COLUNISTAS
FRASE DO DIA

“Este é o fenômeno da responsabilidade fiscal e esta responsabilidade fiscal é o que importou neste pequeno ato do PIS/Cofins, em primeiro lugar para manter a meta fiscal que estabelecemos.”

Michel Temer
Presidente do Brasil 

O PRÍNCIPE DE ITAPARICA



Neste julho que mais parece agosto, a morte montou acampamento ao lado da literatura brasileira.  Então, dona da vontade dos homens, ordenou a Ivan Junqueira: É hora de ir. E lá se foi o poeta, que nos deu a belíssima tradução de T.S Eliot. Não, não era  abril, mas julho o mês cruel, e só estava no início.  Depois, os dias se passaram e tudo fazia crer que ela havia cruzado o Aqueronte de volta ao reino dos mortos. Qual nada, julho ainda estava em seus meados e ela foi ter com João Ubaldo Ribeiro numa sexta-feira agourenta. O príncipe de Itaparica não deve ter se espantado ao vê-la, ele, que amava e declamava Shakespeare,  sabia que os homens têm uma dívida a pagar e dela não podem escapar.  “Devemos uma morte a Deus” diz o indecifrável homem de Stanford, e esse débito não tem perdão –, mas não carecia cobrá-lo tão prematuramente.  E foi grande a dor por Ubaldo ir-se, tão pouco tempo fazia que estava entre nós, tanto ainda tinha a fazer por nós  o autor não devia morrer antes do último ato, pois senão quem escreverá o restante da peça?  Triste, fui buscar ânimo na poesia e encontrei algum consolo em Fernando Pessoa: “A morte é a curva da estrada/ Morrer é só não ser visto”.  Está bem, não veremos mais Ubaldo, mas ele estará conosco na sua obra, imortal bem antes de sua morte, e em cada personagem cuja vida moldou no barro de sua imaginação.  Sim, mas perdoe-me poeta, essa resiliência não está a combinar com tanta perda, há curvas demasiadas na estrada que leva a esse agosto distante e, ao que parece, algo ainda espreita à sombra desse julho maldito. E assim foi,  pouco antes de chegar o abençoado agosto, a morte levou Ariano Suassuna, como se estivesse predisposta a  tornar-nos órfãos da literatura, nós que já somos órfãos de Deus. Não há de ser nada, Ariano já está lá, ao lado de João Grilo e Chicó, ocupando-se em engabelar o diabo, e Dom João Ubaldo I, Príncipe de Itaparica, do Leblon  e de Alhures, haverá de nos valer nessa e na outra vida.  


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