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ARTIGO
 
14/05/2017 09:25
ADARY OLIVEIRA - A TICA EMPRESARIAL

 



Era uma vez um escorpião que desejava cruzar um rio. Como não sabia nadar pediu ajuda a um sapo para que lhe atravessasse montado em suas costas. O sapo respondeu que não faria isso porque poderia ser ferroado por ele. O escorpião então argumentou que não cometeria esse erro, pois se o picasse com seu veneno mortífero ambos morreriam afogados. O sapo então concordou e iniciaram a travessia. Lá pelo meio do caminho o escorpião, pressionado pelo seu instinto animal, passou a pensar sobre a oportunidade que estava perdendo de ferroar um sapo indefeso, sem nenhuma possibilidade de saltitar diante de sua aproximação e então o ferroou. Ambos mergulharam e morreram afogados.

A fábula do escorpião com o sapo relatada acima, ilustra muitas situações em que a ética na empresa deixa de ser cumprida por pressão que o instinto animal exerce sobre certas pessoas. Ético é o que é certo e aético é o que é errado. Muitas vezes numa empresa um individuo, que coloca as suas realizações acima de tudo, termina por prejudicar outro e passa a usá-lo como degrau de escada para sua ascensão, derrubando-o quando pensa que ele poderia ser seu concorrente em eventual disputa por cargo superior.

Em se tratando de ambiente empresarial, o impulso animalesco se manifesta de várias formas e não apenas no desejo de se galgar posições mais acima. Individualmente o instinto se desponta na forma de ganância por mais dinheiro, fascínio por adquirir mais poder, satisfação por enganar alguém, contentamento por ver seu ego fortalecido, regozijo por ter derrotado fulano, ledice de levar vantagem em tudo. No gerenciamento das empresas passa-se a colocar acima de tudo a sobrevivência, o crescimento, a perpetuidade e o desenvolvimento a qualquer custo.

A conquista de mercados às vezes não tem como foco a satisfação dos consumidores, mas como galgar posições derrotando os concorrentes. A descoberta de novas tecnologias que proporcionem assimilação de inovações para alcance de novos ganhos de produtividade, melhoria de qualidade e redução de custos, pode ser obtida através da pesquisa e investigação científica, mas também por espionagem, compra de informações, plágio de processos produtivos, suborno ou aliciamento de pessoas.

Os casos mais frequentes de comportamento aético das empresas verificam-se naquelas que prestam serviços ao governo, principalmente das que realizam obras de infraestrutura. Se, de um lado, o governo busca promulgar leis e editar normas e regulamentos tentando proteger-se de eventuais falcatruas, do outro lado, muitas empresas procuram encontrar um procedimento amoral através de acerto de preço entre os concorrentes, compra de posição, suborno dos agentes públicos e toda sorte de artifício para inescrupulosamente auferir ilimitados lucros.

No caso das chamadas empreiteiras, muitas cresceram no país e se expandiram pelo mundo praticando todo tipo de corrupção. Dizem que o ladrão começa a roubar escondido. Depois se acostuma de tal forma que passa fazê-lo na frente de todos. Aí vem a polícia e o prende. É o que está acontecendo atualmente com o Lava Jato empreendido pela Polícia Federal e Ministério Público. Justo agora, lamentavelmente, que nossas empresas tinham assimilado as mais modernas técnicas de construção e passaram a exportar serviços de qualidade.

Mas quanto tempo os projetistas e engenheiros, que detém consigo valiosas informações, levarão para se posicionar novamente no mercado de trabalho se as empresas envolvidas não conseguirem sobreviver ao imbróglio em que se meteram? Será que teria sido necessário adotar o comportamento do escorpião da fábula para expandirem seus negócios? Ficam as indagações e o desejo de que a história não se repita.

Adary Oliveira
 Doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, Espanha
adary347@gmail.com

 

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