ENTREVISTAS
 
OSWALDO GUERRA - ECONOMISTA E PROFESSOR DA UFBA


Bahia Econômica: A produção da indústria da Bahia caiu 4,3% em janeiro deste ano, em relação a dezembro de 2016, e recuou 15,5% na comparação com janeiro do ano passado, segundo dados do IBGE divulgados recentemente. A indústria da Bahia está perdendo competitividade ou esse resultado reflete um momento de crise?

Oswaldo Guerra: A perda de competitividade industrial não é uma exclusividade baiana. É brasileira e não é resultado apenas da profunda crise que atingiu a economia brasileira, ainda que essa crise impacte negativamente nos resultados. Nos últimos anos, a base industrial brasileira perdeu competitividade em decorrência da baixa propensão a inovar (resultante, entre outras coisas, do inadequado perfil de renda da sociedade e da ausência de perspectivas de crescimento sustentável da demanda), dos elevados juros reais praticados no mercado, de uma taxa de câmbio que na maior parte do tempo foi indutora de importações e não de exportações, da carência de uma moderna infraestrutura logística e, não menos importante, da forte concorrência internacional, especialmente da China. Como se não bastasse tudo isso, a forte instabilidade dos cenários institucional, social e político redundaram em expectativas empresariais fortemente negativas, desestimulando investimentos industriais.

BE: Na comparação janeiro de 2017/ janeiro de 2016, o setor industrial da Bahia registrou queda em oito das doze atividades pesquisadas. As influências negativas mais importantes vieram dos setores de coque, produtos derivados do petróleo e biocombustíveis (-21,9%), de veículos automotores, reboques e carrocerias (-38,0%) e de metalurgia (-32,4%).  A que o senhor atribui essa queda nesses setores?

OG: Gostaria de ampliar essa análise, retrocedendo para o ano de 2016, pois assim podemos separar influências negativas associadas à crise brasileira de outras mais conjunturais. O ano de 2016 como um todo foi terrível para a Bahia. A queda do PIB chegou a - 4,9%, taxa maior, portanto, que a queda registrada no PIB brasileiro (- 3,6%). Foi o pior resultado do PIB baiano desde que a série de cálculo passou a ser sistematizada pela Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI) em 2002, cabendo destacar que, em 2015, a economia baiana já tinha encolhido - 3,3%.

Os três grandes setores da economia baiana foram mal em 2016. Mas a queda bem superior da economia baiana quando comparada com a brasileira é explicada pela grande retração do setor agropecuário, que foi bem maior na Bahia (-20,6%) que no Brasil (-6,6%). Isso foi um reflexo da forte seca no Nordeste. Nos serviços, que respondem por 71% da economia baiana, a contração foi de – 2,5%, com as maiores quedas ocorrendo nos segmentos de comércio (-8,1%) e de transportes (-7,3%). Já na indústria, a variação negativa foi de 7,7%, com destaque para a grande retração na extração mineral, que foi de 18,5%. Isso por causa do encerramento das atividades em alguns poços de petróleo que gerou uma redução na produção de petróleo e gás. A Petrobras não tem interesse em continuar produzindo nos pequenos poços terrestres da Bahia e de outros estados. Outro segmento industrial que experimentou uma significativa queda foi o setor de produção e distribuição de energia elétrica (7,4%). Aqui, a recessão econômica brasileira impactou negativamente e pesou também a redução na vazão do lago de Sobradinho, uma consequência da seca. Já os segmentos de construção civil (- 8,7%) e a indústria de transformação (- 1,7%), onde se hospedam a produção de veículos e a metalurgia, tiveram desempenhos negativos em razão da crise brasileira. Ou seja, a queda da atividade industrial baiana na maioria dos segmentos pesquisados vem sendo uma constante ao longo de 2016 e continua nesse primeiro mês de 2017, sendo afetada por fatores nacionais e regionais.

BE: Especialistas dizem que a Bahia está se desindustrializando e que a indústria na Bahia está perdendo espaço. O senhor concorda com isso?

OG: Isto está ocorrendo, mas, novamente, não é uma exclusividade baiana. A participação dos serviços no PIB brasileiro atingiu, segundo o IBGE, 73,3% em 2016, quase dez pontos percentuais a mais que os 64,7% de 2004. Esse aumento se deu em grande medida à custa da indústria de transformação, cuja participação no mesmo período caiu de 17,8% para 11,7%. Na atual crise brasileira, a indústria de transformação, como um reflexo da perda de competitividade, tem sofrido mais que os serviços. A produção industrial caiu 4,7% em 2014, 10,4% em 2015 e 5,25% em 2016, enquanto que os serviços cresceram 1% em 2014 e tiveram variações negativas de 2,7% em 2015 e 2016.

Apesar de ter focado os três últimos anos, esse movimento antecede à atual crise. Desde a metade da década de 2000, o setor de serviços passou a ganhar participação e a indústria de transformação a perder. À medida que a economia se urbaniza e o emprego e a renda crescem, os serviços aumentam sua participação no PIB. Em alguns países (EUA, Reino Unido e França), essa participação oscila entre 75% a 80%. Resta, todavia, investigar mais profundamente, considerando a atual nível de renda per capita do país, se este processo de desindustrialização não estaria ocorrendo precocemente no Brasil. É bem possível que sim.
 
Enquanto a indústria está sujeita à concorrência internacional, muitos segmentos do setor de serviços não sofrem a concorrência dos importados. Assim sendo, diante do avanço competitivo dos concorrentes internacionais e das conhecidas fragilidades competitivas que assolam a indústria nacional (juros altos, câmbio valorizado, educação deficiente, infraestrutura precária, sistema tributário caótico etc.), a desindustrialização tem avançado com força. No caso específico da Bahia, as dificuldades que vem passando a petroquímica, o principal segmento da indústria de transformação do estado, reforçam esse quadro.


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