COLUNISTAS
FRASE DO DIA

"Aqui está a essência do que me fez entrar para a política, do que eu aprendi em casa: só a educação transforma" 

Rui Costa(PT)
Governador da Bahia, em discurso no lançamento do projeto Escolas Culturais em Itabuna

ARMANDO AVENA - DILMA, A ESTAGFLAÇÃO E A TEMPESTADE PERFEITA
 

 
 
Aquilo que todos temiam está acontecendo: O Brasil está no meio de uma tempestade quase perfeita. A cotação do dólar fez as vezes do serviço de meteorologia ao superar os 4 reais, uma marca histórica, nunca alcançada desde a implantação do Plano Real. A alta do dólar não é causa, é efeito, e reflete a incerteza econômica e política na qual vive o país, afinal, em tempos de crise, sempre ocorre uma corrida ao ativo mais seguro que existe no mercado.
 
A semana foi pródiga em sinais que indicam a formação da tempestade perfeita, a começar pelo reconhecimento, por parte do governo, de que o PIB vai cair 2,44%  em 2015 e, quando o governo admite o número, está chancelando a previsão do mercado que indica, na verdade, uma brutal recessão na economia brasileira, uma queda da ordem de 3%  do PIB. 

Mas tudo tem seu lado positivo, diria um espírito otimista, afinal, uma queda dessa magnitude no PIB - embora tenha efeitos desastrosos,  gerando alto nível de desemprego e fechamento de empresas - pelo menos tem o poder de fazer a inflação despencar, frente a uma queda tão espetacular do consumo.
 
Ledo engano.: o Brasil de hoje assiste-se a um fenômeno relativamente raro chamado estagflação, uma tortuosa mistura de recessão ou estagnação econômica com inflação em alta, pois, além da queda de 3% do PIB, a economia brasileira vai registrar, no final de 2015, uma inflação de dois dígitos, em torno de 10%, apesar das taxas de juros estarem nas alturas. Isso pode acontecer porque a disparada na cotação do dólar tem nítidos efeitos inflacionários já que parte dos bens que o brasileiro consome e parte dos insumos e matérias-primas que a indústria necessita são importados e vão ficar mais caros, gerando o inevitável aumento nos índices inflacionários. 

Mas por que a cotação do dólar está subindo tanto? 
A resposta é simples: os agentes econômicos não acreditam mais no governo, nem na sua capacidade de implementar um ajuste fiscal que dê a economia uma rota para que no futuro seja possível alcançar um porto seguro. Além disso, o mercado espera que a qualquer momento as duas agências de risco que ainda mantêm o Brasil na categoria de país com grau de investimento retirem esse selo, o que vai resultar na saída em massa dos dólares que aqui estão investidos, afinal são muitos os fundos de pensão e fundos de investimentos que proíbem investimentos em países com grau especulativo.

Em poucas palavras: o dólar está subindo porque o mercado teme o futuro e busca proteção na moeda mais forte do mundo. E o que o governo pode fazer frente a esse quadro?
O governo Dilma Rousseff foi o responsável pela formação da tempestade perfeita e em nove meses gerou nas suas entranhas um ser disforme, um quasímodo corcunda, alimentado pela incompetência, pela arrogância com que retirou a credibilidade do ministro Joaquim Levy e do ajuste fiscal salvador, pela reiterada crença numa política intervencionista e desenvolvimentista e pela perda de credibilidade junto ao Congresso Nacional e a população brasileira. 

E como matar o monstro que está encastelado no Palácio do Planalto?
É difícil saber, pode-se tentar soluções paliativas, como remover a corcunda que atende pelo nome de Mercadante, ou restauradoras, com a presidente tentando recompor a base aliada via distribuição de ministérios, ou ainda traumáticas, com o Congresso votando o impeachment. 
 
Tecnicamente, talvez seja melhor lembrar o que não se deve fazer neste momento.  Deve-se, por exemplo, evitar a tentação de aumentar mais  a taxa de juros para tentar impedir que a alta do dólar seja repassada à inflação, pois isso poderia levar o país a uma depressão econômica sem precedentes. 
 
Deve-se também evitar usar as reservas do país, da ordem de US$ 380 bilhões de dólares, para tentar baixar a cotação do dólar, pois isso seria enxugar gelo. Tampouco usá-las como estão propondo em alguns gabinetes na Esplanada dos Ministérios, para pagar parte da dívida pública, afinal, isso serviria apenas para comprometer o único pilar de sustentação externa do país. 
 
Além disso, dívida não se paga, se rola, mas para fazer isso com juros razoáveis é preciso que o país volte a ter credibilidade. O fato é que as alternativas para a economia brasileira estão escasseando e no horizonte vê-se apenas, além da tentativa desesperada de aprovar no Congresso um ajuste fiscal deformado, a sombra do impeachment escurecendo o Palácio do Planalto.
Ataque especulativo

Questionam-me sobre a possibilidade de um ataque especulativo ao país. Ataque especulativo é a aposta dos investidores contra a moeda de um país, forçando sua desvalorização, mas isso ocorre, geralmente, quando não há dólares suficientes para suprir as necessidades do país.  Não parece ser o caso. O Brasil não registra fuga de capitais e o saldo cambial foi de quase US$ 12 bilhões em agosto. O país tem US$ 380 bilhões em reservas, dez vezes mais do que em 2002, o que significa que existe um confortável colchão de moeda forte.

E as contas externas vão bem, com as exportações crescendo, as importações caindo, e os brasileiros viajando menos para o exterior e, assim, o déficit na balança de serviços está caindo. Não há clima para um ataque especulativo. A disparada do dólar não reflete os fundamentos da economia, reflete a incerteza com o futuro. O problema brasileiro neste momento está centrado na falta de governança, nas idas e vindas da política econômica e na falta de coordenação política. A economia brasileira precisa apenas de estabilidade política e clareza na política econômica para se recuperar.
Ajuste fiscal deformado

A proposta do governo federal de se apropriar de 30% das contribuições do setor privado ao Sistema S, a estrutura educacional da indústria, é um exemplo  de como o governo federal tem errado a mão no ajuste fiscal. Dez entre dez economistas afirmam que o aumento da produtividade é uma das formas do país voltar a crescer e tornar-se mais competitivo, e para isso é fundamental uma maior profissionalização da mão de obra. Na região Nordeste, mais que fundamental, o ensino profissionalizante é imperativo.

Na Bahia, o corte vai comprometer investimentos em 12 escolas de formação profissional no interior e a expansão das unidades existentes. E vai reduzir as matrículas no ensino médio e o fechamento de escolas.  É incrível que neste momento de queda no emprego e de jovens perambulando pelas ruas o governo corte exatamente na área que abre alguma esperança de futuro para o emprego no país.

II Fórum Bahia Econômica: Em tempos de crise é preciso prospectar o futuro e esse será o foco do II Fórum Bahia Econômica, que será realizado no próximo dia 16 de outubro na Federação das Indústrias do Estado da Bahia, em comemoração aos seis anos do portal Bahia Econômica. 

Lideranças políticas e empresariais, presidentes de empresas públicas e privadas já confirmaram presença e a programação terá como eixo a análise macroeconômica e as perspectivas da economia baiana e de Salvador. 

Caberá ao governador Rui Costa e ao prefeito ACM Neto, convidados especiais, traçar os caminhos da Bahia do futuro, e à Fieb e à Fecomércio analisar os principais setores da economia baiana e as perspectivas para a superação da crise. Em relação à economia brasileira, terá a palavra o economista Raul Veloso, o mais técnico e mais focado analista da crise brasileira.



 


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