                                                    DUAS AMÉRICAS

A primeira escada rolante de Salvador foi na Loja Duas Américas, na Rua Chile, instalada em 1958, e não na Loja Sloper como afirmei erroneamente na minha última coluna. Agradeço a correção da  leitora atenta que ainda agregou: “Era uma loja de departamentos, que na época era chamada “magazine” e que tinha uma Casa de Chá. Era um local “chique” e bem frequentado”. Outro leitor faz a mesma correção e lembra que a segunda escada rolante foi instalada no edifício Bráulio Pedroso. Fica o registro.

                                                 UMA PÉRGOLA NA BARRA

O calçadão da Barra, especialmente a área que vai do Farol ao Cristo é um dos nossos points e nada tão agradável como caminhar vendo aquela vista maravilhosa. Mas no sol do verão o calor torna o passeio quase impossível. Então vai uma sugestão a Prefeitura: por que não instalar em parte da via uma pérgola como a que se vê na belíssima “Promenade des Anglais” em Nice ou na Foz do Douro na cidade do Porto, em Portugal? Um caramanchão cheio de plantas pode dar um toque especial a Barra.

                                                     SOBRE ECONOMIA

Indagam-me por que tenho falado tão pouco sobre economia. A resposta é simples: o governo ainda não começou e até aqui o que se tem são apenas expectativas.  Esta semana, ao que parece, conheceremos a reforma da Previdência e, quem sabe,  na segunda-feira o governo comece a governar.

JOSÉ MACIEL: A PROPÓSITO DA  FAFEN  NA BAHIA
JOSÉ MACIEL: A PROPÓSITO                                                                                                                       DA  FAFEN  NA BAHIA

No Brasil, tem sido habitual a postura de governos estaduais de envidarem esforços no sentido de atrair  grandes empresas e empreendimentos estratégicos com potencial de geração de impactos e efeitos multiplicadores significativos por toda a economia dos respectivos Estados. E isso tem sido feito, em boa medida, pela falta de uma política  de desenvolvimento regional digna desse nome por parte dos governos centrais. Todos sabem da luta que alguns governos e políticos baianos travaram para trazer importantes investimentos para o nosso Estado, como  a vinda do Polo Petroquímico de Camaçari e o complexo automotivo da FORD. Por outro lado, parece-nos importante também que os governos estaduais  e municipais se envolvam na luta e defesa da permanência de alguns desses investimentos , quando ameaçados de desativação, fechamento ou eventual relocalização em outro local.
Recentemente, os analistas têm se preocupado com o fechamento de alguns ícones da hotelaria baiana em Salvador, a exemplo dos casos dos Hotéis  Pestana e Othon ( o Salvador Praia  Hotel já tinha encerrado suas operações antes dos dois citados). Agora, estamos assistindo  com preocupação a chamada hibernação da FAFEN-Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados, localizada em Camaçari, da fábrica em Sergipe.
Com início de operação no começo da década de 70, a FAFEN produz amônia, ureia fertilizante, ureia pecuária, ureia industrial, ácido nítrico, hidrogênio, gás carbônico e Agente Redutor Líquido Automotivo, vale dizer, insumos  para outras empresas do COPEC e para o setor agropecuário. O seu processo de “hibernação” pode e deve acarretar problemas de suprimentos para várias dessas empresas e para a agropecuária, com aumentos de necessidades de importação, de outros Estados e países, transporte de produtos e insumos perigosos para as populações, e oscilações e incertezas nas planilhas de custos desses  setores  decorrentes da volatilidade cambial.
No caso da agropecuária, o consumo  de fertilizantes, altamente dependente de importações dos adubos NPK (mais de 70% do abastecimento nacional  se dá com produção importada, internalizada no Brasil principalmente nos portos de Paranaguá, Rio Grande e Santos), tem crescido em linha com a expansão da área plantada, ou seja, alguma coisa como 6% ao ano no período recente. E essa expansão tem se  localizada fundamentalmente no Mato Grosso, Bahia, Maranhão, Tocantins e outros Estados do chamado MATOPIBA, a grande fronteira  de crescimento da agricultura brasileira.  Ou seja, são solos de cerrados, muito pobres , cuja fertilidade precisa ser “construída”  com fertilizantes e corretivos , como os adubos NPK e o calcário.  Então, teremos que ter produção crescendo internamente para evitar aumentos de importações  e dolarização  crescente de parte dos custos agrícolas, com as incertezas já apontadas acima.
No caso da demanda da pecuária, o cenário previsto é de aumentos das exportações de carnes, por conta  da maior demanda e conquista de novos mercados, como Ásia, Oriente Médio,  aí  incluídos vários países árabes . Isso se o país  deixar de lado essa ideia de mudar a embaixada em Israel para Jerusalém . Por outro lado, o Brasil,  proativamente,  estabeleceu como uma grande meta a obtenção do status internacional de  país “livre de febre aftosa sem vacinação”  no  período 2019-2023, o que deve possibilitar a abertura de novos mercados de nações que só importam carne oriunda de  rebanhos livre de aftosa sem vacinação. A pecuária brasileira  está progressivamente saindo de terras degradadas , aumentando sua produtividade em áreas menores e a proporção de criação de gado em regime de confinamento. Tudo isso parece apontar para o aumento da demanda de ureia para suplementação do rebanho nos próximos anos.
Dito isso, a ideia  é que os governos baiano e sergipano, com os municípios de Camaçari e Laranjeiras, sedes das duas FAFEN, aumentem as pressões e gestões junto à Petrobras e ao governo Federal  para obter uma solução visando a continuidade das operações  da FAFEN-BA E FAFEN-SE. Uma  alternativa ao arrendamento proposto pela  Petrobras , poderia ser a privatização. Nesse sentido  , os  atores citados acima   poderiam deflagrar conversações com empresas líderes do mercado de fertilizantes,  potencialmente interessadas, como a norueguesa Yara Brasil, a Mosaic, a Fertipar e outras.   A  Heringer dificilmente se interessaria pela privatização, pois acaba de de pedir a    a recuperação judicial. Esse é um possível caminho, dentre outros.    O importante é manter as empresas em operação e os empregos na Bahia e em Sergipe.
José Maciel
Consultor Legislativo e doutor em Economia pela USP. E-mail: jose.macielsantos@hotmail.com
ARMANDO AVENA:  1979: O ANO I DA LIBERDADE
ARMANDO AVENA:  1979: O ANO I DA LIBERDADE

