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ARTIGO
 
29/10/2017 08:33
ARMANDO AVENA - OS 100 ANOS DA REVOLUÇÃO RUSSA E O RENEGADO LÊNIN

 
Cem anos após ter mudado o mundo, o corpo de Lênin está em exposição, inteiramente preservado, no mausoléu da Praça Vermelha, em Moscou, mas ele está morto. O corpo de Karl Marx, ao contrário, está completamente apodrecido no cemitério de Highgate, em Londres, mas ele está vivo.

Toda revolução digna desse nome se funda num grande pensador e produz um grande líder. A revolução Russa, que completa 100 anos neste outubro de 2017, se fez baseada nas ideias de um grande pensador, Karl Marx, o pai do socialismo, e gerou em suas entranhas um grande líder:  Vladimir Ilitch Lênin. Mas enquanto Marx permanece vivo, apesar dos inúmeros percalços que a história lhe reservou, Lênin está completamente morto.

Marx está vivo porque a essência de sua teoria ainda se mantém de pé, apesar dos vários reveses que sofreu ao longo do século XX. A tese central do teórico alemão afirma e reafirma a evolução dos modos de produção, sem estabelecer  tempo ou espaço para sua consecução, apenas assegurando que, assim como o feudalismo se exauriu, esgotado por suas crises internas, e foi superado, o capitalismo, que lhe sucedeu,  também está sujeito a crises recorrentes e em algum momento uma delas o fará desabar, fazendo surgir o modo de produção socialista.

A teoria de Marx tem um ranço determinista, mas sua coerência é tal que, aceitando as premissas estabelecidas, o edifício teórico que ele construiu se mantém de pé e nada poderá garantir que uma crise de grande proporções, como a de 2008 que desestruturou completamente a economia capitalista, não vá ocorrer novamente e  seja a crise final que destruirá o capitalismo.

Lenin, no entanto, está morto, não por ter liderado a Revolução Russa e implantado o primeiro regime dito socialista da história, mas por ter renegado Marx, revisando o cerne de sua teoria e criando um Frankenstein teórico alcunhado de marxismo –leninismo. Certa vez, ao ler o programa de um partido que se dizia marxista, Karl Marx afirmou peremptório: se isso é marxismo, eu não sou marxista. Se tivesse visto o que Vladimir Ilitch Lênin fez com sua teoria, o velho Marx repetiria a frase e diria sem pestanejar: eu não sou marxista-leninista.

Nos primeiros anos do século XX, Lênin vai romper com Karl Kautsky, marxista histórico e mais importante teórico da Segunda Internacional Socialista, questionando sua concepção de partido e a forma como analisava a relação entre democracia e socialismo num livro famoso, Arevolução proletária e o renegado Kautsky, em que destrói sua reputação acusando-o de querer transformar Marx num liberal e de não compreender o sentido daquilo que seria “a ditadura do proletariado”. 

É verdade que Kautsky abordava o marxismo de forma crítica, mas, em essência, mantinha a ideia do desenvolvimento histórico-social evolutivo proposta por Marx. Lênin, ao contrário, introduziu mudanças tão grandes na teoria marxista que terminou por desvirtua-la e a tal ponto que não seria demais rotulá-lo de “o renegado Lênin”.

Antes de tudo, Lênin quebra o caráter evolutivo da teoria marxista – que supõe o socialismo como uma etapa posterior ao capitalismo – admitindo a possibilidade de um salto revolucionário que faria a Rússia sair do feudalismo diretamente para o socialismo, sem passar pelo capitalismo.  Marx jamais admitiria que um país pobre e feudal chegasse ao socialismo, pois pressupunha que para se chegar a ele seria necessário um alto nível de desenvolvimento tecnológico, uma produção super abundante e uma sociedade opulenta, característica do capitalismo nos países ricos, que permitiria distribuir tudo a todos. Marx  jamais propôs socializar a miséria e dizia peremptoriamente  que o “galo ia cantar” na Inglaterra, na França ou na Alemanha, jamais num país pobre sem riqueza para distribuir.

Como não seria possível na visão marxista fazer a revolução proletária num país agrário, sem proletários, Lênin renega Marx e propõe uma esdrúxula aliança entre camponeses, proletários e a pequena burguesia. O velho Marx nunca poderia admitir que os agricultores, muitas vezes proprietários de terras, pudessem tornar-se revolucionários, tampouco admitiria a tese leninista que daria a “vanguarda” – compostas de intelectuais pequeno burgueses, revolucionários, e trabalhadores combativos – o papel de conduzir as massas revolucionárias. Marx abominava as “vanguardas” e no momento em que Lênin entrega a revolução que seria dos trabalhadores e, como tal, democrática, a um grupo de intelectuais, “uma intelligentsia” que teria o papel diretivo e condutor das massas, ele renega o marxismo e faz da revolução socialista uma revolução partidária cujo objetivo seria construir um estado burocrático, centralizador, tecnocrático e policialesco.  Para dar consistência à sua tese, Lênin desvirtua o conceito de “ditadura do proletariado”, que para Marx existiria para por fim ao estado burguês e extinguir-se e não para criar um novo estado.

Para Marx todo Estado é opressor e tem origem na luta de classes, assim, a função da ditadura do proletariado seria a eliminação da propriedade privada e a eliminação das diferenças de classe. Os meios de produção. passariam a pertencer à sociedade, e com isso as classes seriam extintas. Sem classes,
não haveria mais Estado, cuja função primordial é a opressão de uma classe sobre a outra.

Marx jamais seria a favor do agigantamento do Estado proposto e implementado por Lênin, pois sua teoria tinha como meta exatamente sua extinção.  Tanto Marx quanto os anarquistas queriam o fim do Estado, com a diferença fundamental de que estes queriam o seu fim imediato e aquele considerava necessário o estágio da “ditadura do proletariado” quando as classes desapareceriam e o poder seria descentralizado num autogoverno democrático. Vladimir Ilitch Lênin renegou o mundo sem classes de Marx, eliminou a ideia de democracia proletária e criou uma classe dirigente, uma nova classe dominante, que controlava um estado burocrático e centralizado cuja função era oprimir a maioria do povo.

Uma revolução que renega a teoria sobre a qual foi construída não poderia sobreviver. A revolução russa afastou-se do seu caráter universal e desabou como qualquer ditadura que pretende manter o poder a qualquer custo. Lênin está morto e sepultado e sobrevive apenas nas páginas da história. Marx, no entanto, vive, pois, o capitalismo, ainda que pareça uma fênix que renasce ao longo do tempo, pode tornar-se incapaz de organizar a sociedade, pode ruir frente à a insensatez com que consome os recursos do planeta e a forma como concentra a riqueza e, então, “tudo que é sólido vai se desmanchar no ar, tudo que é sagrado será profanado e os homens serão forçados a enfrentar com sentidos mais sóbrios suas reais condições de vida e sua relação com outros homens”.

Armando Avena é professor da UFBA e autor do romance “O Manuscrito Secreto de Marx”.
Publicado no jornal Correio 

 
 
 

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