 Era 1979. O céu do Brasil ainda estava manchado de verde oliva, mas um raio de sol teimava em surgir no horizonte. Após anos de trevas, o verão chegava com luz: o Ato Institucional nº 5, a ferramenta maior da ditadura, havia sido extinto no final de 1978 e os brasileiros começavam a sonhar com a democracia. Era um sonho débil, afinal um general escolhido por outros generais ainda ocupava a presidência, governadores e prefeitos eram nomeados, mas, apesar disso, o ano de 1979 estava prenhe de liberdade. O povo brasileiro exigia que ela nascesse e o parto começou com a aprovação da lei da Anistia e a volta ao país de  centenas de opositores ao regime militar. Brizola voltou injetando novos ares na política, Betinho, o irmão do Henfil, chegou empunhando a lança do combate a pobreza, Waldir Pires aportou na Bahia antes mesmo da anistia e Gabeira, um dos sequestradores do embaixador americano Charles Elbrick, desceu a escada do exílio anunciando a liberdade sexual e a revolução nos costumes e causando furor ao desfilar com uma sunga minúscula de crochê lilás pelas praias do Leblon.

A liberdade sexual e um certo ar andrógino também pareciam ter voltado do exílio junto com Gabeira mas eles tinham aportado muito antes com Caetano Veloso rebolando e cantando “O que é que a baiana tem” e com Gal, uma linda índia branca de calcinha, aparecendo quase nua na capa do disco Índia. Já então Caetano parecia ter como sina ser o alterego do Brasil, mas nos idos de 79 o posto ainda estava ocupado por Glauber Rocha, que estreou o polêmico programa Abertura na antiga TV Tupi para decretar, com sua verve incontrolável e maravilhosamente inconsequente, que “o cinema é a consciência nacional”. E como que avalizando o cineasta, Caetano lançava naquele ano “Cinema Transcendental” – “O melhor o tempo esconde/ Longe muito longe/ Mas bem dentro aqui” – e voltava ao palco dos festivais, cantando “Dona Culpa ficou Solteira” , de Jorge Ben, para novamente ser vaiado pelo público.

Quem ganhou o festival foi um jovem compositor de nome Dominguinhos com a música “Quem me levará sou eu”,  premiada com a quantia de 1 milhão de cruzeiros  Era quase nada, num país cuja inflação chegava a 80%  ao ano e a crise econômica parecia treinada para vencer generais e economistas. Mas quem se importava com a economia se a liberdade estava escapando pelas frestas da porteira da ditadura. A peça Rasga Coração, de Oduvaldo Vianna Filho, censurada durante anos pelo regime militar, tinha sido finalmente encenada e logo depois seria a vez de Calabar; a música já não era avalizada pelos censores e Gil cantava o Super-Homem – “um dia vivi a esperança de quer ser homem bastaria” –  e Chico Buarque em  “Pedaço de mim” fazia uma ode aos desaparecidos – “a saudade é o revés de um parto/ a saudade é arrumar o quarto/ do filho que já morreu. Finalmente a censura fora  exorcizada, os jornalistas repudiaram a mordaça e a “imprensa alternativa” deu voz ao Brasil. Enquanto isso,  os sindicatos se fortaleciam e no ABC surgia o Partido dos Trabalhadores, que seria criado em fevereiro do ano seguinte, sem que se pudesse prever que com ele viria a esperança e a frustação.

Na Bahia ocorre um marco dos novos tempos.  A UNE – União Nacional do Estudantes, impedida de funcionar durante os anos negros da ditadura, faz em Salvador seu Congresso de refundação o primeiro fora da clandestinidade e com o apoio do governador Antônio Carlos Magalhães que, embora eleito de forma indireta, não atendeu  às recomendações do chefe do poderoso SNI, o Serviço Nacional de Informações, e cedeu o Centro de Convenções de Salvador para os estudantes. Havia algo diferente no céu daquele ano e não eram naves extraterrestes.  E de repente, no Pelourinho, em uma noite de lua, ouviu-se um som tão diferente que parecia vindo de outro planeta, era um batuque cadenciado, uma mistura de samba e reggae que iria encantar o mundo. Neguinho do Samba fazia surgir o samba-reggae da Bahia e o Bando do Olodum e eles se espalham pelo mundo fazendo o próprio rei da música vir depois ao Pelourinho para reverenciá-los. E havia muito mais. No Brasil e na Bahia, os sinais estavam em toda à parte e eles mostravam o caminho da liberdade, a liberdade no pensar, na política, no sexo, na vida. 1979 foi o ano I da liberdade, mas muitos anos se passaram e muita luta foi preciso antes que ela fosse plena e ainda hoje ela não o é para muitos brasileiros. Por isso, 40 anos depois, é tempo de lembrar o quanto foi difícil conquista-la, apertar a mão do poeta e dizer:  “A praça! A praça é do povo/Como o céu é do condor/É o antro onde a liberdade/Cria águias em seu calor.”

                                                           AINDA 1979

E muito mais aconteceu na Bahia em 1979, ano em que foi criado esta folha, que hoje é o mais importante jornal do Norte e Nordeste do país e no qual Luiz Caldas cantou pela primeira vez nas ruas de Salvador, já grávido do Axé, o movimento que faria do carnaval da Bahia a mais importante festa do Brasil.

AS REFORMAS DE RUI E NETO

As reformas de secretariado do governador Rui Costa e do Prefeito ACM Neto não trouxeram novidades: time que está ganhando não se mexe muito. Na Prefeitura, dois nomes importantes assumem pastas estratégicas: Bruno Reis e Léo Prates. Ambos podem se cacifar para o futuro. Nas hostes do governo do Estado as principais pastas não sofreram modificações. A ida do vice-governador para a Secretaria de Desenvolvimento Econômica foi mais que acertada: João Leão está mais para a ação do que para o planejamento e é um tocador de obras cheio de entusiasmo. Já a nomeação do empresário Fausto Franco para o turismo pode ser uma injeção de sangue novo no setor. Franco tem desenvoltura, transita bem em São Paulo, nosso maior mercado, e pode surpreender.

                                                  AS RUAS DE SALVADOR

 A primeira vez que vi uma escada rolante foi na Rua Chile nas lojas Sloper. A Rua Chile era a passarela de Salvador e a classe média  adorava ir lá. Hoje a classe média baiana não anda mais nas ruas da cidade, trocou o prazer de fazer compras ao ar livre pelo prazer duvidoso de ficar caminhando pelas inexpressivas veredas dos shoppings. Isso é resultado das mudanças urbanas e do aumento da violência, mas é preciso resgatar esse bom hábito.  Todas as grandes cidades turísticas do mundo tem ruas que reúnem lojas, restaurantes e hotéis, geralmente no entorno do centro histórico, e que atraem os turistas e os moradores da cidade. Salvador tem duas ruas que poderiam ser assim: a Rua Chile e a Av. Oceânica, na Barra. A Barra,  que após a reforma tornou-se um point da cidade, e a Rua Chile que está sendo recuperada. Ambas, precisam agora que o poder público estabeleça um plano de ocupação com estímulos e incentivos a construção de hotéis, restaurantes, lojas, inclusive de grife, e equipamentos que possam atrair os turistas e a população.